MANIFESTO

Carnaval de BH: associações denunciam priorização de megaeventos em detrimento de blocos locais

Entidades afirmam que, enquanto os cortejos de rua seguem com apoio escasso PBH terá gastos elevados com shows

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Além das críticas presentes na nota, uma reportagem do Brasil de Fato MG apontou um conjunto mais amplo de problemas estruturais no Carnaval de BH.
Além das críticas presentes na nota, uma reportagem do Brasil de Fato MG apontou um conjunto mais amplo de problemas estruturais no Carnaval de BH. | Crédito: Denise dos Santos/PBH

Uma articulação de ligas, associações, blocos de rua e coletivos carnavalescos de Belo Horizonte divulgou uma nota pública em que critica duramente o atual modelo de gestão do Carnaval da capital mineira. Intitulado “Pelo Carnaval de BH feito por quem faz”, o documento denuncia a priorização, por parte do poder público, de grandes produtores e atrações nacionais em detrimento do fortalecimento contínuo dos blocos de rua, artistas e trabalhadores da cultura local.

Assinam a nota a Liga Belorizontina, a Santa Tereza Independente Liga (Si Liga), a Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga Bruta BH), a Associação dos Blocos de Rua de BH (ABRA) e a Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro).

No texto, as entidades afirmam que, enquanto os cortejos de rua, diversos e espalhados por todas as regionais da cidade, seguem com apoio escasso e ausência de políticas públicas permanentes, a programação oficial do Carnaval tem apostado em artistas de projeção nacional, muitos deles sem vínculo com a cena carnavalesca de Belo Horizonte. Para os signatários, essa lógica esvazia os territórios, precariza trabalhadores da cultura e descaracteriza uma festa construída historicamente de forma comunitária, descentralizada e popular.

“O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões. Essa festa plural, democrática e segura, que Minas Gerais hoje tanto se orgulha, é fruto de um ecossistema cultural local que, mesmo com apoio escasso e sem políticas públicas permanentes, ensaia, cria e se apresenta durante todo o ano, gerando renda para a cadeia produtiva da cultura”, destaca o texto. 

Ainda assim, as entidades denunciam que blocos e coletivos convivem com falta de fomento público e dificuldades para acessar patrocínios privados, enquanto empresas lucram com a cidade cheia durante o período carnavalesco.

Um dos exemplos citados no documento é o show do DJ Alok, realizado no Carnaval de 2025 e anunciado pela gestão municipal como um modelo a ser replicado em 2026. De acordo com a nota, o evento foi marcado por episódios graves de violência, incluindo pessoas esfaqueadas na Avenida Afonso Pena, pânico coletivo devido à superlotação e esmagamento de foliões em função do trajeto escolhido. Para as entidades, o caso evidencia os riscos dos megaeventos superconcentrados e financiados com recursos públicos.

Verba insuficiente

Além das críticas presentes na nota, uma reportagem do Brasil de Fato MG apontou um conjunto mais amplo de problemas estruturais no Carnaval de BH. Entre eles estão verbas que contemplam menos de 20% do total de blocos e que não cobrem as despesas necessárias, falta de transparência nos editais, definição arbitrária de trajetos e a tentativa recorrente de concentrar a venda de bebidas. Também são citadas denúncias de diversity washing, captura simbólica de pautas de luta e ausência de diálogo efetivo com as lideranças culturais.

:: Confira a reportagem completa :: 

Dados da própria Belotur indicam que, apesar da projeção nacional do Carnaval belo-horizontino, a maior parte de quem movimenta a economia da festa são os próprios moradores da capital e da região metropolitana. A estimativa é que, em 2026, apenas 20% dos foliões venham de fora da cidade. Para integrantes da Liga Bruta, esse perfil está diretamente ligado à identidade do Carnaval de BH, marcada pela ocupação do espaço público e pela defesa da cultura como direito.

Embora reconheçam uma melhora relativa no canal de diálogo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) no último ano, os fazedores da festa avaliam que a abertura ainda está muito aquém do necessário. Eles apontam a ausência de uma relação horizontal na construção do Carnaval e criticam o financiamento público insuficiente e concentrado. Atualmente, de um universo de mais de 600 blocos cadastrados, apenas 105 recebem algum tipo de apoio financeiro direto, o que deixa a maioria fora das políticas públicas.

Confira a nota completa abaixo:

Nota Pública: Pelo Carnaval de BH feito por quem faz!

Nós, representantes de ligas, associações, blocos de rua e coletivos carnavalescos de Belo

Horizonte, manifestamos nosso repúdio às escolhas da gestão pública do Carnaval de Belo

Horizonte, que prioriza, valoriza e facilita grandes produtores e iniciativas artísticas de fora de Minas Gerais, em detrimento do fortalecimento e fomento contínuo do fazer cultural local, dos blocos de rua e coletivos da nossa cidade, bem como de toda a nossa cadeia produtiva.

Enquanto os cortejos de rua, diversificados e espalhados por todas as regionais, seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, assistimos ao anúncio de artistas de projeção nacional na programação oficial, a maioria sem qualquer ligação orgânica com a cena carnavalesca local.

O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões. Essa festa plural, democrática e segura, que Minas Gerais hoje tanto se orgulha, é fruto de um ecossistema cultural local que, mesmo com apoio escasso e sem políticas públicas permanentes, ensaia, cria e se apresenta durante todo o ano, gerando renda para a cadeia produtiva da cultura.

No entanto, o atual modelo de gestão pública do Carnaval tem priorizado a lógica dos grandes shows, esvaziando os territórios, precarizando trabalhadores da cultura e desvirtuando o espírito comunitário da folia. Tais escolhas não apenas descaracterizam nossa festa, como ameaçam a sustentabilidade econômica e cultural dos agentes que verdadeiramente a constroem. Os blocos e artistas locais convivem com escasso apoio público e a falta de patrocínios privados, mesmo com empresas lucrando enormemente com a cidade lotada de foliões locais e turistas.

O exemplo do show do DJ Alok, ocorrido no Carnaval de 2025 e propagandeado pelo poder

público como uma política de sucesso a ser replicada agora em 2026 resultou em episódios

graves de violência duas pessoas esfaqueadas na Avenida Afonso Pena, pânico coletivo pela aglomeração sem controle, esmagamento de foliões em função do local escolhido como trajeto, evidencia os riscos desse modelo de megaeventos superconcentrados e financiados com recursos públicos.

Repudiamos, portanto, a priorização de megaeventos financiados com dinheiro público em

detrimento do fortalecimento estrutural dos realizadores locais. Exigimos transparência nos

critérios de aplicação dos recursos, participação social nas decisões e um modelo de Carnaval que valorize e invista nos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos, que fazem a festa acontecer nas ruas, de forma descentralizada e popular.

Assinado por:

Liga Belorizontina

Santa Tereza Independente Liga (Si Liga)

Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga BRUTA BH)

Associação do Blocos de Rua de BH (ABRA)

Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro)

Editado por: Elis Almeida

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