Jimmy Lai, ex-magnata da mídia hong-konguesa e fundador do extinto jornal Apple Daily, foi condenado a 20 anos de prisão pelo Tribunal Superior de Hong Kong em 9 de fevereiro de 2026. Esta é a primeira condenação por “conspiração para conluio com forças estrangeiras” desde a implementação da Lei de Segurança Nacional de Hong Kong em 2020.
A condenação é pela responsabilidade de Lai como articulador financeiro e ideológico das ações violentas de 2019 que visavam derrubar o governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, assim como por ter trabalhado com potências estrangeiras para impor sanções à China.
Lai foi condenado sob duas acusações de conspiração para conluio com forças externas e uma acusação de conspiração para publicar materiais sediciosos. O tribunal o identificou como “mentor e força motriz” das conspirações, tendo usado sua posição como empresário da mídia como fachada para atuar como agente de forças anti-China, que é como o país chama o separatismo.
O julgamento durou 156 dias, começando em 18 de dezembro de 2023, e foi conduzido por três juízes designados especialmente sob a Lei de Segurança Nacional de Hong Kong. Foram analisados mais de 2.200 documentos sobre as atividades de Lai entre abril de 2019 e junho de 2021.
Além de Lai, suas empresas Apple Daily Limited, Apple Daily Printing Limited e Apple Daily Internet Limited também foram rés no caso, todas enfrentando acusações de conspiração para publicar materiais sediciosos e conspiração para conluio com forças externas.
Articulação para pedir sanções e bloqueios
As atividades de Lai não foram apenas expressão de opiniões, constituindo uma conspiração ativa contra a segurança nacional, de acordo com o processo. O tribunal concluiu que ele pressionou ativamente governos estrangeiros, incluindo Estados Unidos, Reino Unido e Japão, a impor sanções, bloqueios e outras medidas hostis contra autoridades chinesas e de Hong Kong.
Lai utilizou o Apple Daily para publicar materiais que incitavam a insatisfação pública e glorificavam as sanções estrangeiras, mesmo após a entrada em vigor da Lei de Segurança Nacional. Ele também forneceu apoio financeiro a grupos que visavam provocar ações hostis de potências ocidentais contra a China.
Encontros com autoridades dos EUA em 2019
Em julho de 2019, em plena escalada das ações violentas em Hong Kong, Lai viajou a Washington para reuniões com altíssimas autoridades do primeiro governo Trump: o vice-presidente Mike Pence, o secretário de Estado Mike Pompeo e o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton.
Segundo declaração da porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Morgan Ortagus, Pompeo e Lai discutiram “desenvolvimentos relacionados às emendas ao projeto de lei de extradição de Hong Kong” e “o status da autonomia de Hong Kong sob a estrutura de ‘Um País, Dois Sistemas'”.
Mark Simon, braço direito de Lai no seu grupo de mídia Next Digital, informou à (agora extinta) Radio Free Asia que houve “discussão construtiva sobre a situação em Hong Kong, direitos humanos e o contexto mais amplo com a China e Taiwan”, e que Lai “agradeceu ao secretário Pompeo pela preocupação do governo com os direitos humanos e encorajou a atenção internacional contínua a Hong Kong”.
O Ministério das Relações Exteriores da China em Hong Kong emitiu representação solene ao Consulado Geral dos EUA, classificando os encontros como interferência estrangeira e afirmando que “os principais oficiais do governo dos EUA têm motivos ulteriores” ao se reunirem com Lai “neste momento sensível de Hong Kong”.
Simon é filho de um agente da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA), e ele mesmo trabalhou com inteligência naval dos EUA. Ele tem manifestado que deixou a Marinha dos EUA em 1991 e nega qualquer vínculo com trabalho de inteligência desde então.
Um mês após as reuniões em Washington, Lai concedeu entrevista à CNN onde afirmou: “Nós, em Hong Kong, estamos lutando pelos valores compartilhados dos EUA contra a China. Estamos lutando a guerra deles no campo inimigo”.
Pagamentos a ex-funcionários do governo dos EUA
Os documentos analisados no processo mostram que Lai pagou mais de HK$ 13 milhões (R$ 9,5 milhões) a dois ex-funcionários de alto escalão do governo estadunidense: o general Jack Keane e o ex-vice-secretário de Defesa Paul Wolfowitz. Entre 2013 e 2017, Lai pagou HK$ 1,76 milhão (R$ 1,3 milhão) especificamente a Wolfowitz, quantia que, segundo a acusação, tinha como objetivo influenciar a política estadunidense em relação à China, segundo informações divulgadas pelo China Daily.
O próprio Lai financiou viagens no valor total de HK$ 14,9 milhões (R$ 10,9 milhões) para Wolfowitz e Keane visitarem Taiwan quatro vezes, onde se encontraram com a então líder da ilha, Tsai Ing-wen, do Partido Progresista Democrático (PDP).
O tribunal também ouviu que Lai pagou NT$ 5,8 milhões (R$ 1,18 milhão) ao longo de 27 meses a um assessor de destaque de Tsai, mesmo depois que o indivíduo havia parado de escrever para a publicação irmã do Apple Daily em Taiwan. Lai afirmou desconhecer os pagamentos e pediu sua interrupção imediata ao tomar conhecimento do fato.
Além disso, Lai adiantou HK$ 5 milhões (R$ 3,7 milhões) para um “Plano Global de Publicidade do G20” através da organização Stand with Hong Kong (SWHK) e sugeriu o financiamento de 10 mil libras (R$ 89 mil) para desenvolver indivíduos como “estrelas políticas” capazes de mobilizar oposição internacional a Pequim.
Nesta terça-feira (9), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, reforçou que Lai, como cidadão chinês e arquiteto principal de uma série de atividades anti-China destinadas a desestabilizar Hong Kong, deve ser severamente punido pela lei. Lin destacou que as ações de Lai minaram gravemente os princípios fundamentais de “Um País, Dois Sistemas”, colocaram em perigo a segurança nacional e prejudicaram significativamente a prosperidade, a estabilidade e o bem-estar dos residentes de Hong Kong.
As ações de 2019 que visavam derrubar o governo
O tribunal concluiu que Lai foi articulador e participante importante nas ações violentas que ocorreram em Hong Kong em 2019, que começaram como oposição à revisão da Lei de Extradição, mas rapidamente evoluíram para atividades criminosas violentas em larga escala.
Em 1º de julho de 2019, no 22º aniversário do retorno de Hong Kong à China, o prédio do Conselho Legislativo da Região Administrativa Especial de Hong Kong foi invadido. Utilizando barras de ferro e carrinhos, os invasores destruíram as paredes de vidro do edifício e forçaram a entrada. Dentro do local, vandalizaram instalações, rasgaram cópias da Lei Básica, desfiguraram o emblema regional de Hong Kong e ergueram a bandeira separatista no centro da câmara legislativa, proclamando abertamente a formação de um suposto “governo provisório”.
As ações eram altamente organizadas, com divisão clara de trabalho entre “atacantes”, pessoal de “defesa” e operadores de comunicação. Os participantes utilizaram barras de ferro, garrafas de água, pós químicos, líquidos corrosivos, bombas incendiárias caseiras e até lanças de ferro para atacar a polícia. Segundo a Polícia de Hong Kong, pelo menos 10 pessoas morreram em função das ações e mais de 1.200 pessoas e 500 policiais foram feridas.
