A recente decisão do governo de Donald Trump de impor tarifas aos países que “vendam ou, de outra forma, forneçam petróleo a Cuba” abre um novo e mais agressivo capítulo na política de hostilidades dos Estados Unidos contra a ilha caribenha, alvo de sanções há mais de seis décadas e vista como uma “retaguarda estratégica” contrária aos interesses dos EUA na América Latina.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Ciência Política na Universidade de Havana, Ernesto Teuma, destaca a declaração de Trump de que Cuba seria uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos EUA. Segundo ele, a postura pode ser lida “no contexto de uma agenda mais ampla”, marcada pelo “uso crescente da violência em um regime global de guerra”.
Teuma explica que os Estados Unidos buscam usar sua superior capacidade militar para estabelecer uma vantagem competitiva na região que “considera sua área natural de influência”.
Durante o último ano, Washington expandiu de maneira vertiginosa sua presença militar na América Latina e no Caribe. Além de militarizar a fronteira com o México, voltou a enviar tropas para países como Panamá e ampliou os acordos de “segurança” com nações como Paraguai, Equador e Costa Rica.
Dessa forma, os recentes ataques do governo Trump a Cuba e à Venezuela fazem parte de um mesmo processo, junto à interferência nas eleições de Honduras, ao financiamento do governo de Milei e às reiteradas ameaças contra governos progressistas, como os de Petro, na Colômbia, ou de Claudia Sheinbaum, no México.
O professor aponta que não é surpreendente que Trump tente “capitalizar o momento” gerado após sua agressão militar contra a Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, com o objetivo de “liquidar uma das pendências mais importantes” dos Estados Unidos na América Latina e de “quebrar o único país que constitui a linha de base mínima de qualquer possibilidade de resistência anti-imperialista [Cuba]”.
Teuma destaca que, apesar dos problemas enfrentados pela ilha, Cuba ainda funciona como uma “retaguarda estratégica” para uma possível “rearticulação de um projeto emancipatório para Nossa América”. Assim, os Estados Unidos buscam destruir um “elemento simbólico fundamental” para as forças de esquerda no mundo. “A ameaça que Cuba representa não reside exatamente no que faz, mas no que é, no que representou e no que tem sido”, destaca o professor.
‘Política fascista e genocida em Cuba’
Com o objetivo explícito de aprofundar a asfixia energética e a grave crise econômica que Cuba enfrenta, Washington amplia os mecanismos coercitivos já existentes de seu bloqueio contra outros países, mostrando de forma cada vez mais aberta uma política destrutiva contra a ilha.
Essa é a avaliação de Joel Suárez, do Centro Memorial “Martin Luther King”, uma organização ecumênica cubana de inspiração cristã que promove valores emancipatórios. Suárez lamenta que essas medidas tenham um impacto direto e profundo sobre a população cubana, especialmente nos setores mais humildes.
“De forma reiterada, em uma versão cada vez mais cínica e dramática, o imperialismo norte-americano endurece sua política fascista e genocida contra o nosso país. Busca, por meio da fome, que baixemos as armas e retiremos o apoio ao projeto socialista cubano”, diz o ativista.
Suárez reforça que a ilha viveu, “especialmente após a pandemia”, tensões muito graves como consequência do mesmo bloqueio e dos problemas internos da economia, “que afetam diretamente o bem-estar e a felicidade do povo cubano”.
A crise energética que o país enfrenta nos últimos anos fez com que os cortes de eletricidade se tornassem cada vez mais frequentes e prolongados; em grande parte da ilha, os apagões ultrapassam metade do dia. Em meio a essas dificuldades, a economia parece não dar trégua.
Além disso, o turismo, uma das principais fontes de renda do país, sofreu uma queda considerável. 2025 fechou com quase 18% menos visitantes do que o ano anterior, que já havia registrado a menor afluência de turistas. Nesse contexto, estima-se que a economia cubana tenha sofrido uma contração de mais de 11% do PIB nos últimos cinco anos.
“Essas medidas vêm agravar uma situação que já é extremamente difícil para a população humilde do nosso país, especialmente por seu impacto nos processos produtivos, no emprego, nas atividades privadas e estatais, assim como nos serviços”, destaca.
O bloqueio é vivido como uma experiência concreta e cotidiana: quando a eletricidade necessária para produzir alimentos é interrompida; quando falta combustível para chegar aos locais de estudo ou trabalho; quando os teatros deixam de funcionar por falta de luz; ou quando a água não chega às casas porque os sistemas de bombeamento ficam sem energia. “Com isso, busca-se irritar a população em meio a tantas dificuldades, escassez e carências que temos vivido”.
Nesse contexto, Suárez ressalta que, diante do recrudescimento do bloqueio, é indispensável que a solidariedade internacional seja uma ferramenta política concreta. Para ele, somente por meio da luta dos povos, da denúncia contínua e da mobilização popular é possível abrir um caminho para reverter a situação atual. Suárez destaca especialmente a importância de gerar consciência e promover a participação ativa de setores da opinião pública dentro dos próprios Estados Unidos, como uma forma de frear a violência do governo Trump.
“Acredito que são tempos que não envolvem apenas Cuba, mas também a Palestina e todos os povos que lutam e resistem diante dessa ofensiva global da indústria do ódio e do imperialismo”, ressalta, acrescentando que “nesse contexto, é imprescindível uma solidariedade que coloque o corpo, que assuma riscos, que compartilhe, que seja recíproca e que acompanhe, neste caso, a resistência do povo cubano”.
