Turistas a passeio na Serra gaúcha e a comunidade local podem apreciar, em Gramado (RS), o resultado do projeto cultural Muralismo e os povos originários: do esquecimento à inclusão em Gramado. O conjunto de três murais permanentes, criado e executado pelo artista plástico Alessandro Müller, está em exposição na parede lateral do Arquivo Público João Leopoldo Lied, junto à Vila Joaquina – Território Criativo.
A iniciativa surgiu da motivação de incluir, através da arte, a presença indígena no registro cultural da cidade, ampliando o espaço de fala e valorização dos povos originários, frequentemente ausentes ou marginalizados nas narrativas dessa região, que teve o seu passado “embranquecido” pelo período das imigrações alemã e italiana. Nesse sentido, os murais se apresentam como contribuição artística para a manutenção da memória de Gramado: uma história que, por muito tempo, foi contada sobretudo pelas etnias europeias e que, agora, também reconhece e incorpora a narrativa indígena como parte essencial da constituição do território.
Mais do que uma intervenção urbana, a obra forma uma narrativa visual baseada na cultura e na ancestralidade Kaingang, inspirada na filosofia cíclica que compreende a vida como um fluxo contínuo: “Começo, Meio, Começo”. Em três painéis, a criação percorre símbolos de identidade, memória e futuro: a criança Kaingang com a “peça que falta” e a gralha-azul, associada à Mata Atlântica e à dispersão das sementes de araucária; as mãos que acolhem uma muda da árvore, refletindo cuidado, continuidade e transmissão de saberes, e o rosto em formação, cercado por peças e pássaros em movimento, transformação e reconstrução.
Em Gramado, há uma Praça das Etnias, homenageando os imigrantes europeus. “Mas não tínhamos uma obra artística em espaço público destinado aos povos originários, que aqui estavam antes da imigração. Com este projeto, preenchemos esta lacuna histórico-artística”, defendem os proponentes (LM Produções Artísticas, com realização do Ateliê das Utopias e parceria das secretarias municipais de Turismo, de Cultura e Economia Criativa e Retomada Kaingang).
Para o artista Alessandro Müller, essa é uma responsabilidade da própria linguagem artística: “O papel do artista também é o de abrir espaço para temas fundamentais da nossa história e da nossa formação como cidadãos. A arte comunica e, quando ela está na rua, no espaço público, ela se torna acessível a todos. Ela encontra as pessoas no caminho e as convida à reflexão”.
Arte urbana, educação e valorização
Ao permanecerem expostos de forma definitiva em um local público e cultural, os murais se consolidam como legado para o município, com potencial para novos desdobramentos educativos e culturais.
Como parte do compromisso com inclusão, cada mural conta com QRCode de acesso a audiodescrições imagéticas detalhadas, produzidas por equipe especializada em acessibilidade, garantindo fruição qualificada também para pessoas com deficiência visual.
Além da entrega artística permanente à cidade, ao longo do último ano, o projeto realizou atividades culturais e formativas gratuitas, articulando arte urbana, educação e valorização dos povos originários, através de: palestra sobre Patrimônio Cultural Imaterial, curso de formação para mediadores de educação patrimonial, vivência de grafismo indígena na aldeia, oficinas de grafite/muralismo em escolas públicas, exibição do documentário Os povos originários da Serra Gaúcha, palestra sobre grafite e capacitação em acessibilidade atitudinal. Um destaque especial foi a aproximação da cultura Kaingang com crianças das escolas infantis, por meio de contação de histórias, criando vínculo afetivo e formativo desde a primeira infância.
Embora os murais já estejam concluídos e disponíveis para visitação, o projeto prevê que a cerimônia formal de entrega ocorra durante o mês de março, reunindo comunidade, classe artística e convidados, marcando oficialmente a incorporação desse legado ao cotidiano cultural de Gramado.
O projeto concorreu com mais de 200 iniciativas culturais, vindas de todo o estado do Rio Grande do Sul, ficando em 7º lugar no edital SEDAC/RS da Lei Paulo Gustavo nº 11/2023 – Pesquisa, Registro e Memória e, contando assim, com recursos da Lei Complementar nº 195/2022 para sua viabilização.
