O governo federal estima que o ano pode fechar com uma inflação de 3,6% para 2026. Para o economista Paulo Kliass ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cenário atual é resultado de dois compromissos assumidos pelo governo que atuam como amarras. O primeiro é a meta de superávit primário de 0,25% do PIB para 2026, equivalente a R$ 34 bilhões, estabelecida na Lei de Diretrizes Orçamentárias. “O próprio governo se comprometeu com um ‘austericídio'”, afirma o economista. “Para gerar esse superávit, o que se corta? Saúde, educação, previdência. É uma lógica perversa.”
O segundo compromisso é a meta de inflação, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central, que, na avaliação de Kliass, serviu como um argumento para a política de juros altos. “Desde janeiro de 2023, o governo deveria ter revisado essa meta. Ao mantê-la rígida e inexequível, entregou de bandeja ao Copom a justificativa para elevar a Selic aos atuais 15%”, analisa.
A expectativa de inflação de 3,6% para este ano, dentro do intervalo da meta, poderia, em tese, abrir espaço para o início de um ciclo de cortes na taxa básica. No entanto, Kliass adverte que o Copom utiliza outras justificativas: “Eles citam o ‘aquecimento’ do mercado de trabalho e a possibilidade de ganhos salariais como riscos. Também olham para a taxa de juros dos Estados Unidos, com medo de uma fuga de capitais”, explica.
Qualquer redução, porém, seria simbólica diante do patamar atual. “Se baixar 0,25 ou 0,5 precisamos de uma mudança de patamar”, dispara. O custo real dessa política salta aos olhos nos dados do Banco Central: em 2025, o Brasil gastou mais de R$ 1 trilhão apenas com o pagamento de juros da dívida pública.
“A inflação dos alimentos, dos aluguéis, a que atinge a base da pirâmide, é maior do que a média oficial. O poder de compra do salário mínimo, em termos de cesta básica, está caindo”, aponta. “A população pode estar empregada, mas uma fatia grande da renda está comprometida com o pagamento de dívidas passadas, contraídas com juros abusivos. Isso anula a sensação de melhora”, acrescenta.
O economista reconhece o valor positivo de medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a criação do Vale Gás. “São melhorias, injetam recursos na economia e no bolso das pessoas”, afirma.
No entanto, ele ressalta suas limitações e o timing político. A isenção, prometida para cinco salários mínimos (cerca de R$ 8 mil atuais), foi aprovada em um valor menor e sem correção monetária desde a promessa de campanha. “É muito pouco ousada”, avalia. Já o Vale Gás levanta uma questão: “Por que só em ano eleitoral? A população não merecia esse auxílio antes?”.
“O compromisso da equipe econômica é com a austeridade fiscal. O resultado é dinheiro a rodo, sem teto, para o sistema financeiro, e recursos contingenciados para a saúde, a educação e a assistência social. Essa é a armadilha que prende o desenvolvimento e explica o mal-estar popular.”
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