A semana que marcou o início do ano legislativo no Congresso Nacional teve também uma confraternização que pode dar indícios sobre o cenário político do país em 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu, na Granja do Torto, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), além de representantes de outros diferentes partidos do chamado centrão, como União Brasil e PSD. Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, esse grupo político pode se aproximar do petista por perceber que ele é o favorito a vencer as eleições presidenciais deste ano e por garantir maior estabilidade.
Após o encontro, Lula e Motta trocaram afagos pelas redes sociais. O presidente escreveu que o encontro foi “um jantar de agradecimento aos parlamentares por todo apoio e, mais do que isso, pelo empenho de cada um na aprovação de projetos tão importantes para o Brasil e os brasileiros”. Motta respondeu à postagem afirmando que é “em momentos como este, cheios de diálogo e respeito institucional, que pavimentamos a estrada para um futuro melhor para todos os brasileiros”.
“Os partidos de centro perceberam que com Lula há mais governabilidade, não só no cenário nacional, mas a possibilidade de relações internacionais. Aliando os interesses do centrão com eventualmente um novo mandato do Lula, é mais fácil estar com quem ganha que com quem perde. A direita passou a se articular com a possibilidade de ter ministérios e fazer parte do novo governo”, opinou Ramirez, que é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), durante entrevista ao jornal Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Para o cientista político, a boa relação construída por Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter sido determinante para essa cordialidade que agora se vê. O presidente brasileiro manteve-se firme em meio às ameaças e sanções impostas pelo estadunidense ao país. Em um cenário que, em algum momento, pareceu inimaginável, Trump se aproximou do petista. Eles se reuniram e trocaram elogios.
“O Donald Trump é o grande avalista da direita internacional no mundo, mesmo para o bolsonarismo. O Lula, mesmo sofrendo o tarifaço, conseguiu reverter a situação e, pelas próprias declarações de Trump, virou um parceiro, alguém elogiado, com quem ‘rolou uma química'”, lembrou Ramirez. “Isso teve um peso na mudança como a direita age aqui no Brasil. Havia essa unidade entre Trump e o bolsonarismo, e, de repente, eis que Lula se torna uma figura elogiada, não só por outras nações, mas principalmente os Estados Unidos”.
Se o clima cordial do churrasco na Granja do Torto se estender para a Praça dos Três Poderes, Lula pode ter espaço aberto para aprovar aquele que aparenta ser seu grande trunfo neste ano eleitoral: o projeto de lei que acaba com a escala de trabalho 6×1. O projeto vai deixar os líderes políticos em uma encruzilhada: votar contra a a medida, que conta com grande apoio popular, pode ser um tiro no pé para quem busca um novo mandato.
“Os políticos, se votarem contra, vão prejudicar uma eventual candidatura. Lula joga com um time menos numeroso, mas joga com mais força. Ainda que haja derrota no parlamento, rejeitando a redução da escala, Lula ganha na opinião pública. Ou então, pela pressão popular pela redução dessa escala, deputados, mesmo de centro, até alguns bolsonaristas, votem a favor, apenas visando a eleição, para não gerar uma péssima imagem no cenário eleitoral. E o Lula sairia vencendo, pois teria sido o presidente a aprovar esse projeto”, resumiu Ramirez.
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