ROMARIA DA TERRA

Povo Guarani e sua incansável luta pela terra

A desterritorialização impactou profundamente os povos indígenas no Brasil, mas, sobretudo, no Rio Grande do Sul

No audio source provided.
Povos indígenas buscam demarcação de suas terras e a preservação da natureza
Povos indígenas buscam demarcação de suas terras e a preservação da natureza | Crédito: Hellen Loures/Cimi

A desterritorialização impactou profundamente os povos indígenas no Brasil, mas, sobretudo, no Rio Grande do Sul ela se deu de modo denso, desumano e cruel desde os primeiros dias da chegada dos colonizadores (em 1500).

O Papa Paulo III, no ano de 1537, editou a Bula Papal Sublime Deus, através da qual declara que os indígenas possuíam alma, portanto não deveriam ser escravizados, ao contrário, precisariam da catequese para conhecerem o verdadeiro Deus.

O Papa, à época, buscou humanizar aqueles que eram vistos como “selvagens” e na expectativa de concretizar essa mensagem, a Igreja enviou missionários às chamadas “terras recém descobertas”.

Ao território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul, foram enviados os Jesuítas, que, ao longo das décadas, fundaram os Sete Povos das Missões. E uma das primeiras e mais importantes reduções missioneiras foi a de São Nicolau, criada em 1626. Poucos anos depois, em 1632, foi fundada a redução de São Miguel Arcanjo. Em 1687, São Miguel foi redimensionada e reconstruída no local onde hoje se encontram as ruínas históricas.

A terceira redução missioneira foi a de São Francisco de Borja, fundada em 1682. Essa redução deu origem à colônia de Santo Tomé, que mais tarde se desprendeu para fundar a cidade de São Borja, em 1687 a redução de São Francisco de Borja passou oficialmente a integrar o conjunto dos Sete Povos das Missões. Por esse motivo, é correto afirmar que São Borja é considerada a primeira das Reduções que compõem os Sete Povos.

A quarta redução missioneira foi a de São Luiz Gonzaga, fundada em 1687. Três anos depois, em 1690, foi criada a quinta redução, dedicada a São Lourenço Mártir. Esta última recebeu parte significativa da população proveniente da redução argentina de Santa Maria, a Maior, fortalecendo seu crescimento e importância na região.

A sexta redução missioneira foi a de São João Batista, fundada em 1697 pelo Padre Antônio Sepp. Homem de múltiplos talentos, Sepp se destacava por suas habilidades artísticas, que incluíam música, pintura, arquitetura e escultura. Além de artista, era também geólogo e minerador, sendo reconhecido como o pioneiro na fundição de ferro no sul do Brasil.

A sétima redução foi a de Santo Ângelo Custódio (1706), sendo a última do ciclo missioneiro. Ela acabou sendo destruída durante a Guerra Guaranítica. A atual Igreja Matriz foi construída sobre as ruínas da igreja original, seguindo o modelo arquitetônico da Igreja de São Miguel das Missões.

Em 7 de fevereiro de 1756, na luta pela defesa do território dos Sete Povos, Sepé Tiaraju foi assassinado na Sanga da Bica ─ onde atualmente é o município de São Gabriel ─ por soldados da Espanha e de Portugal. Três dias depois, em 10 de fevereiro, os exércitos invasores massacram os guerreiros guarani na Batalha de Caiboaté.

A desterritorialização, portanto, insere-se nesse contexto histórico, que se agravou e se ampliou com o avanço dos bandeirantes, dos bugreiros e com o incentivo à colonização, concretizada pelo Estado através da entrega das terras ─ aquelas que sobraram das sesmarias e dos latifúndios ─ aos imigrantes europeus.

O Rio Grande do Sul foi, historicamente, o berço de práticas genocidas: degradadores, desmatadores, caçadores, devastadores e exterminadores dos habitantes originários do Brasil. Não houve contenção a essas ações, nem pelas leis, nem pelas lutas contínuas de resistência ao esbulho e à violência sistemática. Nem mesmo com o advento da Constituição Federal de 1988 se garantiu plenamente aos povos indígenas o direito aos seus territórios.

Hoje, 400 anos após a chegada dos jesuítas, os povos sobrevivem nas sobras e restos de terras, buscando alcançar espaços onde possam viver o sonho da Terra Sem Mal. As retomadas de terras foram e continuam sendo sopros de resistência, que devolvem aos povos o vigor e o ardor para seguir construindo caminhos de vida, nas diversidades e adversidades.

No Rio Grande do Sul, nos últimos anos, ocorreram inúmeras e importantes retomadas de terras pelos povos indígenas. Essas ações se estendem por regiões que abrangem campos, serras, pampa e cidades. Nesses espaços, as famílias alimentam a esperança de viver em um ambiente de paz e tranquilidade, e reivindicam, junto ao governo federal, a demarcação de suas terras, direito garantido pela Constituição Federal, expresso no seu artigo 231.

Ao retomarem uma terra, os povos indígenas se conectam com seus antepassados, aqueles que habitaram os lugares e regiões onde a terra aguarda por suas chegadas. Esse movimento de vida é propiciado através dos sonhos e das memórias, guiando-os de volta para casa.

As retomadas de terras demonstram o contínuo caminhar dos povos na busca por seus lugares de ser e viver, conectados aos ancestrais, aos espíritos e às esperanças de reconstruir o futuro.

Retomar a terra é um ato de coragem e de compromisso com a vida e com os direitos fundamentais, tão maltratados pelas autoridades públicas. É um ato de justiça, para recompor o que foi tirado; um ato de amor pelos filhos e netos, que precisam de um lugar para gestar os sonhos; e um ato de pertencimento àqueles que foram expulsos e mortos pelos colonizadores e escravagistas.

Os povos ─ Kaingang, Xokleng, Mbya Guarani, Charrua, entre outros ─, ao retomarem seus lugares antigos, não buscam confrontar pessoas ou instituições. Eles denunciam as injustiças e reforçam a perspectiva de direito às diferenças e de viverem seguros em seus espaços sagrados, os que ainda restam em meio ao caos da destruição e da ambição.

Para o povo Guarani, a terra não é apenas um espaço físico, mas um lugar de conexão espiritual e de reencontro com o sagrado. É no território tradicional ─ Tekoa ─ que os Guarani exercem sua religiosidade, realizam seus rituais e celebram a vida em harmonia com o cosmos. A retomada da terra, portanto, não se limita a recuperar o espaço para plantar, morar ou viver: é um ato de reconexão com os ancestrais e com o próprio Ñhanderu (Deus). Sem o território, a espiritualidade Guarani se fragiliza, pois é nele que se encontram as fontes de água, as matas e os lugares de reza que mantêm viva a busca pela Terra Sem Mal. A presença no território sagrado é, assim, condição essencial para que o povo Guarani siga sendo quem é, mantendo sua identidade, sua cultura e sua relação com o Criador.

Marcia Kambeba, em suas falas e reflexões, reforça: “Retomar não é apenas voltar. É recordar-se! Na caminhada de retorno espiritual, os passos não são apenas físicos: são ecos da alma que se orientam pela memória. Na cosmovisão ancestral aprendemos que tudo está vivo e se comunica: as árvores, os rios, o vento, a palavra. Nesse tecido sagrado, a oralidade não é só narrar; ela se torna um rito. É através dela que a memória respira e que a identidade se refaz. No meu entendimento, a retomada é também um gesto de escuta: escutar o que foi silenciado, escutar quem veio antes, escutar o que ainda vive em nós. Retornar é semear o que foi interrompido e permitir que o espírito reconheça novamente o seu lugar no grande círculo da vida.”

Marcia Kambeba expressa os sentidos e sentimentos dos povos que retomam suas terras, mesmo em contextos urbanizados, nas cidades e nos campos. É o retorno ao convívio das almas que passaram, ao lugar onde os umbigos foram enterrados. É voltar a ser gente, com esperança renovada.

Atualmente, no Rio Grande do Sul, são cerca de 150 comunidades indígenas, distribuídas em diferentes regiões do estado, englobando os povos Kaingang, Mbya Guarani, Charrua e Xokleng. São mais de 40 mil pessoas vivendo em terras demarcadas, reservas, áreas de retomadas e em contextos urbanos, enfrentando diariamente os desafios da luta pelo território, pela preservação cultural e pelo acesso aos direitos fundamentais.

Essa presença expressiva demonstra que, apesar da violência histórica e da desterritorialização, os povos indígenas permanecem vivos, organizados e mobilizados, reafirmando seus direitos de existirem e de manterem seus modos próprios de vida.

São nesses e em outros movimentos de luta e resistência que devemos nos engajar, apoiar e fortalecer, criando raízes que se enterram tão profundamente que jamais poderão ser arrancadas, mesmo que cortem os galhos e troncos. Assim, onstruiremos um outro mundo possível, cheio de bons sentimentos, significados e energias, abraçando-nos pelo Bem Viver.

* Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima são membros do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, Regional Sul

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko e Marcos Corbari

|

Newsletter