Enquanto o Haiti tenta encontrar um caminho em meio à mais prolongada crise política, econômica e social de sua história recente, a população segue fazendo a vida acontecer. Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a correspondente no Haiti Cha Dafol analisou os desafios do novo governo, imposto pela comunidade internacional, sem legitimidade nas urnas, e a força da sociedade haitiana para resistir e manter viva a esperança.
O novo primeiro-ministro, segundo Dafol, chega ao poder sem apoio interno real. “A primeira coisa é isso que está sendo assumido por todo mundo, todos os campos políticos internos: o atual primeiro-ministro foi colocado lá pelos Estados Unidos. Ele não tem apoio interno. Nem sequer o setor privado, que ele estaria representando, manifestou apoio”, conta.
Apesar da imposição, o governo precisará cumprir tarefas urgentes. “Ele tem algumas missões extremamente importantes: primeiro, reencontrar alguma coesão política interna para ter alguma legitimidade no poder; organizar eleições previstas para agosto de 2026, com todo o desafio que isso representa em termos de orçamento e segurança; e, obviamente, restabelecer a segurança no país, porque continuamos num contexto muito tenso nas grandes cidades e nas estradas principais.”
Os desafios, no entanto, estão profundamente interligados. “Não tem como restabelecer a segurança se não tiver eleição. Não tem como ter eleição se não tiver segurança. A economia do país está em recesso pelo sétimo ano consecutivo. Não tem como reerguer a economia se não tiver segurança também.”
Para Dafol, a dependência externa é um dos grandes dilemas do novo governo. “Infelizmente, para tudo isso, de alguma forma ele vai precisar de ajuda financeira, de ajuda logística vindo de fora. Nenhuma dessa ajuda vai chegar sem contrapartida. Os impérios dos Estados Unidos, do Canadá, da França não vão ajudar o Haiti sem contrapartida.”
A situação coloca o país num delicado equilíbrio geopolítico. “A gente tá num conflito que vai ser muito interessante do ponto de vista geopolítico: encontrar um equilíbrio nisso e ver se o Haiti consegue sair finalmente dessa crise econômica, política e social.”
Vale lembrar que o Haiti não elege um presidente ou presidenta desde 2015, e desde 2020 vive uma sucessão de governos temporários, normalmente definidos pelas forças estrangeiras e pelo mercado.
Narrativa do controle de gangues
Sobre a violência das gangues, Dafol faz uma análise contundente: “A gente não pode dizer que as gangues controlam tudo no Haiti, porque essa imagem é a que a grande mídia dá. E isso também é um discurso construído, uma narrativa construída para dizer que o Haiti precisa da intervenção estrangeira.”
Ela reconhece o impacto do crime organizado, mas relativiza o domínio. “Sim, as gangues atrapalham muito, controlam as principais estradas do país, principalmente as que chegam à capital. Dentro de Porto Príncipe, controlam alguns territórios, outros não.”
No entanto, a resistência popular também acontece. “Em Porto Príncipe, vários bairros onde as gangues tinham entrado, elas acabaram saindo. Tem uma população voltando para esses bairros, voltando para as suas casas, num nível de destruição absurdo. Esse movimento está acontecendo.”
Para Dafol, o combate às gangues precisa ir além da força militar. “Precisa combater as gangues com políticas sociais, com políticas econômicas também. É um desafio muito maior do que apenas a questão da segurança que a ONU está querendo combater apenas com armas, com Exército e com força internacional.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
