CHORUME NA FOLIA

Após montanhas de lixo no Carnaval, vereadora de Olinda pede CPI para apurar crise da coleta na cidade

Há meses, Olinda sofre com crise de sujeira na cidade, em especial nas periferias; moradores estão queimando lixo

No audio source provided.
Acúmulo de lixo nas ladeiras de Olinda foi uma das principais queixas dos foliões em 2026
Acúmulo de lixo nas ladeiras de Olinda foi uma das principais queixas dos foliões em 2026 | Crédito: Reprodução da Internet

O Carnaval passou, mas o cheiro e os vídeos das ruas de Olinda continuam circulando. Quem esteve nas ladeiras do Sítio Histórico não pode evitar os entulhos e sacos de detritos acumulados nas vias. A situação resultou em vídeos de repercussão nacional, com blocos carnavalescos circulando enquanto foliões tropeçam e caem sobre montanhas de lixo. Em busca de explicações, a vereadora olindense Eugênia Lima (PT) quer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar um alegado “colapso” na limpeza urbana da cidade.

O acúmulo de lixo nas vias públicas e esquinas das periferias é algo notado desde o fim de 2025. No bairro de Jardim Atlântico e outras periferias da cidade, na tentativa de reduzir o odor e os animais e insetos indesejados atraídos pelas impurezas, a alternativa encontrada pelos moradores foi queimar o lixo, situação já observada pela reportagem do BdF. “O acúmulo de lixo deixou de ser algo pontual e passou a ser um problema crônico de Olinda, se agravando justamente nos momentos em que o município mais precisa funcionar bem”, diz Eugênia. “Vivemos uma situação que envergonhou Olinda diante do Brasil e do mundo”, completa a vereadora.

A parlamentar petista diz ter um dossiê elaborado pela equipe técnica do mandato, reunindo dados financeiros, administrativos e ambientais sobre a coleta e tratamento de resíduos sólidos de 2022 a 2026. Segundo o mandato, a gestão do lixo no município tem sofrido com crises desde 2025, alternando períodos de suspensão total e funcionamento parcial do serviço. O motivo de tal crise, avalia Lima, seria um quadro de desequilíbrio financeiro nas contas da prefeitura.

Em agosto de 2025, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) emitiu alerta apontando uma dívida superior a R$ 2 milhões da gestão de Olinda com a empresa Central de Tratamento de Resíduos Ltda. (CTR Candeias), pendência que poderia retirar do município o direito ao recebimento de recursos do “ICMS socioambiental”. Eugênia Lima pontua que a gestão Mirella, em 2025, previu gastar R$ 35,4 milhões na coleta de lixo, mas atrasou esses pagamentos ao longo do ano, arrastando pendências para 2026. Os impactos ambientais decorrentes deste quadro incluem obstrução de canais de drenagem e contaminação de lençóis freáticos.

É com estes documentos que Eugênia espera convencer outros vereadores de Olinda a assinarem o pedido de inquérito parlamentar, que precisa de no mínimo seis assinaturas. “A CPI é o instrumento legal para investigar com responsabilidade, reunir provas e propor mudanças concretas para que a cidade não volte a enfrentar esse cenário”, diz Lima. O pedido de CPI fala de contratos de serviços de coleta, transporte e destinação final dos resíduos, a recorrência de contratos emergenciais e aditivos, os atrasos por parte do município e os impactos fiscais, ambientais e sanitários decorrentes da falta de coleta.

Eugênia Lima (PT) é a única vereadora de oposição entre os 17 parlamentares da Câmara de Olinda | Crédito: Thiago Calmon/Comunicação do Mandato de Eugênia Lima

A vereadora suspeita de crimes de responsabilidade que, se confirmados, poderiam justificar um pedido de impeachment contra a prefeita Mirella Almeida (PSD). Mas a petista esbarra no fato de ser a única vereadora de oposição à gestão e uma das duas mulheres entre os 17 parlamentares. Apesar do cenário adverso, ela conseguiu recentemente a aprovação de uma emenda para reduzir o prazo de pagamento dos cachês aos artistas do Carnaval.

Se instalada, a CPI terá prazo determinado, elegerá presidente e relator e poderá requisitar documentos, convocar depoentes, realizar buscas e produzir relatórios. Ao fim dos trabalhos, o relatório é encaminhado a órgãos de controle e fiscalização, como o Ministério Público (MPPE) e o TCE, para análise e possível responsabilização administrativa, civil ou criminal. “A população de Olinda quer respostas. Vou continuar fiscalizando, mas precisamos do instrumento certo para investigar a fundo e mudar essa realidade”, pontua Eugênia.

A culpa é da população?

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Olinda, apresentando questionamentos sobre a falta ou insuficiência da coleta de lixo no Carnaval e nos meses anteriores à festa. Até o momento, não fomos respondidos. Tão logo a gestão entre em contato, traremos a resposta para o texto.

Nesta sexta-feira (20), a gestão anunciou uma “força tarefa de coleta de lixo”. Segundo comunicado da gestão, “a Prefeitura tem ampliado o monitoramento das rotas e reforçado as equipes responsáveis pelo serviço. A regularidade da coleta domiciliar é fundamental para manter a cidade limpa, evitar o acúmulo de resíduos em vias públicas e prevenir problemas como entupimentos na rede de drenagem”, ensina.

A gestão fala ainda em “ações educativas para a população”. “A colaboração dos moradores é essencial para o sucesso das ações. Manter o lixo acondicionado adequadamente e respeitar os dias e horários da coleta contribui diretamente para a eficiência do serviço e para a preservação dos espaços públicos”.

Carnaval Sustentável

Ao celebrar o saldo de 4 milhões de foliões ao longo dos dias de folia, a Prefeitura de Olinda mencionou ter instalado 180 tonéis para descarte de lixo, a contratação de caminhões-pipa que despejaram diariamente mais de 1 milhão de litros de água e 100 litros de essência para limpar e reduzir o odor nas ruas, além do apoio (com refeições e equipamentos de proteção individual) para mais de mil catadores de materiais recicláveis. A gestão contabiliza ainda 55 toneladas de materiais destinados à reciclagem, além de 10 mil litros de óleo com destinação correta.

Editado por: Vinicius Sobreira

|

Newsletter