A mais recente rodada de negociações entre Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, realizada em Genebra, terminou sem anúncios concretos sobre um cessar-fogo ou avanços nas questões mais sensíveis do conflito — como as disputas territoriais no leste ucraniano e a possibilidade de adesão da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ponto considerado inegociável por Moscou. Apesar da falta de resultados objetivos, o tom das declarações oficiais surpreendeu pela ausência de ataques mútuos e vazamentos conflitantes, o que, segundo analistas, pode indicar um amadurecimento das tratativas.
Quem analisa o cenário é o correspondente do Brasil de Fato na Rússia, Serguei Monin. “A gente não viu avanços concretos, mas também não viu aquela dinâmica de vazamentos e declarações opostas que marcou outras rodadas. Todas as partes falaram em progressos, em negociações profissionais. As portas estão fechadas, e isso pode significar que as questões mais duras estão sendo discutidas com seriedade”, avalia no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Um dos pontos que ganhou destaque nos últimos dias foi a declaração do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de que poderia realizar eleições em 60 dias, caso um cessar-fogo fosse firmado. A Rússia sempre questionou a legitimidade de Zelensky, cujo mandato expirou em 2024 — algo que a Constituição ucraniana, em estado de guerra, permite, mas que Moscou usa como retórica para chamá-lo de “ilegítimo”.
Monin explica que a proposta de Zelensky não é simplesmente “eleições em 60 dias”, mas, sim, a realização de pleito condicionado a um cessar-fogo de dois meses. “A Rússia não quer dar esse tempo. Teme que a Ucrânia use a pausa para se reorganizar militarmente. É o mesmo impasse de sempre: a Ucrânia quer o cessar-fogo para parar as mortes; a Rússia quer resolver as questões territoriais primeiro.”
O correspondente lembra que Trump pressiona por eleições, e que isso interessa à Rússia, que vê em Zelensky um obstáculo. “Mas ainda é muito cedo para dizer que haverá pleito. Zelensky está sob pressão, inclusive internamente. E o histórico de cessar-fogos é trágico: nenhum deles se sustentou por mais de algumas horas.”
A retórica russa e os limites da solidariedade a Cuba
Outro tema abordado foi a declaração do presidente Vladimir Putin, que classificou como “inaceitáveis” as sanções dos Estados Unidos contra Cuba, que vêm estrangulando a ilha com um bloqueio energético sem precedentes. Putin anunciou ajuda russa com petróleo, mas Monin pondera que a postura de Moscou é mais política do que prática.
“A Rússia sempre apoiou Cuba e Venezuela no plano diplomático, na ONU, no Brics. Mas é muito difícil fazer algo mais combativo neste momento. O país está imerso na guerra da Ucrânia, precisa preservar sua economia e não quer desgastar a relação com os Estados Unidos — que, afinal, são um fiador importante nas negociações de paz.”
Ele lembra que, quando Trump posicionou navios de guerra perto da Venezuela, Putin falou em “consequências duríssimas”. “Mas, na prática, o que vimos foi retórica. A Rússia não tem forças para deslocar investimentos ou recursos militares para a América Latina agora. O foco é a Ucrânia.”
WhatsApp bloqueado, VPNs e o cotidiano russo
Por fim, Monin comentou sobre o bloqueio do WhatsApp na Rússia, uma novidade que se soma às restrições anteriores ao Instagram, Twitter e Facebook. “Não é uma novidade absoluta, é uma continuidade do controle informacional iniciado com a guerra. O governo alega que esses serviços são usados para organizar ataques, fraudes e incursões dentro do território russo.”
Na prática, a população russa dribla as restrições com VPNs, que se tornaram parte do cotidiano. “Não é proibido usar VPN, e todo mundo tem instalado. O governo até tenta promover aplicativos próprios, como o VK, mas ainda sem sucesso.”
Monin conclui que todas essas medidas, do controle das redes às negociações de paz, estão umbilicalmente ligadas à guerra. “Viver ao lado de um conflito muda tudo. A informação, a comunicação, a política externa. E a Rússia segue tentando equilibrar seus interesses estratégicos com a realidade de um confronto que já dura quatro anos”, pondera.
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