SABOTAR A PALESTINA

Planos israelenses de endurecer ocupação na Cisjordânia são condenados internacionalmente; Hamas reitera ‘resistência’ em Gaza

Governo israelense admite que medida visa 'enterrar ideia de Estado palestino'

Palestinos em frente a outra casa demolida por Israel na Cisjordânia, nesta segunda (9)
Palestinos em frente a casa demolida por Israel na Cisjordânia, nesta segunda (9) | Crédito: ZAIN JAAFAR / AFP

Os planos do governo israelense anunciados na noite de domingo (8) de endurecer a ocupação na Cisjordânia, com o confisco de mais terra palestina vêm gerando forte condenação internacional. União Europeia (UE), Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Indonésia, Paquistão, Egito e Turquia já se pronunciaram.

“A União Europeia condena as recentes decisões do gabinete de segurança de Israel de expandir o controle israelense na Cisjordânia. Essa medida é mais um passo na direção errada”, declarou o porta-voz da UE, Anouar el Anouni, a jornalistas.

Já um comunicado conjunto, emitido pelo Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita em nome dos oito países muçulmanos, condena “veementemente as decisões e medidas ilegais de Israel destinadas a impor uma soberania israelense ilegítima”.

A Palestina apresentou um pedido urgente à Liga Árabe para a realização de uma sessão extraordinária, a fim de discutir as novas medidas israelenses relativas à Cisjordânia ocupada, segundo a agência de notícias Wafa.

“O pedido para esta reunião surge em virtude das recentes decisões agressivas do governo de ocupação israelense, que visam expandir os assentamentos coloniais, demolir casas, confiscar terras públicas e privadas e transferir os poderes da prefeitura de Hebron para a chamada ‘Administração Civil’ das autoridades de ocupação, incluindo o prejuízo ao status e à posição da Mesquita de Ibrahimi”, declarou à Wafa o embaixador Muhannad Al-Aklouk, representante permanente do Estado da Palestina junto à Liga.

“Essas decisões ilegais constituem uma continuação da agressão israelense abrangente contra o povo palestino, suas terras, locais sagrados e propriedades, e um aprofundamento das políticas de anexação e expansão”, acrescentou. Ele apelou aos aliados para que tomem medidas para “conter” a decisão israelense.

Mais assentamentos judaicos em terra palestina

O gabinete de segurança de Israel aprovou medidas voltadas a aumentar o controle sobre a Cisjordânia ocupada e abrir caminho para uma maior expansão dos assentamentos nessa região. A Cisjordânia, que Israel ocupa desde 1967, constitui a maior parte do território de um potencial Estado palestino, mas o governo de Benjamin Netanyahu visa aumentar a presença de colonos no local.

“O gabinete de segurança aprovou hoje uma série de decisões […] que modificam fundamentalmente a realidade jurídica e civil em Judeia e Samaria”, um termo bíblico utilizado pela extrema direita israelense e por personalidades ultrarreligiosas para se referir à Cisjordânia.

As medidas foram anunciadas pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, um político de extrema direita do partido Sionismo Religioso, e pelo titular da pasta de Defesa, Israel Katz. A reforma inclui a eliminação das regulações vigentes há décadas que proíbem judeus de comprar terras na Cisjordânia, segundo um comunicado conjunto.

Smotrich afirmou que a medida tem como objetivo “enterrar a ideia de um Estado palestino”.

Entre as decisões anunciadas está a transferência da autoridade sobre as permissões de construção para os assentamentos em partes de cidades palestinas, incluindo Hebron, dos órgãos municipais da Autoridade Palestina para Israel.

Até hoje, qualquer mudança nas construções da comunidade judaica requeria a aprovação tanto do município local quanto das autoridades israelenses. As novas medidas estabelecem que apenas será necessária a autorização de Israel.

Enfraquecer a Autoridade Palestina

O anúncio chega poucos dias antes da visita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aos Estados Unidos, onde se reunirá com o presidente Donald Trump, que se opõe à anexação da Cisjordânia.

Cerca de 10% da população israelense, ou mais de 700 mil pessoas, estão em assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais, segundo o direito internacional. Nesse território vivem cerca de três milhões de palestinos. A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia alcançou, em 2025, seu nível mais alto desde 2017, quando a organização internacional começou a coletar esses dados.

Desde o início do genocídio palestino em curso na Faixa de Gaza, pelo menos 1.112 palestinos foram mortos na Cisjordânia, cerca de 11.500 ficaram feridos e mais de 21.000 foram detidos nesse período, segundo estimativas palestinas.

O grupo israelense de direitos humanos Peace Now alertou que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, está seguindo uma política “perigosa e irresponsável” de desmantelamento da Autoridade Palestina e imposição de uma anexação de fato da Cisjordânia por meio de sua nova lei sobre o território ocupado.

“Netanyahu prometeu derrubar o Hamas em Gaza, mas, na prática, optou por derrubar a Autoridade Palestina, cancelar acordos assinados por Israel e impor uma anexação de fato – contrariando completamente a vontade popular, os interesses de Israel e a posição clara do presidente Trump”, afirmou o Peace Now em um comunicado.

Hamas nega que renunciará às armas

A liderança do Hamas Khaled Meshal afirmou neste domingo (8) que o movimento islamista palestino não renunciará às suas armas e rejeitará qualquer domínio estrangeiro na Faixa de Gaza, apesar dos pedidos de desarmamento por parte de Israel e Estados Unidos.

“Criminalizar a resistência, suas armas e aqueles que a realizaram é algo que não devemos aceitar”, declarou Meshal em uma coletiva em Doha, acrescentando que o armamento do Hamas é parte integrante da “resistência” contra Israel nos territórios palestinos.

“Enquanto houver ocupação, há resistência. A resistência é um direito dos povos sob ocupação. É algo do qual as nações se orgulham”, declarou o ex-chefe do gabinete político do grupo islamista, que atualmente dirige o escritório da diáspora do movimento.

Após o cessar-fogo de 10 de outubro, o plano de Trump entrou, em meados de janeiro, na sua segunda fase, que prevê o desarmamento do movimento e a retirada progressiva do Exército israelense de Gaza. Mas o Hamas, que governa o território desde 2007, faz do seu desarmamento uma linha vermelha, embora sem descartar entregar suas armas a uma futura autoridade palestina.

Segundo dirigentes israelenses, o movimento islamista ainda dispõe de 20 mil combatentes e de dezenas de milhares de armas em Gaza.

Editado por: Geisa Marques

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