Enquanto o governo de Donald Trump intensifica as sanções contra Cuba, agora com um bloqueio energético que impede a chegada de petróleo e combustível à ilha, a América Latina assiste a um novo capítulo da ofensiva estadunidense contra processos progressistas na região. Para a analista internacional Amanda Harumy, a estratégia é clara: “A ideia do governo Trump, com Marco Rubio cantando no ouvido dele, é derrubar o governo cubano pelo caos, pelo trauma, pela tragédia. É asfixiar o processo socialista”, avalia no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Harumy explica que as sanções, que já duram quase 70 anos, agora se tornaram “físicas e reais”, paralisando universidades, escolas e comprometendo a vida cotidiana da população. “Cuba está fazendo esforços homéricos com energia solar e racionamento, mas a pressão é enorme.”
A analista destaca a postura corajosa da presidenta do México, Claudia Sheinbaum, que mesmo diante de ameaças de tarifas e da complexa relação com os Estados Unidos, manteve ajuda humanitária e solidariedade a Cuba. “Ela tem enfrentado os EUA frente a frente. É uma posição política muito importante, ainda mais num país com fronteira complexa e relações econômicas profundas com Washington.”
Harumy lembra que o México também avança em pautas progressistas internas, como a redução da jornada de trabalho de 48 para 40 horas semanais. “Não é uma conjuntura fácil, mas é preciso enfrentar esse ataque unilateral.”
Sobre o Brasil, a internacionalista reconhece a tradição de alinhamento com Cuba, desde a amizade de Lula com Fidel Castro, mas observa um recuo no momento atual. “O governo está pisando em ovos. É ano eleitoral, tem um encontro com Trump marcado, e a conjuntura interna é muito complicada.”
Para ela, o desafio é calcular o valor da soberania diante da chantagem estadunidense. “Cuba é uma referência política para todos os processos progressistas da América Latina, inclusive para o PT. Falta um diálogo comum, uma liderança que consiga articular os países com agendas progressistas para se posicionar perante esse ataque.”
Integração regional
Harumy faz um diagnóstico duro sobre os organismos multilaterais da região. “A Celac não conseguiu nem um posicionamento sobre a invasão da Venezuela. Não há consenso mínimo, nem mesmo sobre soberania e paz.” Ela lembra que, no início do terceiro mandato de Lula, havia uma conjuntura numericamente favorável, com governos progressistas no Chile, na Colômbia, em Honduras, e até na Argentina. “Mas não houve articulação real para reestruturar a integração. Falta o Hugo Chávez, faltam lideranças que defendam a integração como projeto político comum.”
A analista aponta que o Brasil se envolveu com outras agendas multilaterais — G20, Brics, COP30 — e talvez isso tenha “desorientado a tarefa de casa”, que era integrar a América Latina. “Mas, com tanta direita e extrema direita no continente, também não seria fácil.”
Situação atual do Peru
Sobre o Peru, Harumy analisa a crise crônica que já levou oito presidentes em dez anos. “É a conjuntura mais complexa de se estudar. O problema é estrutural: a democracia peruana permite que pressões externas derrubem um presidente com facilidade.”
Ela lembra que Pedro Castillo tentou um autogolpe ao se ver sem governabilidade. “Deu errado, ele está preso, e o levante social que o levou ao poder ficou comprometido. Existe movimento social, existe capacidade do campo progressista, mas, ao chegar ao poder, não conseguem encaminhar a governabilidade.”
Para Harumy, a instabilidade peruana também serve aos interesses de desintegração da região. “Enquanto o Peru não tiver uma Constituição que permita a expressão real dos movimentos populares, o caos continuará sendo a regra.”
Para ouvir e assistir
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