INVASÃO IMOBILIÁRIA

Futuro boêmio e cultural da Cidade Baixa é uma grande interrogação

A luminosidade e as caminhadas pelo bairro se transformam em transtorno com obras das incorporadoras

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O bairro era um ponto de encontro da cidade. Pessoas de todos os lados iam para lá para curtir suas lojinhas diferenciadas e sua vida noturna, a sua cultura e a sua arquitetura
O bairro era um ponto de encontro da cidade. Pessoas de todos os lados iam para lá para curtir suas lojinhas diferenciadas e sua vida noturna, a sua cultura e a sua arquitetura | Crédito: Enric Donate

O bairro Cidade Baixa, bem pertinho do Centro Histórico de Porto Alegre, está perdendo a sua essência com a invasão das incorporadoras, ocupando os espaços ou demolindo casas antigas e destruindo algumas áreas verdes. É muito concreto para poucas árvores. O futuro ali é uma imensa interrogação.

Fazendo fronteira com o Parque Farroupilha, a área sempre foi famosa por sua vida noturna, boêmia, onde tribos de todas as frentes e tendências se encontram, convivem e até se opõem em algumas circunstâncias.

A área de 76,2 hectares (ou 0,762 km²), com quase 20 mil habitantes, foi feita para se divertir e não para se tornar espaço de espigões. Ali, ao longo dos anos, bares de coquetéis variados e únicos, casas noturnas e locais de música ao vivo dividem o espaço com restaurantes, churrascarias e hamburguerias mediterrâneas e asiáticas.

O bairro era um ponto de encontro da cidade. Pessoas de todos os lados iam para lá para curtir suas lojinhas diferenciadas e sua vida noturna, a sua cultura e a sua arquitetura. O Shopping Nova Olaria era um ponto importantíssimo da vida pensante da cidade. Os seus cinemas eram de altíssima qualidade, só coisa boa e inédita.

A livraria Bamboletras era uma das mais famosas da cidade. Vendia livros como água gelada em dias quentes. Demolido para novo prédio e promessa futura de restauração nos moldes antigos, o seu charme e requinte acabaram. A Bamboletras se mudou para uma igreja desativada na Venâncio Aires. E os cinemas desapareceram.

A Cidade Baixa, tradicional bairro de Porto Alegre (RS), foi criada oficialmente pela Lei nº 2022 em 7 de dezembro de 1959. A sua povoação e limites foi definida em 1979. Inicialmente, a região era conhecida por nomes como Arraial da Baronesa ou Areal da Baronesa. A urbanização intensificou-se com a chegada de bondes e, no século 19, consolidou-se como uma zona popular de comerciantes e imigrantes. A sua principal avenida é a rua General Lima e Silva, hoje muito estreita e movimentada.

Cultura e lazer pouco importam

A prefeitura pouco se importa com o lado humano e de lazer da região. Os horários de funcionamento das casas de lazer, bares e points foram sendo reduzidos e hoje estão restritos. Entre o fim da tarde e a madrugada, com horário de fechamento entre 1h e 3h da manhã. De domingo a quinta-feira, o funcionamento interno costuma ir até 1h (com tolerância de 30 min), e sextas, sábados e vésperas de feriados até as 2h30 ou 3h. Até alguns anos varavam as noites.

Agora, no Carnaval, os chamados bailes, desfiles, ou simplesmente agitos de blocos, têm horário diurno. Meio estranho. A concentração começa a partir das 16h no período de 14 a 17 de fevereiro com foco na rua da República e arredores. A previsão de fim da música será entre 19h e 20h. A boa notícia é que o retorno da folia ao bairro acontece após seis anos de hiato, com blocos descentralizados.

O certo é que a área ainda é atraente, mas cada vez menos, segundo constatam alguns moradores. Não é mais aquela movimentação absurda de outros tempos. Espaços que receberam primeiras intervenções, como a rua João Alfredo, ainda em 2019, estão degradados. Expectativa era de que a segunda fase começasse em 2022, mas houve revisão do projeto. A rua, por exemplo, era para ser um modelo, mas não é. A sua modernização ficou para o futuro, remoto ainda, por falta de recurso, conforme informa a prefeitura.

O repórter Guilherme Gonçalves diz que a ideia de transformar a via em uma “Rua Completa” surgiu ainda em 2017, quando o prefeito era Nelson Marchezan Jr., que chegou a executar parte do trabalho. Porém, de lá para cá, com a troca de gestão na prefeitura, houve revisão do projeto e pouco avanço prático.

Enquanto isso, parte do que foi feito em 2019 já precisa de reparos, está se transformando em sucata. A proposta previa a construção de um ambiente compartilhado entre frequentadores do bairro, visando melhorar o convívio entre motoristas, pedestres, comerciantes e moradores.

Vasos de plantas estão quebrados ou com pichação, e parte da vegetação está morta. Uma rotatória maior, feita no cruzamento com a rua da República, ainda está bem cuidada e com arbustos no centro da construção. Mas a grande verdade é que na cidade atual tudo se começa, se avança lenta e cansativamente e quase nunca se acaba. Vejam algumas obras da Copa de 2014. A prefeitura já distribuiu nota sobre o assunto, afirmando que o que falta para a João Alfredo é dinheiro, financiamento.

A jornalista, militante de movimentos sociais e feminista Márcia Martins, hoje aposentada, diz que as modificações em processamento no bairro afetam os moradores. “A construção de prédio dificulta as caminhadas matinais, são muito ruins. Onde era o Shopping Olaria, é complicado transitar pela calçada, sempre cheia de material, sem falar que prédios muito altos tiram a paisagem, o sol, a luminosidade da rua República, inaugurada oficialmente em 1845. Perto da esquina com a Lima e Silva, tem um prédio enorme que comprimiu um edifício pequeninho ao lado”, conta. Mesmo com algumas adversidades, Márcia tem um amor incondicional pelo bairro.

* Jornalista

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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