Economia

Fraude do Master foi ‘negligência’ do BC de Campos Neto, não falha regulatória, avalia economista

Em entrevista ao Conexão BdF, José Luis Oreiro contesta fala de Haddad e atribui escândalo à omissão do Banco Central

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O ministro da Fazenda Fernando Haddad
O ministro da Fazenda Fernando Haddad | Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Em discurso em evento de banco privado nesta terça-feira (10), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apontou a necessidade de um “sistema regulatório mais robusto” para conter fraudes como a do Banco Master e sinalizou uma possível “reformulação estrutural” dos gastos sociais, incluindo o Bolsa Família.

Para o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a alegação de fragilidade regulatória não se sustenta diante do caso Master. “Me estranha essa afirmação do ministro”, diz, atribuindo o escândalo à “negligência” do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto.

O professor lembrou que alertas sobre operações atípicas do banco foram publicados até na imprensa, como uma extensa reportagem da revista Piauí em outubro de 2024. “O problema é que, principalmente durante a gestão Campos Neto, o Banco Central, aparentemente, não quis resolver. Quando quis, resolveu rapidamente”, afirma.

Oreiro considera que a postura do BC poderia ter motivação ideológica. “Campos Neto defendia que o spread bancário alto vinha da concentração do setor e que era preciso estimular a concorrência, o crescimento de bancos como o Master. Pode ser que ele simplesmente achasse que não havia problema”. O economista usou uma analogia médica para criticar a inação do regulador: bancos que pagam acima da taxa de mercado (CDI) para captar recursos apresentam um “sintoma claro” de problemas de liquidez. “O BC deveria ter olhado com mais cuidado e simplesmente não o fez”, diz.

Bolsa Família e gastos sociais

Ao comentar a fala de Haddad sobre a “reformulação” de gastos sociais para ajuste fiscal, Oreiro avalia que o problema não está nos programas sociais, mas na regra fiscal “insustentável” e “irrealista” criada pelo próprio governo em 2023. “O arcabouço define metas para o resultado primário e para o crescimento das despesas que não podem ser cumpridas simultaneamente”, explica.

Sobre a sugestão de unificar benefícios em uma renda básica, o economista defende o modelo atual do Bolsa Família. “A renda básica é universal e incondicional. Custa muito caro e perde o foco nas pessoas que mais precisam”, aponta.

O programa atual, segundo ele, tem um mecanismo de saída via educação. “A ideia era: os pais que recebem podem ter oportunidades limitadas, mas seus filhos, com estudo, vão se inserir no mercado de trabalho. E os estudos mostram que está funcionando, muita gente está saindo do programa”, destaca.

Por fim, ao comentar a inflação de fevereiro, pressionada pelos combustíveis, Oreiro atribui a lentidão no repasse dos cortes aos postos a uma falta de concorrência no setor. “Isso é um sintoma claro de um setor que não é competitivo, é um oligopólio”.

Ele vincula o problema à privatização da BR Distribuidora no governo Bolsonaro. “Enquanto a BR era estatal, você poderia, por meio dos postos da estatal, forçar a queda do preço na bomba”, diz.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Geisa Marques

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