crise geopolítica

A ONU em ponto de fratura: o que significa ser jornalista credenciada em 2026

A ONU é um espelho do mundo. E, em 2026, esse espelho está rachado

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Assembleia Geral da ONU em Nova York
Assembleia Geral da ONU em Nova York | Crédito: ANGELA WEISS / AFP

Renovei minha credencial como jornalista junto às Nações Unidas em Genebra (Suíça). A cada ano, atravessar esses corredores revela algo essencial: a ONU é um espelho do mundo. E, em 2026, esse espelho está rachado.

Renovar esta credencial é reafirmar um compromisso: observar o mundo de dentro, com rigor, sensibilidade e responsabilidade. Num tempo em que fake news moldam percepções, algoritmos criam realidades paralelas e a desinformação se torna arma política, ouvir todos os lados não é apenas método — é defesa da democracia. É isso que distingue liberdade de expressão de manipulação, civilidade de barbárie. O jornalismo internacional, no seu sentido mais profundo, constrói pontes entre países e populações — onde outros erguem muros, cercas ou caçam pessoas pelas ruas, negando a própria ideia de humanidade.

Vivemos uma transformação estrutural da ordem internacional. A multipolaridade deixou de ser tendência e se tornou realidade. Potências disputam influência em um cenário marcado por rivalidades estratégicas, erosão de normas multilaterais e uma competição que atravessa dimensões econômicas, tecnológicas e militares. O Conselho de Segurança, que deveria ser o centro da governança global, enfrenta paralisia crônica.

O próprio Secretário‑Geral das Nações Unidas alertou, no último final de semana, que, sem financiamento adequado e sem respaldo político, “a ONU corre o risco real de um colapso operacional”, resultado direto da combinação entre falta de recursos, erosão da legitimidade, paralisia institucional e abandono das normas multilaterais.

Essa crise geopolítica se reflete diretamente no sistema humanitário. As principais agências da ONU atravessam um colapso operacional sem precedentes. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) estima que 32 milhões de pessoas perderão acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) projeta que 12,8 milhões de deslocados podem ficar sem proteção básica. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) alerta que 10 milhões de pessoas podem deixar de receber assistência emergencial.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) já suspendeu distribuições em países onde a sobrevivência depende dessas entregas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê uma queda de 40% na ajuda global à saúde, com clínicas fechando e campanhas de vacinação interrompidas. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) reduz programas de educação e proteção infantil em regiões onde cada interrupção significa uma geração mais vulnerável.

Ao mesmo tempo, o Sul Global ganhou voz — e não pretende devolvê-la. É nesse cenário que o Brics assume um papel ainda mais relevante. O Brics é um grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — recentemente ampliado — que reúne grandes economias emergentes e potências regionais que buscam maior autonomia estratégica e um papel mais influente na definição das regras da ordem internacional. Mais do que um bloco econômico, o Brics expressa a busca de seus membros por maior peso político e autonomia em um sistema internacional historicamente dominado por poucas potências. A ampliação recente do grupo reforça essa tendência, reunindo países que disputam influência, projetam poder e buscam reequilibrar a governança global.

Para o Brasil, esse espaço tem importância singular. O país transita entre modelos políticos distintos, dialoga com potências rivais e atua como ponte em um sistema internacional fragmentado. Em declarações recentes, o presidente Lula voltou a defender “um multilateralismo mais representativo, que reflita a realidade do século XXI”, afirmando que os países do Sul Global “querem participar das decisões, não apenas cumprir decisões tomadas por outros”.

Ser jornalista credenciada na ONU, em 2026, significa testemunhar esse ponto de fratura. Significa acompanhar negociações que tentam evitar que crises se tornem catástrofes. Significa ouvir histórias que raramente chegam ao público — e que revelam a humanidade por trás das estatísticas.

E significa, sobretudo, reafirmar um compromisso ético. Num mundo em que a informação é disputada como território, seguir olhando o mundo de dentro, com rigor e responsabilidade, é mais do que profissão. É um ato de resistência.

*Mônica Cabañas Guimarães é jornalista.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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