Os recentes avanços das forças do novo governo sírio em ofensiva relâmpago contra o braço armado da resistência curda (Forças Democráticas da Síria ou FDS) representaram a mudança mais profunda no cenário do país desde a deposição do presidente Bashar al-Assad, em 2024. A queda do líder alauita marcou o fim dos 13 anos de guerra civil, com o novo governo em Damasco controlado por Ahmed al-Sharaa, que integrou o grupo fundamentalista islâmico sunita Al Qaeda até 2016.
Hoje, curdos e o Exército sírio vivem em frágil trégua, para troca de prisioneiros e na esperança que negociações ponham fim ao impasse que impede a unificação do país. Acusações de violações dessa trégua partem de ambos os lados.
Caldeirão de diversas etnias, atravessadas por interesses particulares e disputada por vizinhos com agendas distintas, a Síria não é um país estável. “É muito improvável que o governo de al-Sharaa consiga manter o país estável nos próximos anos sem uma revolta étnica que se expanda para uma guerra civil” diz o analista geopolítico Hugo Albuquerque à reportagem.
Para entender as peças deste tabuleiro e o que está em jogo, o Brasil de Fato preparou um guia com os pontos principais do conflito. Veja abaixo:
Quem é o novo governo sírio?
Ahmed al-Sharaa assumiu em janeiro de 2025 o governo sírio, após seu grupo militante islâmico, o Hayat Tahrir al-Sham, ter liderado a coalizão de grupos que pôs fim ao governo de Assad após 24 anos. O alauita havia sucedido seu pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por outros 29 anos.
Muçulmano sunita nascido de família síria na Arábia Saudita em 1982, al-Sharaa ingressou na Al Qaeda pouco antes da invasão do Iraque pelos EUA em 2003. Capturado por militares estadunidenses, ficou detido entre 2006 e 2011 e foi libertado quando os protestos contra Assad ganharam força, o que desembocaria na guerra civil, iniciada em 2013.
A partir de 2012, com o aval da Al Qaeda, criou o grupo Al-Nusra para combater Assad na guerra civil, fazendo seu reduto em Idlib, no noroeste sírio. Em 2016, rompeu com a rede fundada por Osama bin Laden e passou a buscar legitimidade internacional ao adotar uma retórica mais moderada, renunciando publicamente ao jihadismo (guerra santa contra outras religiões) e prometendo proteger outros grupos étnicos na Síria.
Ao assumir o poder, extinguiu o partido Bath, que governou a Síria pelos 53 anos dos governos Assad, e diversas instituições do regime. O país, no entanto, segue fragmentado (veja abaixo).

Fundamentalismo como norte
Sua vertiginosa ascensão culminou com o convite para visitar os EUA, sendo o primeiro líder sírio a entrar na Casa Branca, em novembro. Simpático aos fundamentalistas do Estado Islâmico e apoiado também por Israel, que o alertou de um plano iraniano para o assassinar, seu governo acumula denúncias de violência contra minorias, apesar da tentativa de transmitir imagem de tolerância.

“Além de manter a governança do país, ele quer por em prática o programa fundamentalista sunita, do qual fazia parte a Al Qaeda, até assumir essa versão paz e amor. Mas essa versão mais palatável não esconde o projeto original, que é impor uma soberania sunita em um país multiétnico”, disse Albuquerque.
“A única minoria que ele tende a proteger são as turcas no norte do país, mas todos os outros árabes que não forem sunitas, correm perigo.”
É nesse contexto que o braço armado curdo, as Forças Democráticas da Síria (SDF na sigla em inglês), segue mobilizado para impedir o avanço do Exército sobre suas cidades.
Quem são e o que aconteceu com os curdos?
A maior nação sem país do mundo tem uma população de cerca de 40 milhões de pessoas espalhadas por partes de Turquia, Iraque, Síria e Irã, no chamado Curdistão. Com idioma e cultura próprios, eles são frequentemente alvo de perseguições nestes países, em sua busca por independência e, na Síria, representam cerca de 25% do território do país.
Desde sua criação, em meados da década passada, as SDF, com apoio árabe e estadunidense, lutaram tanto contra as forças de Assad como contra o Exército Islâmico, a quem derrotou em 2019. Com a queda de de Assad em 2024, al-Sharaa prometeu unificar o país, inclusive as zonas autônomas curdas, ricas em petróleo.

No início deste ano, forças do governo tomaram cidades controladas por curdos, mas com maioria étnica árabe, como Raqqa e Deir el-Zourmas, assumindo o controle de seus recursos. Na confusão que se seguiu, inúmeros integrantes do Exército islâmico foram libertados, passando a retaliar seus antigos captores curdos.
Mesmo tendo sido o maior aliado estadunidense na Síria durante a década passada, Washington não se opôs ao avanço de tropas governamentais sobre cidades curdas. Em 13 de janeiro, o enviado dos EUA para a Síria, Tom Barrack, afirmou que o papel das SDF como principal força anti-Estado Islâmico “praticamente expirou, já que Damasco agora está disposta e em posição de assumir as responsabilidades de segurança”.
Ao Brasil de Fato, Albuquerque afirma que “o abandono aconteceu porque era do interesse geopolítico dos EUA no Oriente Médio estimular os curdos contra a Turquia, Síria, Iraque e Irã”.
“Mas agora com as mudanças na Síria e a necessidade de negociar com o presidente turco, [Recep] Erdogan, já não há utilidade para os curdos, o apoio a eles se tornou desnecessário.”
Desmonte das SDF
Curdos e o governo al-Sharaa negociaram durante todo o ano de 2025 um acordo para a integração nacional, com vários pontos de divergência. Mas a ofensiva deste janeiro mudou a correlação das forças, com a posição curda se tornando muito enfraquecida com o abandono dos EUA.
O acordo agora esboçado prevê o desmantelamento das SDF, sendo incorporadas ao Exército nacional e mesmo a província de maioria curda de Hassakah passando a ser controlada por Damasco.
O analista afirma que “aparentemente Israel rifou os curdos, e que tem interesse nesse atual governo, inclusive para que, se surgir o caos, Tel Aviv possa intervir. Israel já demandava a remoção de Bashar al-Assad e isso foi feito respeitando os interesses da Rússia, pelo menos no curto prazo, no que diz respeito a suas bases aéreas e navais”.
“O Irã está na defensiva, não pode tentar recuperar o peso que tinha com Assad. A Turquia quer aumentar sua zona de influência na região. Desde o principio, um dos entraves para a derrubada do governo sírio era a definição do papel que essas potências regionais teriam no país. Há um certo vácuo que os vizinhos desejam ocupar.”
Mas Hugo Albuquerque diz não acreditar que o objetivo seja mesmo unificar a Síria. “A meta é exercer um fundamentalismo moderado, o que por si só é grave. Ele terá que fazer concessões a Israel e Turquia, quem sabe até perder parte do território, sendo oposição ao Irã.”
