A Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo abre, a partir de 23 de fevereiro, inscrições para uma nova programação de oficinas, laboratórios e ciclos de estudos voltados à formação artística e à preservação da memória teatral. As atividades são gratuitas, seguem até abril de 2026 e integram o Projeto Ponto de Cultura Terreira da Tribo – Memória Atuante, contemplado no Edital da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul número 25 de 2024, vinculado à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, na modalidade Cultura Viva.
As inscrições devem ser realizadas por e-mail ([email protected]) e as atividades acontecem na sede da Terreira da Tribo, localizada na avenida Pátria, no bairro São Geraldo, em Porto Alegre. São oferecidas vagas limitadas por turma, com carga horária que varia entre 20 e 30 horas, distribuídas entre oficinas práticas e ciclos de reflexão teórica.
Criada em 1978, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é reconhecida como um dos grupos de teatro mais longevos em atividade no país. Ao longo de quase cinco décadas, consolidou uma trajetória marcada pela independência em relação ao mercado cultural tradicional e por uma atuação voltada à experimentação estética e à intervenção política. O grupo desenvolve três frentes principais: o teatro de rua, vinculado historicamente a manifestações populares e ações diretas no espaço urbano; o chamado teatro de vivência, em que o público participa ativamente da experiência cênica; e o trabalho artístico-pedagógico realizado tanto na sede quanto em bairros populares.

Formação artística e criação coletiva
Entre as atividades oferecidas está a oficina de música para teatro, que abre a programação entre os dias 23 e 27 de fevereiro, no turno da noite. O curso propõe a introdução a elementos de musicalização aplicados à cena, com foco em ritmo, canto e criação coletiva. A proposta inclui noções de altura, duração, intensidade e timbre, além de práticas de canto coral e exercícios de percussão corporal e instrumental.
A atividade também aborda a relação entre música, corpo e gesto, explorando o ritmo da fala e o uso da sonoridade como ferramenta dramatúrgica. Na etapa final, os participantes desenvolvem exercícios de criação de cena com música, incorporando noções básicas de notação rítmica e organização formal.
Já a oficina de criação de máscara para teatro, prevista para o início de março no turno da tarde, concentra-se na produção de adereços cênicos em papel e cartapesta. O curso percorre desde a introdução aos principais tipos de máscaras até técnicas de modelagem, texturização, pintura e acabamento. A formação inclui a elaboração de moldes positivos e negativos e a experimentação prática de construção de volumes e características de personagens.
Segundo a proposta pedagógica divulgada pela organização, a máscara é tratada não apenas como elemento estético, mas como recurso de representação capaz de alterar a presença corporal e vocal do ator em cena, ampliando possibilidades expressivas.
Preservação da memória teatral
Outra frente do projeto é o laboratório de preservação de acervo teatral, com 30 horas de duração, distribuídas em dois períodos ao longo do mês de março. A atividade tem como foco a recuperação, conservação e organização de documentos, figurinos, máscaras, adereços e cenografias que compõem o acervo da Terreira da Tribo.
O laboratório aborda conceitos de preservação de bens culturais e práticas multidisciplinares de conservação. Na etapa prática, os participantes desenvolvem técnicas de higienização, pequenos reparos, elaboração de embalagens de proteção e organização arquivística. A iniciativa busca estruturar alternativas de conservação para acervos teatrais independentes, muitas vezes mantidos sem apoio técnico especializado.
De acordo com dados do Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais, vinculado ao Ministério da Cultura, equipamentos culturais autônomos e grupos independentes enfrentam historicamente dificuldades na manutenção de seus acervos, seja por ausência de políticas continuadas, seja por limitações orçamentárias. Nesse contexto, ações de formação voltadas à preservação são apontadas por pesquisadores da área como estratégias para garantir a continuidade da memória artística.

Teatro, performance e história dos grupos
A programação inclui ainda dois ciclos de estudos realizados simultaneamente no turno da tarde, também em março. Um deles é dedicado à discussão sobre performance e memória na América Latina, propondo uma reflexão teórica e histórica sobre o papel do corpo como suporte artístico e como espaço de inscrição de experiências políticas.
A abordagem dialoga com estudos que compreendem a performance tanto como prática artística desenvolvida ao longo do século XX quanto como forma de transmissão de saberes incorporados e identidades coletivas. A proposta prevê a análise de experiências latino-americanas que articulam corpo, violência, trauma e memória, situando o debate em contextos sociais e históricos específicos.
O outro ciclo é voltado ao estudo do teatro de grupo no Brasil. A atividade percorre desde companhias do século XIX até coletivos contemporâneos, analisando projetos cênicos, formas de organização e relações de produção. O curso propõe examinar como atores e grupos se inserem no cenário cultural brasileiro e como estruturam seus processos criativos e modos de gestão.
Pesquisas acadêmicas apontam que o teatro de grupo ganhou força no Brasil especialmente a partir da segunda metade do século XX, em diálogo com movimentos políticos e sociais e com a busca por modelos coletivos de criação. Para estudiosos da área, esse formato se diferencia de estruturas empresariais tradicionais ao priorizar a continuidade de pesquisa estética e a atuação em territórios específicos.
Política cultural e financiamento
O projeto que viabiliza a programação foi selecionado em edital estadual vinculado à Política Nacional Aldir Blanc, criada para fortalecer o setor cultural em todo o país por meio de repasses regulares a estados e municípios. A política prevê investimentos plurianuais e busca estruturar ações continuadas, diferentemente de iniciativas emergenciais implementadas durante a pandemia de covid-19.
A Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul é responsável pela execução do edital que contemplou a Terreira da Tribo. O modelo de Ponto de Cultura integra a Política Nacional de Cultura Viva, voltada ao reconhecimento e apoio a iniciativas culturais comunitárias.
Especialistas em gestão cultural afirmam que a descentralização de recursos por meio de editais públicos amplia o acesso a financiamentos para grupos independentes, embora ressaltem que a sustentabilidade de longo prazo ainda dependa da regularidade dos repasses e da manutenção das políticas públicas.
Com vagas limitadas e acesso gratuito, a nova programação da Escola de Teatro Popular reafirma a atuação formativa da Terreira da Tribo, articulando criação artística, reflexão crítica e preservação de memória. As atividades começam em 23 de fevereiro e seguem ao longo dos próximos meses, consolidando o espaço como centro de formação e pesquisa teatral na capital gaúcha.
