A queda de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, um dos criminosos mais procurados do mundo, representou um ponto de inflexão na luta contra o crime organizado no México, conduzida pelo governo de Claudia Sheinbaum. A demonstração de força acontece ao mesmo tempo em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça realizar uma incursão militar em território mexicano sob o argumento de combater o narcotráfico.
A operação que capturou El Mencho, morto no domingo (22) pelo exército, representa o golpe mais significativo dos últimos anos contra o Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), poderosa organização criminosa com presença em mais de 36 países. Além disso, não foi uma ação isolada: sua queda faz parte de uma série de operações que, nas últimas semanas, vêm enfraquecendo a estrutura do cartel por meio da prisão de vários de seus principais líderes em diferentes regiões do país.
Fontes do governo mexicano ouvidas pelo Brasil de Fato avaliam que as sucessivas prisões de integrantes de alto escalão da organização evidenciam uma capacidade inédita das forças federais de coordenar operações simultâneas em diversos estados — ações que seriam impensáveis há apenas alguns anos, devido à profunda infiltração do crime organizado no controle territorial, tanto por meio de governos estaduais e prefeituras quanto dentro das próprias forças de segurança.
Nas horas seguintes à queda do narcotraficante, o governo Sheinbaum enfrentou seu maior desafio quando, como forma de ameaça e retaliação, grupos ligados a El Mencho promoveram centenas de ataques a instalações militares e da Guarda Nacional, além de bloqueios coordenados em cerca de 20 estados.
Rapidamente, imagens de ataques a prédios públicos, incêndios de veículos e tentativas de ocupação de pontos estratégicos se espalharam pelo mundo por meio da imprensa.
Em um país no qual o poder do narcotráfico permeou as estruturas do Estado nas últimas décadas — durante os governos do Partido Revolucionario Institucional (PRI) e do Partido Acción Nacional (PAN) —, a capacidade operacional do governo da chamada Quarta Transformação ficou evidente na rapidez relativa com que as forças federais conseguiram restabelecer a normalidade após a onda de violência.
‘Colaboração, sim; subordinação, não‘
Ao longo do último ano, pressões dos EUA, que ameaçam operações militares “contra o narcotráfico” em território mexicano, vêm sendo rejeitadas de forma sistemática pela presidenta Claudia Sheinbaum. A presidenta afirma estar disposta a “colaborar” com os Estados Unidos em matéria de segurança, mas sem subordinar as políticas nacionais às diretrizes de Washington.
“Todas as operações são realizadas pelas Forças Federais”, destacou Sheinbaum na segunda-feira (23), após a circulação de notícias falsas de que a queda de “El Mencho” teria sido resultado de uma operação conjunta com os Estados Unidos. “Não há participação de forças norte-americanas na operação; o que existe é um amplo intercâmbio de informações, como temos dito aqui reiteradamente”, afirmou.
A declaração da presidenta não foi um mero detalhe. As negociações tensas com a Casa Branca têm sido uma constante ao longo do último ano. Além disso, em julho deste ano, o tratado de livre comércio entre México, Canadá e Estados Unidos, o Tratado entre México, Estados Unidos y Canadá (T-MEC), deverá ser renegociado, o que colocará diversos temas em pauta. No entanto, dois assuntos são especialmente sensíveis para a política de Trump: o controle do fluxo migratório e o combate ao narcotráfico.
O golpe contra o Cártel Jalisco Nueva Generación também representa uma demonstração da capacidade do governo mexicano de conduzir uma operação de alta complexidade sem a necessidade de intervenção dos EUA.
Segundo Alejandro Torres, militante do Movimiento Regeneración Nacional (Morena) e coordenador da Frente em Defesa da Soberania, desde o início do mandato de Sheinbaum, o governo da chamada Quarta Transformação vem avançando em uma estratégia voltada a enfraquecer a capacidade operacional e a estrutura financeira das organizações criminosas no território mexicano.
“As ações dos últimos dias demonstram que não existe nenhum pacto com os criminosos; pelo contrário, há uma política clara de combate ao crime organizado e de prevenção à impunidade”, afirma Torres, lembrando que “em 80% dos casos, as armas utilizadas pelo crime organizado vêm dos Estados Unidos”.
A referência à venda de armas pelos Estados Unidos tem sido uma denúncia constante tanto no governo de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) quanto no atual governo de Claudia Sheinbaum, que insistem que Washington não deve intervir em território mexicano, mas sim frear o fluxo de armamentos fornecidos às organizações criminosas.
Torres, por sua vez, denuncia que, nos últimos dias, “diversos grupos políticos de direita vinculados ao crime organizado” iniciaram campanhas de desinformação com o objetivo de ‘desacreditar’ o governo da Quarta Transformação.
“Naquela mesma noite de domingo (22 de fevereiro), 90% dos bloqueios gerados pelo próprio cartel em diferentes regiões e estados do país já haviam sido desobstruídos. Já na terça-feira (24), não foram registrados atos de violência, exceto por alguns bloqueios isolados em determinados pontos do território”, aponta.
No entanto, Torres explica que, “utilizando inteligência artificial”, diversas contas em redes sociais difundiram imagens e vídeos falsos de supostos atos de violência nas horas posteriores à operação, com o objetivo de “gerar uma percepção de caos, medo e insegurança”.
“Trata-se de uma estratégia digital voltada a desacreditar a ação governamental e criar a impressão de que existe uma guerra no México, o que é falso”, assegura.
Estratégia integral de segurança
A detenção sistemática de diversos líderes locais do Cártel Jalisco Nueva Generación, assim como a captura de seu principal líder, representa um avanço significativo na estratégia nacional de segurança do México. No entanto, o governo tem reiterado em diversas ocasiões que isso não implica um abandono do que chamam de “quatro pilares da política de segurança”.
Em sua habitual coletiva de imprensa matinal na terça-feira (24), a presidenta Claudia Sheinbaum explicou que o objetivo da operação “não foi eliminar uma pessoa”, reiterando que a morte de “El Mencho” ocorreu depois que “as forças federais foram atacadas durante a operação”. Além disso, destacou que a estratégia de segurança integral da Quarta Transformação “não mudou”, apontando a “atenção às causas” e a tolerância zero à impunidade como eixos principais para garantir a segurança do país.
Como parte desse plano, Sheinbaum anunciou a “Estratégia Integral Jovens Transformando México”, um conjunto de medidas de integração social voltadas à juventude do país. “A juventude é prioridade no Segundo Piso da Transformação, porque a mudança verdadeira se constrói no território, desde a raiz e nas comunidades”, assegurou.
O programa busca expandir o acesso de jovens a educação, esporte, cultura, saúde e emprego. Entre as ações previstas, destacam-se: a criação de 79.740 novas vagas no Ensino Médio Nacional e 330 mil novos espaços na educação superior; a implementação de um “Circuito Nacional de Festivais pela Paz”, que pretende envolver sete milhões de jovens por meio de shows e festivais de jazz, hip-hop, música tradicional, rock e outros estilos, aproximando a cultura de jovens vulneráveis em todo o país, além da modernização de campos de futebol e a realização de mais de 400 feiras de emprego.
