PELA CIDADE BAIXA

Brasa se transforma em ponto democrático da literatura dos quadrinhos, da caricatura e do desenho

Bar, loja, livraria, espaço de eventos reúne artistas de várias frentes da cultura em Porto Alegre

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Loja da Brasa é especializada em histórias em quadrinhos
Loja da Brasa é especializada em histórias em quadrinhos | Crédito: Rafa Dotti

A literatura não é estanque, fechada. Tem variantes. É bem ampla. As histórias em quadrinhos são parte da literatura. Não as histórias dos gibis tradicionais, do tipo que todo mundo conhece, de heróis e outras coisas. Dentro do conceito de que histórias em quadrinhos são um grande universo, repleto de literatura, de variados temas, é que a Loja da Brasa, na rua José do Patrocínio, 607, Cidade Baixa, em Porto Alegre, virou desde meados de 2025 um espaço de referência e de qualidade da região.

Uma local cultural democrático, de conversas, papos intermináveis, com uma livraria com muitas opções de livros de quadrinhos e também de literatura geral, cervejas, refrigerantes, drinques, cafés e alguns salgados. A área começa a virar moda. Ali acontece de tudo, exposições, lançamentos de livros, pequenos shows, eventos, exposições, pessoal da poesia do slam – o Slam Farofa*, pontos de encontros e tantas outras coisas.

Exposição "O império desaba" na Brasa
Exposição “O império desaba” na Brasa | Crédito: Rafa Dotti

Agora, há ali uma exposição marcante – O Império Desaba – sobre os delírios do mundo desastrado e autoritário do presidente estadunidense, Donald Trump, com trabalhos, caricaturas e charges de artistas da estirpe de Alisson, Aroeira, Bier, Bira Dantas, Carlos Castelo, Claudius, Edgar Vasques, Denis, Elias, Guto Camargo, Hals, Kayser, Latuff, Máucio, Miguel Paiva, 100ton, Paulo Lima, Rodrigo Geraldi, Santiago, Celso Schröder, Tarso, Thiago Lucas e Zepa.

É uma iniciativa extraordinária do Jornal Grifo, da editora Grafar (Grafistas Associados do RS), uma publicação eletrônica mensal focada em humor, política e charges, lançada em outubro de 2020. Com mais de 50 edições, o jornal atua com traço crítico e bico afiado sobre a atualidade, promovendo exposições de cartuns e atuando no cenário cultural, incluindo mostras em Porto Alegre. O evento será simultâneo em Porto Alegre e Tramandaí (RS), além de Florianópolis e São Paulo.

Exposião é iniciativa do Jornal Grifo, da editora Grafar
Exposião é iniciativa do Jornal Grifo, da editora Grafar | Crédito: Rafa Dotti

A exposição não tem data para terminar, mas já há outra marcada para este mês ainda, exclusivamente com originais de Edgar Vasques, criador de Rango e de tantos outros personagens. Em dezembro, ocorreu uma mostra de originais de Santiago, autor de Taurino e tantas outras figuras, com o objetivo de arrecadar fundos para uma cirurgia complicada do artista. “Foi um sucesso, muita gente esteve aqui”, recorda o proprietário Rodrigo Geraldi, 43 anos, um entusiasta das atividades da loja, livraria e bar que dirige.

História da Brasa

Prédio da loja e editora pintado de preto chama a atenção na Cidade Baixa
Prédio da loja e editora pintado de preto chama a atenção na Cidade Baixa | Crédito: Rafa Dotti

Antes, a Brasa era uma só coisa – a editora Brasa e a loja. Agora, estão desconectadas uma do outra, mas ainda profundamente unidas pelo trabalho de estimular a cultura e os quadrinhos. A editora funciona no segundo andar do prédio e o bar no térreo. A empresa é comandada pelo roteirista e editor Lobo – “simplesmente Lobo da Brasa, como sou conhecido no meio, sem qualquer sobrenome, para não confundir”.

Tanto Geraldi como Lobo dizem que formam uma parceria completa. “Prestigiamos cartunistas, desenhistas, chargistas, alguns esquecidos e que estão à margem da mídia tradicional”, afirmam. “O fazer artístico mudou com as novas tecnologias”, diz Lobo. Há também uma terceira sócia na editora, Samantha Desimon, co-fundadora.

Na esquerda Lobo, na direita o Rodrigo Geraldi
Na esquerda Lobo, na direita o Rodrigo Geraldi | Crédito: Rafa Dotti

O prédio, onde funciona a corporação Brasa, como poderia-se dizer, é todo pintado de preto, dentro e fora. Tem um charme especial, uma forma de mostrar um design diferenciado, um local de encontros e parcerias. “Às sextas promovemos show musical, também uma bela expressão artística, com chorinhos e sambas, com o Barbosinha Trio”, conta Geraldi.

A base dos frequentadores da loja – dia e noite – é de adultos 30+ ou bem mais, alguns bem menos também, além de intelectuais, artistas, fotógrafos e jornalistas. “Aqui vêm pessoas que querem se encontrar, conversar, ou simplesmente ler, sem ser importunado. Os livros da livraria podem ser lidos à vontade, queremos formar leitores e criar o hábito de leitura de quadrinhos”, ressalta Geraldi.

O acervo é diversificado, com destaque para títulos autorais do pessoal da Brasa, como Brega Story, Lovistori, Grandes Sucessos e Damasco. A loja oferece um ambiente aconchegante para tomar um café, saborear um pão de queijo ou até uma cerveja enquanto se curte e se aprecia o local ou se lê alguma coisa.

Espaço de leitura da Brasa
Espaço de leitura da Brasa | Crédito: Rafa Dotti

Cinemão

O local abre de segunda à sábado e, na agenda, às quartas-feiras, acontece o Cinemão, sempre às 19h30 com algum filme clássico, histórico ou de destaque. “Nós estamos sempre inventando alguma coisa, algum evento. Quem quiser vir aqui fazer alguma coisa pode chegar e conversar. Não há cobrança de aluguel, discutimos uma percentagem sobre vendas e pronto. Está feito o negócio”, diz Geraldi, humorista e caricaturista há mais de dez anos.

Ali já foram realizados nos últimos tempos o Festival de Animação, Festival Brasa de Quadrinhos Brasileiro para comemorar o Dia do Quadrinho Nacional (30 de janeiro) e até aniversário com oficina de arte, mas o foco principal são os quadrinhos. “Criamos quadrinhos com palavras, utilizando a linguagem de forma estética, subjetiva e artística para expressar emoções, recriar a realidade ou estimular a imaginação”, afirmam Geraldi e Lobo.

Acervo Brasa
Acervo Brasa | Crédito: Rafa Dotti

“É bonito ver os quadrinhos ganhando mais espaço nas ruas e nas prateleiras de Porto Alegre”, destaca Geraldi. A ideia é ampliar o acervo de quadrinhos e literatura, além de oferecer o espaço para o público e para os eventos. “A Loja da Brasa é um espaço democrático, de braços abertos para quadrinhos independentes, literatura e todas as tribos da cidade. Um lugar feito por apaixonados por histórias, para apaixonados por histórias”, afirma. E avisa: breve vai mudar o nome da loja por razões que prefere não esmiuçar. Talvez algum nome para não confundir com a editora.

Contatos:

• WhatsApp Loja da Brasa: +55 51 99311-9367
• Instagram: @lojadabrasa
• Endereço: Rua José do Patrocínio, 607, Cidade Baixa, Porto Alegre/RS (Loja da Brasa Editora)
• E-mail: [email protected]
• Há suvenires no local para venda.

*Slam Farofa é uma batalha de poesia falada que promove encontros artísticos focados na periferia, resistência e afeto, frequentemente associado a ações poéticas e competitivas.

Editado por: Marcelo Ferreira

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