O discurso anual do presidente dos Estados Unidos ao Congresso é sempre um evento que atrai a atenção do mundo. Mas o pronunciamento de Donald Trump nesta semana chamou a atenção por um motivo inusitado: a duração. “Muita gente acha que ele tem problema cognitivo, não consegue concatenar duas ou três frases. E ele falou por quase duas horas”, observa o jornalista Rodrigo Durão ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Trump dedicou boa parte do discurso à economia, pintando um “cenário róseo”. “Ele disse que a inflação está em queda, a renda em alta, a economia em recuperação. São informações bastante refutadas por especialistas”, aponta Durão.
O repórter contextualiza a estratégia: “Isso funciona desde 2016, quando o plebiscito do Brexit foi uma campanha baseada em mentiras. O eleitor parece permeável à mentira. O termo ‘fake news’ foi dicionarizado nos últimos 10 anos. Funciona aqui, funciona ali, funciona em qualquer lugar.”
Mas há um problema concreto para Trump. “O estadunidense médio está sentindo no bolso a alta de preços. Ele não compra esse discurso de que a inflação está caindo. Está caro na mesa dele. E analistas e economistas vêm dizendo que boa parte dessa inflação é causada pelo tarifaço do próprio Trump.”
Em vez de apresentar um plano concreto, o presidente optou por um caminho mais fácil. “Ele resolveu culpar o governo anterior dos democratas. Isso não funciona bem”, avalia Durão.
Um momento particularmente constrangedor ocorreu quando Trump abordou o tarifaço. “O silêncio predominou no Congresso entre os próprios apoiadores. É um assunto sensível que pode prejudicá-lo em ano de eleição.”
Durão lembra que em novembro haverá eleições para renovar a Câmara e o Senado, e os níveis de aprovação de Trump estão baixos. “Ele pode perder a governabilidade. Mas a gente nunca sabe o quanto essas eleições realmente vão acontecer. Se eles entenderem que vão perder, é possível que uma tentativa de virar a mesa aconteça.”
Ele recorda que a Suprema Corte derrubou recentemente o tarifaço de Trump. “O que ele fez foi dobrar a aposta, colocou mais 15% de tarifa no mundo todo. Está continuando nessa toada de criar inimigos internacionais e encarecer o produto para o americano médio.”
Curiosamente, o Brasil foi um dos países mais beneficiados pela decisão da Suprema Corte. “O preço do produto brasileiro exportado para os EUA era 26% mais caro por causa do tarifaço. Com a decisão, caiu. Mesmo com esses 15% a mais que Trump resolveu colocar, diminuiu para 13%. O Brasil é um dos países que mais se beneficiou”, explica Durão.
Outro momento tenso do discurso foi a fala sobre imigrantes. Trump citou a comunidade somali de Minneapolis, acusando autoridades e imigrantes de envolvimento em crimes, e foi chamado de mentiroso pela deputada democrata Ilhan Omar, de origem somali.
Durão analisa a estratégia: “É um alvo fácil. Usar os imigrantes como bode expiatório é uma tática antiga, desde a Roma antiga. Funciona porque o americano médio quer respostas simples para problemas complexos. É mais fácil estimular o racismo, o preconceito, a simplicidade intelectual dessas pessoas.”
Muitos analistas acreditam que a política anti-imigratória do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega na sigla em inglês) composta de milhares de novos recrutados altamente armados, pode ser uma milícia particular de Trump caso ele resolva virar a mesa. “Se tiver uma milícia armada de algumas milhares de pessoas motivadas e armadas, a situação pode ser diferente.”
Sobre a eficácia das deportações, Durão traz um dado revelador. “Em janeiro deste ano, foram capturadas 6 mil pessoas pelo ICE. Em janeiro de 2024, no governo Biden, foram capturadas 124 mil pessoas. É muito barulho para as câmeras. É uma ferramenta eleitoral. O que importa é o espetáculo: voos fretados, pessoas tratadas como terroristas, condições degradantes.”
O Irã na mira
Sobre a escalada conta o Irã, Durão traça um paralelo com a Venezuela. “Foram meses de tensão crescente, mentiras. A acusação era que a Venezuela fornecia drogas aos Estados Unidos. Ninguém mais fala disso. Esse argumento foi tirado da mesa rápido após sequestrarem Maduro.”
Ele chama atenção para o papel de Israel. “O maior incentivador para os Estados Unidos entrarem em confronto com o Irã é Israel. O lobby é fortíssimo dentro do Congresso. E eles estão conseguindo arrastar o país para isso. Ano passado já teve os ataques de 12 dias contra Teerã. Tudo indica que vamos ter mais ataques em breve.”
Durão contextualiza a ofensiva israelense na região. “Nas últimas décadas, Israel conseguiu derrotar todos os seus inimigos regionais: Saddam Hussein, Kadafi, em 2024 foi a Síria. O Irã é o desejo, aquela figurinha carimbada que Israel deseja há muito tempo derrubar e transformar num Estado pária, falido e não ofensivo.”
No domingo, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou planos para formação de uma aliança anti-Irã, composta por países do Oriente Médio e de fora da região, incluindo Índia e Grécia, para combater o “radicalismo xiita” – leia-se: Irã.
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