Cercado por controvérsias e desconfianças, o primeiro encontro do Conselho de Paz para a Faixa de Gaza ocorreu nesta quinta-feira (19) na capital dos Estados Unidos, Washington. Delegações de 47 países, incluindo 20 chefes de Estado — embora nenhum palestino e poucos aliados europeus — estiveram estar presentes na reunião que definirá o futuro da terra palestina e, segundo analistas, pode enfraquecer ainda mais a ONU
Integrantes do governo dos EUA afirmam que a reunião desta quinta-feira está centrada em Gaza, mas admitem que a instituição poderá tratar de outros focos de tensão no mundo. O presidente estadunidense, Donald Trump, critica repetidamente a ONU há anos e reduziu as contribuições estadunidenses, fundamentais para o funcionamento da organização.
Ao Brasil de Fato, o cientista político Mohammed Nadir diz que o Conselho de Paz além de ser iniciativa unilateral de Trump, “é sinônimo da derrocada da velha ordem mundial e a instalação de uma nova marcada pela marginalização da ONU”.
“Estamos avançando via a desestruturação das instituições multilaterais que foram implantadas após a Segunda Guerra Mundial. Portanto o Conselho de Paz seria um dos meios para deslegitimar a ONU e ir corroendo todo o sistema internacional baseado no multilateralismo para uma espécie de instituições privadas já que para pertencer a estas instâncias teria que colocar uma grande soma de dinheiro.”
“Estamos via a privatização das instituições de caráter global como ONU para pequenas instâncias de curta duração e que tem uma agenda camuflada de personagens narcisistas como Trump”, diz o analista do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).
À Al Jazeerra, Sultan Barakat, professor sênior de políticas públicas na Universidade Hamad Bin Khalifa, no Catar, observou que a condenação de Trump aos mecanismos globais de pacificação preexistentes ignorou o papel de Washington que historicamente dificultou a atuação da ONU.
“Ao apresentar o conselho da forma como fizeram, o que eles estão fazendo, na prática, é ignorar 80 anos de resoluções da ONU e dizer que, como Trump afirmou, o método ortodoxo não funcionou, então agora temos que fazer de outra maneira”, disse Barakat à Al Jazeera.
“Ele ignorou propositalmente que foram os Estados Unidos que prejudicaram essa ortodoxia”, afirmou. “As Nações Unidas e suas resoluções. Não há nada de errado com elas. São legais. É a implementação que sempre foi dificultada pelos Estados Unidos e seu poder de veto.”
Engodo
O analista do The Guardian Julian Borger disse que “o clube global do presidente dos EUA foi aprovado pelo Conselho de Segurança com base em uma proposta falsa e parece ter como objetivo substituir as Nações Unidas”.
“Como muitos outros que tentaram negociar com Donald Trump no passado, a ONU se viu vítima de uma clássica manobra de engodo, pensando estar comprando uma coisa e recebendo outra completamente diferente.”
“Quando votaram a favor da criação do Conselho de Paz em novembro, os demais membros do Conselho de Segurança da ONU esperavam estar vinculando Trump a um processo de paz em Gaza, mas agora parece que foram enganados e levados a apoiar um clube de influência dominado por Trump: uma versão global de seu círculo íntimo em Mar-a-Lago, com o objetivo de suplantar a própria ONU.”
Gaza para quem?
A iniciativa de Trump surgiu após o anuncio do “cessar-fogo”, mediado por EUA, Egito e Catar em outubro do ano passado, no genocídio palestino cometido por Israel em Gaza que matou mais de 75 mil palestinos. Desde a suposta trégua, Israel já matou mais de 600 palestinos nos ataques que continuam diariamente.
Washington afirma que o plano entrou agora em sua segunda fase, centrada no desarmamento do Hamas, que rejeita entregar suas armas. O grupo armado palestino em Gaza condiciona o desarmamento ao fim da ocupação israelense e garantias de que Tel Aviv cumprirá sua parte no acordo, cessando a violência.
“Gaza não é um projeto imobiliário; é parte integral da pátria palestina”, disse o dirigente do Hamas Basem Naim ao site Drop Site. No início de 2025, Trump divulgou um vídeo no qual expressou sua visão para Gaza, a qual disse que poderia se tornar a “Riviera do Oriente Médio”.
Ameças de políticos israelenses de deportar os cerca de 2 milhões de palestinos de Gaza e a inclusão de renomados financistas e líderes do mercado imobiliário alimentaram anseios de que o futuro do território pode excluir seus habitantes atuais.
O que foi discutido?
No encontro desta quinta-feira, Trump anunciou investimentos de US$ 5 bilhões (R$ 26,1 bilhões) para Gaza. A Indonésia liderará as forças de estabilização internacionais, com apoio de outros países, entre eles, a Argentina. Jacarta disse que pode disponibilizar até 8 mil soldados.
Investigação exclusiva do The Guardian afirma que o governo Trump planeja construir uma base militar para 5 mil pessoas em Gaza, ocupando uma área de mais de 140 hectares, de acordo com documentos de contratos do Conselho de Paz analisados pelo jornal britânico.
Os planos analisados pelo The Guardian preveem a construção de um posto militar em uma área de 1.400 metros por 1.100 metros, cercado por 26 torres de vigilância blindadas, um campo de tiro para armas leves, bunkers e um depósito para equipamentos militares para operações. Toda a base será cercada por arame farpado.
O local é concebido como uma base operacional militar para uma futura Força Internacional de Estabilização (FIE), planejada como uma força militar multinacional. A FIE faz parte do recém-criado Conselho de Paz, presidido por Trump – o único com poder de veto e que seguirá no cargo mesmo se sair da presidência dos EUA – e liderado, em parte, por seu genro, Jared Kushner. Quem quiser entrar no Conselho terá que pagar US$ 1 bilhão (R$ 5,37 bilhões) e os recursos serão administrados pela Casa Branca.
A direção do organismo conta ainda com empresários do ramo imobiliário, políticos e empresários. São eles: Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Steve Witkoff, enviado especial dos EUA para a paz na Faixa de Gaza, , Ajay Banga, o presidente do Banco Mundial, Marc Rowan, empresário estadunidense, e Robert Gabriel, integrante do Conselho de Segurança Nacional.
Quem esteve presente
As ausências no conselho chamam mais a atenção dos que as presenças, como a de dirigentes europeus, que tradicionalmente aderem às iniciativas dos Estados Unidos. Há a preocupação entre líderes da União Europeia que a iniciativa do magnata enfraqueça a ONU e confira a si próprio demasiado poder.
Entre os líderes presentes, aliados ideológicos de Trump, como o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif e o presidente indonésio Prabowo Subianto e o presidente argentino, Javier Milei. Os países que aceitaram o convite dos EUA são: Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Bulgária, El Salvador, Hungria, Indonésia, Jordania, Cazaquistão, Kosovo, Mongólia, Marrocos, Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Uzbequistão e Israel.
Recusaram o convite: Alemanha, Croácia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Esolváquia, Eslovênia, Espanha, Suécia e Reini Unido. O Japão, habitualmente entre os principais aliados dos Estados Unidos, ainda não decidiu se se juntará ao conselho. O país estará representado por um enviado encarregado dos assuntos de Gaza. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou o convite afirmando que o “Conselho da Paz” deveria se limitar a Gaza e prever um assento para a Palestina.
O convite do Canadá foi retirado. Outros convidados, mas que não confirmaram a participação incluem Egito, Kuwait, Vietnã, Austrália, Áustria, China, Chipre, República Tcheca, Índia, Finlândia, México, Holanda, Oman, Portugal, Rússia, Coreia do Sul, Suíça, Ucrânia, Vaticano e Tailândia.
