DISPUTA

Gigante da celulose avança sobre o Guaíba sob promessa de bilhões e alerta da sociedade civil

Moradores e lideranças ambientais se reúnem em Barra do Ribeiro para discutir os reflexos da instalação do projeto

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Audiência pública do Projeto Natureza, empreendimento da empresa CMPC, contou com a participação de 1.178 pessoas
Audiência pública do Projeto Natureza, empreendimento da empresa CMPC, contou com a participação de 1.178 pessoas | Crédito: Cassiano Cavalheiro / Fepam

A pacata rotina de Barra do Ribeiro, município de 12 mil habitantes na margem oeste do lago Guaíba, foi transformada pela expectativa em torno do maior aporte financeiro privado já registrado na história do Rio Grande do Sul. O chamado Projeto Natureza, da multinacional chilena CMPC, prevê um investimento de R$ 25 bilhões para a construção de uma unidade industrial capaz de fabricar 3 milhões de toneladas de celulose por ano. Na última quinta-feira (29), a audiência pública conduzida pela Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam) revelou o abismo entre o entusiasmo governamental e o receio de comunidades tradicionais e especialistas em ecologia.

Para o governo gaúcho e para a empresa, o projeto representa uma virada de chave no desenvolvimento regional. Durante a apresentação do Estudo de Impacto Ambiental, técnicos da consultoria AFRY, contratada pela CMPC, destacaram que o empreendimento deve gerar até 12 mil empregos no auge das obras. Na visão dos defensores do projeto, os benefícios extrapolam os portões da fábrica, prometendo uma elevação significativa no Produto Interno Bruto per capita e no Índice de Desenvolvimento Humano da região por meio da arrecadação de impostos e da dinamização do comércio local.

As águas no centro do conflito

Entretanto, a magnitude dos números econômicos não silenciou as preocupações sobre a segurança hídrica da Grande Porto Alegre. Entidades socioambientais e pesquisadores apontam que a nova planta lançará cerca de 240 mil metros cúbicos de efluentes líquidos por dia no Guaíba. De acordo com o alerta protocolado por coletivos de proteção ao meio ambiente, esse volume de resíduos, que contém substâncias químicas inerentes ao processo de branqueamento da celulose, supera o volume total de esgoto gerado por toda a capital gaúcha.

O ponto de maior fricção reside na localização do emissário de efluentes, projetado para ser instalado a apenas 3,5 quilômetros de Belém Novo, na zona sul de Porto Alegre. Organizações da sociedade civil argumentam que a proximidade com as estações de captação e tratamento de água do Departamento Municipal de Água e Esgotos coloca em risco o abastecimento de centenas de milhares de pessoas. Para os técnicos da CMPC, no entanto, as tecnologias de tratamento previstas garantem que o descarte não alterará a qualidade da água a ponto de comprometer o consumo humano, visão que é contestada por biólogos que temem o efeito acumulativo de metais e compostos orgânicos na Bacia Hidrográfica.

Territórios e vozes invisibilizadas

A crítica à condução do licenciamento também passa pela questão da representatividade e do território. Embora a audiência tenha ocorrido em Barra do Ribeiro com ampla presença de apoiadores, movimentos sociais e o Ministério Público foram provocados a questionar a falta de espaços de debate em outras cidades afetadas. Segundo as entidades que assinaram um ofício enviado à Fepam, os impactos atmosféricos e logísticos não respeitam fronteiras municipais, o que exigiria a realização de assembleias em Viamão e Porto Alegre para ouvir quem vive do outro lado do lago.

A preocupação se estende aos povos originários e populações tradicionais. Lideranças indígenas e comunidades de pescadores artesanais da Costa Doce afirmam que o projeto pode desestruturar modos de vida seculares, seja pela alteração da dinâmica dos peixes ou pelo avanço da monocultura de eucalipto necessária para abastecer as caldeiras da indústria. Enquanto a consultoria ambiental da empresa minimiza esses impactos no relatório oficial, os movimentos populares sustentam que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que prevê a consulta prévia, livre e informada a povos indígenas, deve ser respeitada com rigor técnico e sensibilidade social.

O futuro da bacia hidrográfica

A fumaça que sairá das chaminés da futura maior indústria de celulose do Sul do país é outro componente da discórdia. Especialistas em saúde pública alertam que o regime de ventos da região Metropolitana pode carregar poluentes atmosféricos para áreas densamente povoadas, agravando quadros respiratórios. Em contrapartida, a CMPC assegura que o projeto utilizará os melhores controles ambientais disponíveis no mercado global, apresentando o empreendimento como uma fonte de “energia limpa” produzida a partir da biomassa.

O prazo para que a população envie contribuições por escrito à Fepam foi estendido, mas o sentimento entre os críticos é de que o processo corre em velocidade acelerada para atender aos cronogramas financeiros. O embate entre a promessa de progresso industrial e a preservação do manancial que sustenta a Capital segue em aberto, aguardando definições sobre a realização de novas audiências que possam, de fato, contemplar a complexidade de um projeto que pretende redesenhar o mapa socioeconômico e ambiental do Rio Grande do Sul.

Editado por: Katia Marko

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