Multilateralismo

Carnaval sustentável e multilateralismo em xeque: a aposta do BaianaSystem e o papel do Brasil

Especialista em meio ambiente analisa experiência inédita do trio elétrico movido a bateria do BaianaSystem em Salvador

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Trios elétricos do bloco do BaianaSystem, um dos mais tradicionais da capital baiana, agora são movidos a bateria
Trios elétricos do bloco do BaianaSystem, um dos mais tradicionais da capital baiana, agora são movidos a bateria | Crédito: baianasystem / Instagram

O bloco do BaianaSystem, um dos mais tradicionais da capital baiana, trouxe neste ano uma novidade que alia festa e sustentabilidade: trios elétricos movidos a bateria, abandonando os combustíveis fósseis, e um sistema de economia circular que integra catadores de materiais recicláveis à folia.

Para o geógrafo Wagner Ribeiro, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP, a iniciativa é um marco. “O Carnaval é um modelo de civilização que o Brasil domina e poderia influenciar vários países. Incorporar a dimensão sustentável à festa é criar um modelo que pode ser usado no mundo inteiro”, afirmou ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

Ribeiro destaca dois aspectos centrais da experiência da banda. O primeiro é a substituição do diesel, combustível fóssil altamente poluente, por baterias elétricas. “Grande parte dos trios é movida a diesel, o que polui e agrava a condição de quem está junto ao bloco. Esse avanço é muito importante.” O segundo é a inclusão social e ambiental dos catadores. “Mobilizar cooperativas e incorporar catadores avulsos, garantindo renda e participação na festa, promove inclusão social e sustentabilidade.”

Para o especialista, o modelo pode e deve ser replicado. “O mundo precisa mais de festa e menos guerra. Por que não exportar o modelo do Carnaval brasileiro?”

Para além da folia, Wagner Ribeiro analisa o recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que defende o multilateralismo como ferramenta essencial para enfrentar a crise climática. O documento aponta que acordos globais já geraram benefícios significativos para a economia, a saúde pública e a proteção dos ecossistemas, como a ampliação de unidades de conservação e o tratado de proteção da biodiversidade em águas internacionais.

“O relatório mostra que o multilateralismo consegue sim trazer resultados duradouros”, afirma Ribeiro. “Quando países se sentam à mesa e acordam metas, financiamento e transferência de tecnologias, isso se traduz em consequências positivas para a humanidade.”

No entanto, o professor alerta para o contexto adverso. “A principal potência econômica das últimas décadas, os Estados Unidos, está praticamente alienada desse debate. A postura bélica e unilateral de Washington atrasa as metas climáticas globais.”

A urgência e o papel do Brasil

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgou recentemente uma carta defendendo que os países façam avanços regionais e não esperem por um consenso global travado pelas potências. Para Ribeiro, a posição é pragmática e assertiva.

“A urgência climática exige ações em qualquer escala: do indivíduo ao município, do estado à região. Qualquer iniciativa é bem-vinda. O consenso global está sendo travado, principalmente pelos EUA, e isso desmobiliza as discussões.”

O especialista lembra que a COP30, realizada no Brasil, teve avanços importantes, como a presença inédita de povos originários e manifestações sem repressão dentro do evento. “Criticar o fórum para aprimorá-lo é inteligente. Desqualificá-lo, não. A COP mostrou que o Brasil pode trazer novas referências para o mundo.”

Ribeiro vê o momento atual como uma oportunidade histórica para o Brasil. “O Carnaval está na moda, o cinema brasileiro está levando o país para o mundo. O presidente Lula se tornou uma referência mundial. Não é por acaso que as eleições deste ano são tão importantes para o planeta.”

Ele destaca que o país reúne condições únicas para apresentar um modelo civilizatório baseado na festa, no respeito ao outro, na sustentabilidade e no uso inteligente da biodiversidade, associado às comunidades tradicionais e aos movimentos populares.

“O Brasil tem de 10 a 12% da produção científica mundial. Precisamos investir mais, mas já temos capacidade instalada. Modelos como a massificação da agroecologia pelo MST, que solta sementes com drones, mostram que as iniciativas populares locais dão certo na luta contra as mudanças climáticas.”

Para o professor, o que está em jogo em 2026 é mais do que uma eleição. “Quem ganhar terá a chance de mostrar ao mundo um modelo mais adequado às condições socioambientais do século XXI. O Brasil pode liderar essa transformação.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Monyse Ravena

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