Durante o domingo (1º) e a segunda-feira (2), a Praça dos Orixás, no Lago Paranoá, em Brasília, se tornou palco da Festa das Águas, em comemoração à Iemanjá e Oxum. A celebração tradicional dos povos de religiões de matrizes africanas, chegou a 7ª edição com uma novidade: o anúncio da revitalização da Praça dos Orixás.
Este ano, o primeiro dia de festa contou com um cortejo de carros que levaram uma imagem de Iemanjá de dois metros de altura até o local da celebração. Ao chegar no espaço, a escultura foi recebida pelo povo de terreiro com defumações, banhos de cheiro e entrega de balaios, marcando o início do evento.
O segundo dia da festividade ficou reservado ao seminário que anunciou a revitalização da praça, além de uma programação com shows de artistas nacionais, como Luedji Luna e a banda Filhos de Dona Maria.
Atendendo à demanda antiga dos povos e comunidades de terreiro, o Instituto Rosa dos Ventos, responsável pela festa, e o Coletivo das Yás do DF e Entorno anunciaram um marco de recomeço: o Marco Zero da Revitalização da Praça dos Orixás. À frente da organização, a presidente do Instituto Rosa dos Ventos, Stéffanie Oliveira detalhou como será feita a revitalização do espaço sagrado.
“Nosso instituto acabou de adotar, junto ao Coletivo das Yás, a Praça dos Orixás no intuito de devolver o simbólico para a praça, que são as nossas 16 estátuas. Estátuas essas que já vem sendo depredadas e violentadas. Nosso povo também é violentado quando o nosso simbólico é violentado. E nesse entendimento de que o próprio povo, os próprios detentores cuidam dos seus patrimônios, nós adotamos a praça para trazer junto à Fundação Banco do Brasil todas as 16 estátuas”, afirmou.
Revitalização
Segundo a representante, também está sendo estudada a possibilidade de ampliar a segurança do espaço, que hoje conta com um posto policial e câmeras. A partir de agora, o acesso às filmagens ficará sob a responsabilidade das entidades à frente da revitalização. Além disso, haverá um calendário de atividades todo fim de semana, a fim de manter a ocupação do local.

Defensora da reforma na praça, Mãe Baiana relembrou a luta para que a ideia saísse do papel. Para ela, o espaço é um local de união entre as diferentes nações das religiões de matriz africana que precisa ser mantido.
“Essa praça traz a voz do povo de terreiro do Distrito Federal que vem gritando, chorando, lamentando, pedindo para essa revitalização. Nós acreditamos nesses orixás que estão ali. É o que a gente acredita, nossa fé. E ninguém tem o direito de tirar isso de nós. Os nossos governantes precisam compreende”, desabafou.
A novidade animou os que se fizeram presentes na celebração. O candomblecista Marcos Vinícius comemorou o anúncio e ressaltou a importância do espaço e da comemoração no combate ao racismo religioso.
“A Praça dos Orixás é um símbolo de resistência para os povos de terreiro. É um ponto de resistência para reafirmar que o centro do Brasil também tem representatividade africana e de espiritualidade e cultura de povos ancestrais. É extremamente importante um festejo como esse no momento que estamos vivendo, de tanto regresso em algumas áreas da nossa sociedade para reforçar que os povos de terreiro estão firmes e que é uma luta contra também o racismo religioso. Esse momento de festejo, de felicidade, é quebrar com estigma, de preconceito, de demonização contra a cultura de pessoas de religião de matriz africana”, disse.
A Praça dos Orixás, também conhecida como Prainha, foi inaugurada às margens do Lago Paranoá, região central de Brasília, em 1990 com 16 estátuas de orixás criadas pelo artista plástico baiano Tatti Moreno. Desde sua abertura, o espaço sagrado resiste a depredações motivadas por racismo religioso.
O modelo artístico das novas estátuas ainda está sendo analisado com as lideranças religiosas do Distrito Federal. Após a escolha, será instalado um comitê gestor para ficar responsável diretamente pelo local. As novas esculturas devem ser entregues em setembro deste ano.
Intolerância
Além de um momento de celebração e união, a Festa das Águas se concretiza como um espaço de combate ao racismo religioso. Integrante do Coletivo das Yás, Mãe Déia Talamungongo afirma que o evento já é tradição no DF.
“A Festa das Águas é uma festa importante, já virou tradição e é muito importante estarmos ocupando esse espaço. O espaço que é do povo de matriz africana. Todos os anos temos tentado sempre fazer uma festa um pouco maior, justamente para que o público entenda a importância de ocupar os espaços do nosso povo de terreiro”, explicou.
Foi a primeira vez que a umbandista Giovanna Soares acompanhou os dias de festejo ao lado do pai e se emocionou ao chegar no espaço. “Achei tudo muito lindo. É muito importante a Festa das Águas para nós que somos de religião de matriz africana. Dá visibilidade para nossa religião, ajuda no combate contra a intolerância religiosa. É muito importante também para as pessoas saberem que a nossa religião é grande. E também homenagear a nossa iabás, Iemanjá, que é a mãe de todas as cabeças e de todos os orixás”, comentou.
Como denunciar
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o canal de denúncias do órgão, Disque 100, registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
Entre as religiões explicitamente identificadas, as tradições de matriz africana concentram os maiores números de denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro deste ano. A Umbanda reúne 228 registros, seguida pelo Candomblé (161) e por ocorrências classificadas como Umbanda e Candomblé (47), além de outras religiosidades afro-brasileiras (40).
A intolerância religiosa é crime no Brasil desde 2023. De acordo com a Lei nº 14.532, injúria religiosa pode levar a penas de 2 a 5 anos de reclusão. Além disso, o Código Penal, em seu artigo 208, prevê detenção para quem impedir ou perturbar cerimônia religiosa.
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