CARNAVAL

Porto da Pedra leva à Sapucaí enredo sobre trabalhadoras do sexo e aposta em visibilidade, direitos e humanização

Proposta da escola de São Gonçalo (RJ) reúne coletivos de todo o país e leva à avenida debate sobre estigma

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Desfile da escola acontecerá neste sábado (14)
Desfile da escola acontecerá neste sábado (14) | Crédito: Divulgação/Riotur/Marcelo Martins

A Unidos do Porto da Pedra, de São Gonçalo (RJ), levará para a Marquês de Sapucaí um enredo dedicado às profissionais do sexo, com a proposta de fugir da caricatura e da vitimização, apostando na humanização, na visibilidade e na discussão pública sobre direitos, estigmas e reconhecimento social. O tema é assinado pelo carnavalesco Mauro Quintaes e contará com a participação direta de trabalhadoras sexuais organizadas, escritoras, ativistas e coletivos de diversas regiões do país. A letra do enredo é de Diego Araújo.

Quintaes explica que a escolha do tema remonta a 1997, quando assumiu a escola pela primeira vez e planejou uma trilogia considerada ousada. Naquele momento, segundo ele, tanto a Porto da Pedra quanto sua própria carreira estavam em início de trajetória, o que motivou a proposta de desenvolver três enredos, sobre ladrões, loucos e prostitutas. Os dois primeiros chegaram a ser realizados, mas o terceiro acabou sendo interrompido quando ele foi contratado pela Salgueiro

A ideia ficou adormecida até ser retomada recentemente por sugestão do presidente da agremiação, Fábio Montebello, e de seu filho, Fabr. O carnavalesco relata que a atualização do projeto foi fundamental para sua viabilidade hoje, incorporando homens e pessoas trans e dialogando com transformações sociais ocorridas nas últimas décadas.

Segundo ele, houve receio inicial quanto à recepção pública, mas a reação foi imediata. “Existia uma tensão em relação a como o enredo ia ser aceito, mas de cara, no dia que nós lançamos, foi numa segunda-feira, pelo Anselmo Góes, eu recebi uma enxurrada de mensagens positivas, principalmente dos coletivos todos que estão ligados nesse processo. Gente do Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, todo mundo ligando, todo mundo se sentindo representado.”

Quase um ano depois, afirma não ter havido represálias e destaca que a comunidade da escola recebeu bem a proposta, inclusive com adaptações em fantasias tradicionais, como a das baianas. Também ressalta que não haverá crianças no desfile e avalia que se trata de um dos enredos mais comentados do Carnaval.

Combater estigmas históricos

Para Quintaes, o foco central é combater estigmas históricos. Ele argumenta que muitas profissionais preferem o anonimato e que a intenção não é expor individualmente ninguém, mas beneficiar a categoria como um todo, ajudando a sociedade a compreender que se trata de pessoas que sustentam famílias, pagam impostos e enfrentam dilemas cotidianos semelhantes aos de outros trabalhadores.

O carnavalesco observa ainda que há divisões internas dentro da própria categoria em relação a direitos trabalhistas, mas que cabe à escola explicitar temas como segurança, saúde, respeito e reconhecimento social. Em um dos momentos mais enfáticos de sua fala, resume: “O profissional do sexo vende um serviço, não vende o corpo.”

Rainha de bateria da escola, Andrea de Andrade e a ativista Lourdes Barreto, de 83 anos  | Crédito: Arquivo pessoal

“O profissional do sexo vende um serviço, não vende o corpo”

Ao rebater leituras moralistas sobre a atividade, Quintaes sustenta que o corpo pertence à própria pessoa e que o enredo trata da questão com cuidado e respeito, valorizando sentimentos, desejos, projetos de vida e vínculos familiares. “Eu li uma matéria que dizia que na verdade a mulher vende o corpo. Não. O corpo da mulher é o corpo da mulher, é dela. A profissional do sexo vende um serviço, não vende o corpo.”

Ele reforça que o enredo busca tratar o tema com cuidado. “É um enredo que, com muito respeito, fala de corpos. Fala de pessoas que têm sentimentos, anseios, objetivos e que sustentam famílias.”

Para Quintaes, o impacto simbólico do desfile pode ultrapassar a Sapucaí. “Um enredo gera um samba de enredo e gera uma imagem. A imagem e o samba vão se perpetuar, ficam no imaginário para o resto da vida. Então a Porto da Pedra vai ser lembrada. O Mauro Quintaes vai ser lembrado pelo carnavalesco da Porto da Pedra que teve a coragem de botar a cara e fazer com que essas profissionais sejam vistas com mais respeito, mais dignidade e mais compreensão da sociedade como um todo.”

Ele acrescenta que a própria sociedade que consome esses serviços historicamente tende a marginalizar a categoria. “Essa mesma sociedade usufrui do serviço dessa classe durante séculos, milênios. Mas a comunidade gay tem mais visibilidade, mais representatividade. A comunidade das profissionais, quando eu falo das, eu repito, tanto homens, mulheres e trans, não tem uma representatividade. Então a gente está tentando plantar essa semente e modificar um pouco esse olhar que é dado a essas criaturas.”

Olhar político

Ao situar o enredo no panorama mais amplo do Carnaval carioca, Quintaes defende que a Sapucaí voltou a se consolidar como espaço político, impulsionada por uma nova geração de carnavalescos formados em escolas de arte e marcados por visões progressistas. “Durante muito tempo a Marquês de Sapucaí teve um olhar político. Depois isso foi afastado. Agora, com a chegada de novos profissionais, uma nova leva de carnavalescos jovens, vindos da Escola de Belas Artes, moldados por um olhar de esquerda, a Sapucaí volta a ser um lugar de fala.”

Para ele, a avenida se torna espaço de disputa simbólica. “Esse enredo está ocupando o seu lugar de fala, cria uma representatividade forte.”

O carnavalesco destaca ainda a presença de cerca de 40 profissionais do sexo vindas de todo o país, organizadas em coletivos, que desfilarão no último carro alegórico, dedicado à política. “Isso já vai reforçar demais. É um enredo político, de representatividade. O resultado não depende da gente, depende dos jurados, mas tenho certeza absoluta que o olhar político vai ser reforçado na última alegoria.”

Sobre a narrativa visual do desfile, Quintaes detalha que o abre-alas será um grande navio representando a chegada das chamadas “polacas” ao Rio de Janeiro e os dramas enfrentados por elas. Em seguida, surgem referências contemporâneas às boates de Copacabana e da Lapa, com a presença de dançarinos, garotos de programa, artistas pornôs como Elisa Sanches e trabalhadoras do sexo como Vivi Castelo e Monique Prada. Outro carro será dedicado a figuras históricas do movimento, como Lourdes Barreto e Gabriela Leite, além da ativista Indianarae, fundadora da Casa Nem, espaço de acolhimento à população LGBTQIA+.

Monique Prada e Mauro Quintaes | Crédito: Arquivo Pessoal

“Levantaremos a bandeira da dignidade de cabeça erguida”

Entre as participantes do desfile está a trabalhadora sexual, escritora e ativista por direitos humanos Monique Prada, que considera o enredo “corajoso e importantíssimo”. Para ela, a proposta leva à avenida “a história de uma categoria laboral invisibilizada e hostilizada, suas lutas, desejos, sonhos, a vida dessas trabalhadoras”. Segundo Prada, trata-se de “um caminho rumo à humanização desses corpos que, para a nossa sociedade, ainda são vistos como desnecessários e inoportunos”.

Ela destaca que o samba-enredo pode provocar mudanças na percepção do público. “Quando o samba traz para a avenida essa mulher que além de trabalhadora é mãe, filha, arrimo de família, o público passa a ter outro olhar para essas pessoas.” A ativista acrescenta que o enredo evidencia que se trata de um trabalho de cuidado, exercido majoritariamente por mulheres pobres. “Batendo de frente com a hipocrisia dessa sociedade que nos alimenta mas não nos quer à mesa, é um enredo de uma sensibilidade ímpar.”

Prada desfilará como destaque e inspira uma ala baseada no seu livro Putafeminista. Segundo ela, o convite surgiu no primeiro semestre de 2025, quando sua produção já era referência para a pesquisa do enredo. “Quando Mauro Quintaes me chamou para uma conversa sobre o movimento, eu entendi a seriedade da proposta e a importância de estar na avenida levando mais do que nossos corpos, mas a nossa literatura e produção intelectual.”

Título do enredo: Das mais antigas do mundo, o doce e amargo beijo da noite | Crédito: Divulgação

Ela ressalta que trabalhadoras sexuais produzem conhecimento e narrativas próprias. “As trabalhadoras sexuais produzimos saberes e conhecimento, temos acesso ao público e ao secreto nesta sociedade. A literatura produzida por trabalhadoras sexuais no Brasil e no mundo é muito rica e ampla, ainda que quase sempre tratada como uma literatura menor ou irrelevante.”

Para a ativista, a escolha de seu livro tem caráter coletivo. “Quero pensar isso não como algo individual, mas como um reconhecimento a todas nós. Existimos, pensamos, produzimos saberes e conhecimentos relevantes para a sociedade.”

Questionada sobre a mensagem que espera que o público leve após assistir ao desfile, Prada afirma que o objetivo é provocar reflexão. “Que consigam se questionar em relação ao que o senso comum diz a nosso respeito, que finalmente comecem a nos ver como mulheres e trabalhadoras, buscando um olhar menos objetificante.” Em sua avaliação, a visibilidade internacional do Carnaval fortalece a luta por direitos. “É a maior festa popular do planeta. Estaremos sendo vistas no mundo todo, levantando a bandeira da dignidade e direitos de cabeça erguida.”

A ativista relaciona ainda a escolha do enredo ao momento político e à reorganização dos movimentos. “Eu integrei o Grupo Assessor da Sociedade Civil (Gasc) da ONU Mulheres Brasil até sua dissolução no final do governo Temer. Fui a primeira trabalhadora sexual a compor aquele espaço no Brasil. Hoje temos outros desafios, inclusive o de voltar a ter representação. Neste cenário de poucos avanços e luta constante contra retrocessos, estamos bem articuladas, e a escolha do tema pela Porto da Pedra reflete isso.”

Ao final, Prada resume a expectativa em uma mensagem direta: “Que a sociedade cada vez mais consiga nos ver como pessoas iguais a todas as outras.”

Das mais antigas do mundo, o doce e amargo beijo da noite

Dama do luar e cabaré
Quem ousa enfrentar a força da mulher?
Meu corpo, encruzilhada de mistérios
Na boca, minha língua, uma navalha
Caminho para o céu e o cemitério
Na esquina, o feitiço que gargalha
A ninfa divindade do erudito
Libido que te leva ao infinito
Sou Geni que se libertou
Fiz um Porto da Pedra que você jogou

Eu vim de longe para lhe satisfazer
Meu ofício vem do vício que alimenta seu prazer
A preferida da realeza e do cais
Conheço o chão das promessas que o homem faz

Parceira no amor, transveste sedução
Musa do escritor, veneno e salvação
Também sou moça e de família
Mãe e filha, meu sustento vem da luta
Uma puta mulher, que sabe o que quer
Em casa, na cama, na rua
Dona de mim, vestida ou nua
O preço da vida quem sabe sou eu
Preserve seu corpo, meu bem, ao encontro do meu

Sou da chama a centelha na vermelha luz
Minha sina se assemelha à dor da Vera Cruz
Tenho a garra e a certeza
Sou o que eu queria
Tigresa que mata um leão por dia!

Composição: Bira / Rafael Raçudo / Oscar Bessa / Márcio Rangel / Eric Costa / Fernando Macaco / Rafael Gigante / Vinicius Ferreira / Miguelzinho / Jarrão / Pierre Porto.

Editado por: Marcelo Ferreira

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