O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comentou as suspeitas envolvendo seu filho Fábio Luiz, conhecido como Lulinha, no esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em entrevista, ao portal UOL, nesta quinta-feira (5), ele relatou que chamou o filho para uma conversa olho no olho sobre o tema.
“Quando saiu o nome do meu filho, eu o chamei aqui e falo isso com todo mundo. Olhei no olho do meu filho e falei: ‘Olha, só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, você vai pagar o preço. Se você não tiver, se defenda’. É assim que eu trato as coisas, com muita seriedade”, disse o presidente
Lula reforçou que a lei vale para todos os cidadãos e que não tem dó de quem comete erros. E declarou que, se qualquer pessoa de seu círculo estiver envolvida em fraudes, enfrentará as consequências assim como qualquer outro investigado.
Por outro lado, o presidente destacou que as investigações sobre as fraudes no INSS acontecem “porque o governo descobriu, através da Controladoria Geral da União e da Polícia Federal, que tinha sido montada uma quadrilha no governo Bolsonaro alguns anos atrás”, e disse que o próprio governo apoiou a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso.
“Nós já pagamos os aposentados que foram lesados e já tomamos patrimônio das pessoas que praticaram o crime. O processo não acabou, mas você pode ter certeza de que todos vão para a cadeia e que o patrimônio que eles construíram vai ser ressarcido para pagar os benefícios. E se tiver alguém meu envolvido nisso, vai pagar o mesmo preço, porque a lei é para todos”, finalizou o presidente.
Caso Master
O presidente também comentou as fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. Lula minimizou a importância do encontro que teve com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira, em dezembro de 2024, e relatou parte da conversa.
“Eu já recebi neste mandato representantes do Itaú, do Bradesco, do Santander, do BTG Pactual. Todos os bancos eu já recebi. E quando não tinha uma agenda marcada comigo, quando o Guido [Mantega] veio com o Daniel Vorcaro a Brasília e pediu para atendê-lo, ele veio conversar comigo. Eu chamei o [Gabriel] Galípolo e chamei o Rui Costa, que é da Bahia e o conhecia. Ele então me contou da perseguição que estava sofrendo, que tinha gente interessada em derrubá-lo. O que eu disse para ele? ‘Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica feita pelo Banco Central’. Foi essa a conversa. ‘Você fique tranquilo que a política não entrará na investigação do seu banco. O que vai enfrentar é a competência técnica do Banco Central para saber se está errado, se você quebrou, se tem dinheiro lavado ou não’. E é isso que está sendo feito”, afirmou o presidente.
Por outro lado, o mandatário saiu em defesa do seu ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, após revelação de que o escritório de advocacia do ex-magistrado havia mantido contrato de consultoria com o Banco Master antes que ele assumisse o ministério.
“O [Ricardo] Lewandowski é um dos maiores juristas que este país já produziu e todo e qualquer bom jurista é contratado por qualquer empresa que esteja com qualquer dificuldade. O Lewandowski tinha deixado a Suprema Corte e fez um contrato para trabalhar no banco. Quando eu o convidei para vir para o governo, ele saiu do banco. Não tem problema nenhum. Todo mundo trabalha para alguma empresa neste país. O que é importante ter claro é que nós vamos a fundo nesse negócio”, afirmou.
Política externa
O presidente Lula informou que deve ir a Washington na primeira semana de março para se encontrar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Nós temos que sentar numa mesa, olhar um no olho do outro, ver quais são os problemas que o afligem, quais são os que me afligem, o que interessa para os Estados Unidos, o que interessa para o Brasil e vamos estabelecer acordos em que a gente possa trabalhar junto”, disse o presidente.
Lula voltou a afirmar que o Brasil só participará do Conselho de Paz, proposto por Trump, se a Palestina tiver voz ativa e se o órgão se limitar à reconstrução de Gaza, após a destruição promovida por Israel. Nesse contexto, criticou o plano apresentado até o momento e disse que se parece mais com a ideia de construir um “resort”.
“É muito estranho que você monte um conselho e você não tenha um palestino na direção desse conselho. É muito estranho que a proposta que foi apresentada de reconstrução de Gaza seja mais um resort do que construção de casas. Eu quero saber quem é que vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bares que foram detonados, porque a vida de 75 mil mulheres e de crianças não retornarão mais. Esse é o dado”, afirmou o presidente, que disse, ainda, ter conversado com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, para reafirmar a posição do Brasil para que o conselho tenha uma representação do povo palestino.
“É preciso que os palestinos estejam na mesa, senão não é uma comissão de paz”, pontuou.
Lula também comentou a situação na Venezuela. O presidente evitou falar sobre o sequestro do mandatário Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada nacional Cilia Flores, e disse que são os venezuelanos quem vão “resolver o problema da Venezuela”.
“A preocupação principal é o seguinte: a ideia de a gente fortalecer a democracia na Venezuela e o povo da Venezuela, 8 milhões e 400 mil pessoas que foram votar. Há condições de fazer com que a democracia seja efetivamente respeitada na Venezuela e o povo possa participar ativamente? Porque o que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não. O que está em jogo é se a gente vai gerar emprego ou não. O que está em jogo é se a PDVSA vai voltar a produzir 3 milhões e 700 mil barris de petróleo por dia e não 700 mil como produz hoje”, declarou.
“Permitam que eles [venezuelanos] resolvam os problemas deles. Não sei se eles vão convocar a eleição, não sei, mas eles têm que assumir a responsabilidade”, completou Lula.
Eleições 2026
Ao falar de eleições, o presidente da República disse que só fará campanha eleitoral após as convenções partidárias, que devem ocorrer entre junho e julho. E voltou a dizer estar confiante em sua reeleição.
“Este ano será o ano da verdade. Nós vamos mostrar o que nós fizemos”, afirmou Lula. “O que nós precisamos é achar, nesses 215 milhões de habitantes, as pessoas que ainda têm flexibilidade ideológica, que não acreditam em mentiras e que resolvam votar do lado certo. Porque o que vai estar em jogo nas eleições de 2026 é se este país continua sendo democrático, se as instituições vão continuar funcionando para sustentar a democracia, se o movimento social vai ter representatividade para fazer manifestações ou se a gente vai acabar com tudo isso”, avaliou o presidente.
Lula fez críticas à direita, responsabilizou o ex-senador e candidato à Presidência Aécio Neves pela radicalização da política e criticou o pré-candidato presidencial e governador de Goiás, Ronaldo Caiado, por se opor ao fim da escala de trabalho 6×1.
“Se dependesse dele [Ronaldo Caiado], as pessoas trabalhariam 14 horas por dia. Se dependesse da cabeça dele, ele aumentaria a jornada para 14 horas sem pagar adicional. Agora, quem viveu no mundo do trabalho como eu, sabe que hoje a juventude e as mulheres querem mais tempo para estudar e mais tempo para cuidar da família. Com o avanço tecnológico, a produção aumentou muito. Então você não precisa exigir isso de todo mundo”, defendeu o presidente, que tem colocado o tema como prioridade do seu último ano de mandato.
Disputas regionais
Lula voltou a defender na entrevista que o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, seja candidato nas próximas eleições em São Paulo, assim como outras lideranças do seu governo.
“Eu ainda não conversei com o Haddad, eu não conversei com o Alckmin, mas eles sabem que têm um papel para cumprir em São Paulo. E a Simone Tebet tem um papel para cumprir que eu também não conversei com ela”, afirmou.
Já em relação a Minas Gerais, considerado um estado decisivo nas eleições presidenciais, Lula aproveitou para mandar um recado ao senador mineiro Rodrigo Pacheco (PSD), favorito de do presidente para a disputa ao governo do estado.
“Eu quero dizer aqui ao Rodrigo Pacheco: eu ainda não desisti de você. Nós vamos ter uma conversa e eu acho que você pode ser o futuro governador de Minas Gerais. Eu estou muito certo disso, estou muito crente disso”, disse o presidente. “Minas Gerais, eu posso dizer para você agora, se eu conheço os mineiros, nós vamos ganhar as eleições de Minas Gerais outra vez”, agregou.
Pacto contra o feminicídio
O presidente também comentou o lançamento do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, lançado nesta quarta-feira (4) pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
“Foi um gesto histórico que marca a posição do Brasil na luta em defesa da mulher. E a minha ideia de assumir a responsabilidade pessoal enquanto presidente era porque a luta da mulher não é uma luta da mulher só, a luta contra a violência tem que ser uma luta do agressor para parar de ser agressor”, disse o presidente, agregando que é preciso uma mudança de cultura para enfrentar o problema.
“O que nós queremos, na verdade, é envolver a sociedade brasileira. Eu disse para os dirigentes sindicais na porta de fábrica: quando vocês forem pedir aumento de salário, entrem com esse assunto. O padre quando for falar na igreja Nossa Senhora Aparecida ou um pastor evangélico no culto dele, comece com esse assunto, falando com os homens. É uma questão de consciência”, declarou.
“Uma criança na creche tem que aprender que a menininha que está do lado dele é igual a ele. Ele não pode achar que ele é superior. Por isso que eu disse que da creche à universidade tem que estar no currículo escolar essas coisas”, defendeu Lula.
