SILÊNCIO NAS VEIAS

Falta de profissionais no laboratório do HPS paralisa diagnósticos e coloca vidas em risco em Porto Alegre

Com redução de 56% no quadro de servidores, exames críticos sofrem atrasos de horas; gestão municipal não se manifesta

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Escala de plantão do laboratório do Hospital de Pronto Socorro (HPS) revela diversas noites sem profissionais habilitados para a liberação de exames indispensáveis
Escala de plantão do laboratório do Hospital de Pronto Socorro (HPS) revela diversas noites sem profissionais habilitados para a liberação de exames indispensáveis | Crédito: Joana Berwanger / Sul21

O laboratório do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre, instituição que é referência histórica em trauma e atendimentos de emergência no Rio Grande do Sul, enfrenta uma crise estrutural que ameaça diretamente a vida dos pacientes que dependem do serviço público. Durante 12 noites do mês de fevereiro de 2026, o serviço operou sem a presença de farmacêuticos-bioquímicos ou biomédicos, profissionais legalmente habilitados para a liberação de resultados.

Em vez de um fluxo contínuo e ágil, a operação é precária, com técnicos de laboratório trabalhando sozinhos, limitando-se a encaminhar materiais coletados pela enfermagem para outra unidade, o Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (HMIPV). A logística depende de um serviço terceirizado de motoboy que recolhe o material a cada duas horas, o que, somado ao tempo de processamento em um laboratório já sobrecarregado pela demanda do Posto de Atendimento Cruzeiro do Sul, gera atrasos críticos em quadros clínicos onde cada minuto é decisivo.

Segundo uma servidora que trabalha há 13 anos no laboratório e preferiu não se identificar por medo de represálias, exames como a gasometria arterial, que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda ser analisada em até 30 minutos, e a troponina, essencial para detectar infartos, têm seus prazos de entrega tornados praticamente impossíveis de cumprir. Na visão da funcionária, a estratégia adotada pela prefeitura nas noites sem analista torna o cumprimento desses prazos inviável, o que pode atrasar a tomada de decisão médica e colocar o paciente em risco extremo.

O preço da espera por um resultado

A demora na entrega de laudos laboratoriais não é apenas um entrave burocrático, mas uma falha sistêmica que já apresenta consequências fatais registradas em documentos internos da própria instituição. Em um dos episódios notificados pela equipe, um paciente vítima de queda teve exames solicitados às 20h44, mas os resultados críticos — incluindo uma enzima TGO com valor de 2058 U/L, quando o parâmetro normal é de até 40 U/L — só foram liberados às 01h40 do dia seguinte. Este mesmo paciente, que apresentava os níveis extremos de TGO, evoluiu para óbito sem a agilidade necessária na resposta laboratorial. Em outro caso grave relatado, uma vítima de atropelamento com sangramento severo foi levada ao bloco cirúrgico sem exames laboratoriais prévios; uma gasometria solicitada às 20h01 só obteve resultado às 9h01 do dia posterior.

A servidora anônima relata que a pressão sobre os técnicos que ficam sozinhos nos plantões “é exaustiva”, pois eles precisam executar a triagem, buscar e entregar materiais, acionar o transporte e ainda atender cobranças constantes por telefone de equipes da UTI que aguardam urgência para procedimentos de vida ou morte. De acordo com o relato da profissional, o funcionário da ponta é cobrado por uma situação que foge completamente da sua alçada.

Ela detalha que, em muitos casos, o técnico acaba executando gasometrias em desvio de função, entregando apenas o resultado impresso pelo equipamento ao médico, sem a devida validação técnica. Conforme as normas da Anvisa (RDC nº 786/2023), um resultado de exame clínico não possui validade sem a responsabilidade técnica de um profissional habilitado presente fisicamente no local.

Um quadro de pessoal em colapso

O sucateamento do serviço é evidenciado por dados comparativos que mostram uma queda drástica no número de servidores ao longo da última década. Em 2016, o laboratório contava com 11 farmacêuticos-bioquímicos e 16 técnicos de laboratório, todos concursados. Em 2026, esse número caiu para apenas cinco farmacêuticos, uma biomédica e sete técnicos, representando uma redução de 56,25% na força de trabalho municipal. Relatórios assinados por chefias da unidade, como Rochele Latronico Beskow e Tamires de Araujo Cardozo Becker, reforçam que o diagnóstico laboratorial é um serviço essencial e ininterrupto, e que a falta de reposição de aposentadorias compromete a segurança fundamental dos pacientes atendidos.

A situação de quem permanece no serviço é descrita como de “absoluto esgotamento físico e mental”. Documentos internos apontam que o saldo de férias acumuladas de farmacêuticos e biomédicos chegava a 235 dias em novembro de 2024, além de mais de mil dias de licença-prêmio não usufruídos porque os servidores não podem se afastar sem paralisar o atendimento por completo. Conforme aponta um despacho da chefia da unidade enviado à direção do hospital, a prática de fechar a escala utilizando saldo de horas extras implica em servidores que não folgam e trabalham diversos plantões de 24 horas consecutivos, o que gera um alto risco de adoecimento e erros procedimentais.

Entre o desvio de função e a exaustão

A carência de pessoal forçou mudanças no fluxo de trabalho que geram novos problemas em cascata. Com a redução de técnicos de laboratório, a coleta de sangue passou a ser responsabilidade dos técnicos de enfermagem, que já se encontram sobrecarregados em suas funções originais à beira do leito. A servidora ouvida pela reportagem observa que essa alteração aumentou o número de recoletas por amostras inadequadas, o que expõe o paciente a novos procedimentos invasivos e retarda ainda mais o resultado final. Além disso, o setor de microbiologia, vital para o controle de infecções e escolha de antibióticos assertivos, não funciona mais aos finais de semana e feriados devido ao déficit de analistas.

A gravidade do cenário é acentuada pelo fato de que o concurso público para farmacêuticos tem validade apenas até março de 2025, e o de biomédicos já expirou, sem novas vagas abertas para o cargo no horizonte da gestão municipal. A gerência do laboratório tem solicitado reiteradamente a contratação urgente de pelo menos três farmacêuticos para suprir as lacunas imediatas nas escalas diurnas e noturnas. Um e-mail enviado por um técnico à administração em janeiro de 2026 descreve o estresse agudo de trabalhar sem supervisão técnica, alertando formalmente para o aumento do risco de erros pré-analíticos que podem custar vidas.

Silêncio administrativo

Apesar dos alertas formais enviados pelas chefias do laboratório à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e à Direção Geral do HPS desde o governo anterior, as soluções apresentadas até agora foram paliativas, como contratos temporários que já se encerraram, agravando o déficit de profissionais. A servidora anônima defende que a solução imediata deveria ser a contratação emergencial de analistas e, a longo prazo, a realização de novos concursos públicos para garantir a continuidade do serviço público de qualidade.

Em seu desabafo final, ela questiona até quando a situação será sustentada pelo sacrifício dos servidores, ressaltando que o esforço das chefias atuais para resolver a questão perante a direção central “não tem obtido sucesso”.

Buscando garantir o princípio do contraditório e ouvir todos os lados envolvidos na crise, a reportagem solicitou, via e-mail, esclarecimentos à Prefeitura de Porto Alegre, à Secretaria Municipal de Saúde e à direção do Hospital de Pronto Socorro sobre a falta de profissionais e os riscos apontados nos documentos internos e no depoimento da servidora. Foram questionados os prazos para novas contratações e as medidas de segurança adotadas durante o transporte de materiais. Até o fechamento desta edição, não houve retorno de nenhuma das instâncias procuradas. O espaço permanece aberto para manifestações futuras das autoridades responsáveis pela gestão da saúde pública da capital gaúcha.

Editado por: Marcelo Ferreira

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