Racismo ambiental

Enchentes: Não existe povo saudável em território doente

Impactos das chuvas são duradouros e é preciso efetivar políticas públicas em áreas periféricas

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Enchentes castigam o Rio de Janeiro em fevereiro
Desastres climáticos por chuvas intensas aumentaram 220% no Brasil | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Mais uma vez, o céu desabou sobre o Rio de Janeiro. E mais uma vez revimos as cenas de uma tragédia anunciada, que tem cor, classe social e endereço certo. A chuva que todo ano atinge o Rio, especialmente no verão e causa estragos sobretudo na Baixada Fluminense e na Região Serrana, não é mais só um fenômeno da natureza, mas é resultado de anos de abandono e um prenúncio do impacto do descaso no corpo e na saúde.

Estudos científicos recentes, como o publicado na Nature Water e repercutido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), mostram o que a população periférica sente a cada tempestade de verão: os impactos na saúde persistem por até 210 dias em áreas atingidas por enchentes.

Não estamos falando apenas da leptospirose, das diarreias e das febres imediatas, que já são terríveis. Estamos falando de um aumento de mais de 60% nos casos de diabetes, de problemas renais, cardiovasculares e respiratórios, todos associados a essas experiências com enchentes.

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Quando famílias perdem tudo o que conquistaram em uma vida de trabalho, o coração sofre e o corpo adoece. A insegurança alimentar bate à porta porque o pouco que se tinha foi embora na enxurrada. O estresse pós-traumático e a depressão não são “frescura”, são feridas abertas por um Estado que escolhe não investir em drenagem, em proteção de encostas e em saneamento básico.

Nós do MST defendemos uma noção de saúde pública que compreende a saúde humana como algo intrinsecamente ligado à saúde ambiental, pois acreditamos firmemente que não existe a possibilidade de um povo saudável vivendo em um território doente. Essa visão entende que o bem-estar do trabalhador e da trabalhadora depende da integridade do ecossistema que os rodeia. A destruição da natureza é, na verdade, um ataque direto e violento à vida das populações.

Quando o solo é impermeabilizado pelo concreto desordenado e os rios são sufocados pelo descaso e pela contaminação, as consequências se manifestam no corpo e na mente de quem vive na periferia e no campo. A crise climática que enfrentamos hoje não é um evento isolado ou natural, mas um processo acelerado pelo avanço predatório do agronegócio e pela lógica cega do capital financeiro, que priorizam o lucro em detrimento da sustentabilidade básica da vida.

Enquanto esses setores não forem freados e enquanto a terra for tratada apenas como uma mercadoria a ser exaurida, a classe trabalhadora continuará sendo a principal vítima de um sistema que adoece o planeta e cobra um preço alto demais, sacrificando a existência e o futuro daqueles que produzem a riqueza real do país.

Desde 2020, o Brasil registrou um aumento de mais de 220% nos desastres climáticos por chuvas intensas em relação à década de 1990. O Rio de Janeiro precisa acordar para essa realidade com orçamento e execução. Planejamento salva vidas e prevenção custa muito menos que reconstrução.

Precisamos de drenagem urbana real e limpeza permanente de canais e rios, sem os paliativos que costumam aparecer às vésperas de eleição. É urgente garantir moradia digna para retirar as famílias das áreas de risco.

Também é indispensável um investimento massivo no SUS nas periferias, capaz de dar conta das doenças crônicas e dos sofrimentos mentais que se agravam no rastro das cheias. A soberania alimentar deve ser tratada como prioridade, com o fortalecimento das redes de abastecimento e das cozinhas solidárias que se tornam o primeiro socorro de quem perde o fogão, os mantimentos e a própria referência de casa.

A tragédia climática não é uma fatalidade do destino; é resultado de escolhas políticas de quem governa para poucos.

*Marina do MST é deputada estadual pelo PT do Rio de Janeiro.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

***Artigo publicado originalmente na edição 382 do jornal Brasil de Fato RJ.

Editado por: Clívia Mesquita

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