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Reforma agrária popular e a construção da transformação social no Brasil

Compreendemos que a reforma agrária é uma pauta estrutural para combater as desigualdades

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Tuíra Tule é dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Tuíra Tule é dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) | Crédito: Divulgação / Fórum Acadêmico do Sul Global

O texto abaixo foi extraído de discurso apresentado durante a realização do 2º Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado em Xangai, em novembro de 2025. O evento reuniu pesquisadores e instituições para promover cooperação, troca de saberes e pensamento crítico, fortalecendo a produção de conhecimento e soluções para desafios sociais, políticos e ambientais.


A construção da reforma agrária popular e o seu papel na transformação social se constituem a partir de três temas fundamentais: a terra, o alimento e o meio ambiente.

Para compreender nossa proposta, é fundamental compreender as condições em que vivemos hoje, que expressam o caráter dependente e desigual do desenvolvimento brasileiro. O agronegócio brasileiro é a expressão das contradições em nosso país. Um modelo de produção que combina o que há de mais moderno, com grande investimento em ciência e tecnologia, maquinário de última geração, agricultura, 5G e a integração dos mercados globais. Por outro lado, também combina com o que há de mais arcaico, com as relações de trabalho precário e condições análogas à escravidão e com a concentração fundiária. No Brasil, 1% dos proprietários rurais concentram 50% das terras agricultáveis.

Essa concentração gera exclusão social, destruição ambiental com as queimadas e o desmatamento. É um modelo que produz commodities para exportação, mas não produz soberania alimentar para o povo brasileiro. É um modelo que compromete o progresso e espalha desigualdade.

Compreendemos que a reforma agrária é uma pauta estrutural para combater as desigualdades. Nós, do MST, construímos a reforma agrária popular como uma alternativa que luta pela democratização da terra, pela preservação dos bens comuns da natureza e pela produção de alimentos a partir da transição agroecológica. Um projeto de desenvolvimento que tem a centralidade da vida e não do lucro. Essa é a verdadeira modernização de que acreditamos que o nosso país precisa.

Nossa organização, o MST, é um movimento popular de massas, autônomo e democrático, com uma estrutura organizativa que vai desde o nível local até a direção nacional. Estamos em 24 dos 27 estados brasileiros e somos mais de 450 mil famílias assentadas e mais de 100 mil famílias acampadas. Ao todo, somos mais de 2 milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

Embora o Brasil seja um dos maiores produtores agrícolas do planeta, a distribuição desigual de renda, os altos preços dos alimentos e vulnerabilidades socioeconômicas mantêm, historicamente, a insegurança alimentar para parte da população. Dados recentes mostram que, mesmo com avanços — com o país tendo saído do Mapa da Fome da ONU em 2025 — ainda existe uma parcela significativa de domicílios em insegurança alimentar. Isso demonstra que, para muitos brasileiros e brasileiras, o acesso seguro, regular e suficiente a alimentos continua sendo um desafio.

Em nosso país, muitas vezes sem o apoio e sem o acesso ao crédito, 70% dos nossos alimentos são produzidos por nós, camponeses, agricultores, indígenas e quilombolas. Por isso, defendemos a soberania alimentar, ou seja, o direito de cada povo decidir o que produzir, como produzir e para quem produzir. Essa também é uma forma de resistir ao modelo de exportação de commodities, que concentra riqueza, destrói a floresta, contamina o solo com agrotóxicos e ameaça a vida.

Agroecologia: cuidar da vida e da terra

Para nós, a crise climática não pode ser enfrentada com falsas soluções, como o mercado de carbono, que transforma a natureza em mercadoria e aprofunda a desigualdade. Para nós, do MST, a resposta está na transição agroecológica popular, construída a partir dos territórios, com o protagonismo de nós, camponeses, indígenas e quilombolas. A agroecologia é para nós um caminho de justiça climática, e a combinação entre o saber ancestral e a ciência comprometida com a vida.

Acreditamos que nesta luta não estamos sozinhos. O que estamos construindo no Brasil faz parte de uma luta maior, que atravessa todo o Sul Global, da América Latina à África, e da Ásia à Palestina. Somos povos que enfrentam a concentração de terra, a destruição de bens comuns e o domínio das grandes corporações sobre a vida. A reforma agrária popular é um projeto internacional e dialoga com a luta pela vida onde o capital ameaça a existência.

Estabelecemos importantes intercâmbios internacionais, construímos brigadas de solidariedade mútua e contínua, com Haiti, Venezuela, Zâmbia, Cuba e agora construímos cooperação com a China, para massificar a transição agroecológica, os bioinsumos e a mecanização são pilares fundamentais. A parceria com o Instituto de Pesquisa em reciclagem orgânica da Universidade Agrícola da China demonstra essa cooperação. Assinamos um acordo de agricultura digital com a Sinomach e com nossas cooperativas. 

A cooperação solidária entre o Brasil e a China é uma oportunidade histórica para fortalecer a agricultura camponesa, promover a soberania dos povos e enfrentar juntos os desafios do século 21. Que nossas experiências se encontrem, floresçam e gerem frutos de solidariedade, dignidade e vida em abundância para os nossos povos.

*Tuíra Tule é dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Geisa Marques

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