A crise envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e o Banco Master ganhou um novo episódio nesta quinta-feira (19). A Polícia Federal encaminhou um relatório à Corte em que cita mais de dez encontros entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, e o magistrado. O documento foi encaminhado na semana passada e o conteúdo foi divulgado nesta quinta-feira (19) pela jornalista Natália Portinari, do portal Uol.
As reuniões teriam ocorrido entre 2023 e 2024 e, segundo a PF, indicariam uma relação de “amizade” entre os dois. Os recortes foram feitos a partir de conversas no WhatsApp. O magistrado teria, por exemplo, convidado Vorcaro para sua festa de aniversário.
Toffoli era o relator da investigação do Banco Master no STF e deixou o cargo em 12 de fevereiro. A decisão foi tomada após uma reunião entre os ministros da Corte. O encontro foi feito para tomar uma decisão em torno do aumento da tensão com Toffoli assim que foi divulgada a ligação do ministro com a Maridt, empresa que foi indicada com relação no caso do Master.
A decisão final foi divulgar uma carta em apoio a Toffoli assinada pelos ministros e, em troca, o magistrado deixaria a relatoria do caso.
Uma reportagem divulgada pelo site Poder360 mostra algumas falas da reunião entre os magistrados. No encontro, o ministro Luiz Fux teria dito que Vorcaro e Toffoli tinham “seis minutos de conversa”. De acordo com o relatório, os dois se encontraram em ao menos 10 ocasiões. As mensagens indicam que grande parte dos encontros ocorreu em eventos em Brasília.
Além da presença dos dois em jantares e festas, o relatório da PF indica também que foram repassados R$ 35 milhões do fundo Arleen, ligado ao Banco Master e à Maridt, empresa na qual Toffoli é sócio com seus irmãos.
O magistrado assumiu ter participação na Maridt, citada nas investigações. Ele, no entanto, negou administrar a empresa. A Maridt fez parte do grupo Tayayá Ribeirão Claro, que era dono do Resort Tayayá, no Paraná, até 21 de fevereiro de 2025. Na ocasião, a Maridt deixou a administração do local após vender as cotas que ainda tinha à PHB Holding. Antes, a Maridt já havia vendido parte das suas cotas ao Fundo Arleen, em setembro de 2021.
Segundo a nota da equipe de Toffoli, todas essas movimentações foram declaradas à Receita Federal e foram registradas “dentro de valor de mercado”. O resort era frequentado pelo ministro e por amigos. Dois irmãos de Toffoli integravam a Maridt quando o resort foi comprado.
Toffoli x Master
O envolvimento do ministro do STF com o Banco Master se dá por duas frentes. Primeiro porque o Fundo Arleen era gerido pela empresa Reag, ligada ao banco. O segundo ponto é o fato de o resort Tayayá também ter como sócio o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira investigada por lavagem de ativos.
As citações a Toffoli no caso do Banco Master foram identificadas pela PF durante a operação Compliance Zero, que investiga as fraudes financeiras da instituição liquidada pelo Banco Central em novembro.
O gabinete de Toffoli disse que essas menções são “ilações” ao nome do magistrado e disse que não há motivo para a suspeição do ministro no caso.
Depoimento de Vorcaro antecipado
A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investiga os desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) antecipou o depoimento do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para a próxima segunda-feira (23). A oitiva estava marcada para dia 26, mas a data foi alterada em meio a um aumento da pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e à ligação do ministro Dias Toffoli com o caso.
O empresário deve falar sobre o envolvimento do banco com os desvios nas aposentadorias de beneficiários. Os advogados de Vorcaro chegaram a um acordo com o presidente da CPI, Carlos Viana (Podemos-MG), e não devem entrar com um habeas corpus para permitir que ele fique em silêncio no depoimento.
Vorcaro também deve depor na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para falar sobre o caso. Ele cumpre prisão domiciliar e será levado pela Polícia Federal para depor.
O Congresso tem ao menos dois pedidos de abertura de CPI para investigar as operações do Banco Master. Esses requerimentos, no entanto, ainda esbarram em uma fila de solicitações que precisa ser avaliada pelos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e Davi Alcolumbre (União-AP).
