VIOLÊNCIA

Além das três mortes em padaria, MG é segundo estado com maior índice de feminicídio do país

Para especialistas, gestão Zema e avanço da extrema direita contribuem para os números alarmantes de mortes de mulheres

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MG ficou no segundo lugar do ranking nacional de atentados contra a vida de mulheres motivados pela questão de gênero, com 139 mortes registradas, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) | Crédito: Agência Brasil

Nesta semana, mais um caso de feminicídio chocou Minas Gerais, após os assassinatos a tiros de duas adolescentes e uma mulher em uma padaria do município de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Um adolescente, ex-namorado de uma das vítimas, até o momento, é o principal suspeito do crime que acredita-se ter sido motivado pelo fim do relacionamento. 

O episódio chama a atenção para um dado preocupante, em 2025, mais uma vez, o estado ficou no segundo lugar do ranking nacional de atentados contra a vida de mulheres motivados pela questão de gênero, com 139 mortes registradas, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do governo federal. Esse índice significa uma média de aproximadamente três feminicídios por semana. 

A doutora e pesquisadora em Gênero e Misoginia Bruna Camilo explica que o assassinato de mulheres apenas por serem mulheres é a ponta de uma cadeia de violência que inicia muito antes da agressão letal em si e que tem sustenação nos valores e práticas cultivadas na sociedade.

Segundo a especialista, em Minas Gerais, esse contexto é ainda mais acirrado, uma vez que o estado possui uma forte tradição política conservadora, que tem como característica o ódio e o controle dos corpos femininos.   

“Minas Gerais está sempre no ranking. E isso não é de ontem, é quase uma tradição, infelizmente.  Nosso estado é muito conservador e tem dificuldade de reconhecer o avanço dos direitos das mulheres”, explica. 

Violência como motor da extrema direita

Bruna Camilo argumenta que esse conservadorismo também se expressa na política institucional, com a eleição de políticos e gestores de extrema direita, a exemplo do atual governador do estado, Romeu Zema (Novo). 

“O governo Zema é de extrema direita e não investe nas políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres como deveria. Isso reverbera na violência doméstica e no aumento da sensação de impunidade, por exemplo. É claro que a violência contra as mulheres está na estrutura, mas a extrema direita tem como base, tem como combustível, a misoginia, de maneira escancarada”, avalia. 

Minas Gerais está sempre no ranking. E isso não é de ontem, é quase uma tradição

“Não existe vergonha da extrema direita em falar da subjugação das mulheres, em falar que as mulheres devem ser submissas aos homens e que os homens devem controlar os corpos das mulheres”, continua a pesquisadora. 

No ano passado, a gestão do governador vetou integralmente um projeto de lei que tinha o objetivo de proteger servidoras estaduais vítimas de violência doméstica. A proposta havia sido aprovada por unanimidade na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e a recusa do governador em implementar a lei foi motivo de críticas de especialistas, movimentos de mulheres e parlamentares da oposição. Posteriormente, o veto foi derrubado pelo legislativo. 

Bernadete Esperança, da coordenação da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), destaca que, além de não promover ações de prevenção à violência contra a parcela feminina da população mineira, a gestão Zema desmonta políticas públicas que poderiam ajudar a reduzir os índices e incentiva, por meio do próprio discurso do governador, as agressões.  

“Zema naturaliza a violência. Ele já falou, por exemplo, que o homem ‘tem instinto violento’. Ao mesmo tempo, corrobora com a misoginia da extrema direita. Além disso, há uma precarização das políticas públicas de combate a essa violência e de proteção às mulheres. Além de não investir, ele está precarizando”, enfatiza. 

Esperança também relembra que, ao estratificar os dados de feminicídio em Minas Gerais e no Brasil, a maior parte das mulheres assassinadas são negras e pobres, revelando que a estrutura que permite esse contexto de violência também têm recortes de raça e classe social. 

Ainda que o estado detenha um dos maiores índices, a coordenadora da MMM chama a atenção para o fato de que esse cenário faz parte de uma realidade global, intensificada com a ascensão da extrema direita e do conservadorismo ao redor de todo o mundo. 

“É só uma expressão, aqui em Minas Gerais, do que tem sido esse contexto que vive o mundo, de ofensiva do imperialismo, que tem a violência como a sua forma mais explícita de atuação. O imperialismo norte-americano tenta retomar sua hegemonia por meio das guerras. E isso tem expressão também nas nossas vidas, enquanto mulheres, nos locais onde vivemos, nas cidades, nos estados, e aqui em MG, com um governo de extrema direita”, argumenta Esperança. 

Alternativas

Diante desse contexto, na avaliação de Bruna Camilo, ao invés de precarizar os serviços públicos de enfrentamento à violência contra as mulheres, o Estado deveria ampliar o investimento para reduzir os índices de feminicídio.

“Se a gente tem investimento dentro das políticas de proteção, a gente tem mais corpo técnico e profissional para acolher as mulheres e esse corpo profissional capacitado, formado, sensibilizado, é fundamental. Precisamos ter mais casas de apoio, abrigos, e espaços para que as mulheres que estão em situação de iminência desse feminicídio possam ir com os seus filhos”, defende. 

Ela também enfatiza que as delegacias especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência devem ser melhor estruturadas, com funcionários que saibam acolher, para que a pessoa agredida não seja “revitimizada” ao buscar amparo. 

“Isso tudo passa pela formação e pela capacitação. E claro, precisamos de campanhas em outdoor, na internet, na televisão, etc, campanhas que façam com que o agressor se sinta intimidado e que, em algum momento, quem sabe, ele tome consciência de que não pode agredir uma pessoa e muito menos uma mulher”, continua a especialista em gênero. 

Além do fortalecimento das políticas públicas mencionadas acima, Bernadete Esperança destaca a importância de o Estado oferecer mecanismos para que as mulheres consigam romper com o ciclo de violência, por meio, por exemplo, da autonomia financeira. 

“As relações de gênero precisam ser reorganizadas para uma lógica que não seja violenta. Além das políticas de prevenção, precisamos fortalecer as mulheres, possibilitar autonomia econômica, para que elas possam ter condições de sair ou de não entrarem em ciclos de violência”, defende. 

Governo Lula lança pacto

Na contramão da política estadual, nesta semana, o governo Lula (PT) lançou o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, estabelecendo uma cooperação inédita entre os três Poderes para prevenir mortes de mulheres e meninas no país. Uma das principais novidades é o esforço para que as medidas protetivas sejam aplicadas com mais agilidade. O objetivo é diminuir o intervalo entre a denúncia e a proteção real.

Para a coordenadora da MMM, essa é uma medida importante, que pode impactar positivamente as vidas de milhares de mulheres em todo o Brasil.

“A gente vê que, às vezes, várias mulheres chegam a denunciar e receber medidas protetivas, mas a efetivação dessas medidas não acontece. Elas não têm a garantia de que o agressor vá realmente ficar distante e algumas acabam sendo assassinadas”, explica. 

Outro lado

O Brasil de Fato MG entrou em contato com o governo de Minas para comentar sobre as denúncias. O texto será atualizado, caso haja um posicionamento.   

Editado por: Elis Almeida

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