Opinião

Depois da festa: a cidade que fica pós-carnaval

A cidade que pulsa durante quatro dias não pode voltar à inércia estrutural na quarta-feira de cinzas

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Foliões lotam a cidade no carnaval e pessoas levantam bandeirão pedindo Tarifa Zero em festival. | Crédito: PBH divulgação/Tarifa Zero divulgação

O Carnaval de Belo Horizonte consolidou-se como um dos maiores do país. Milhões nas ruas, centenas de blocos, impacto econômico relevante, turismo aquecido, comércio em movimento. A festa é expressão cultural legítima e, ao mesmo tempo, vetor econômico poderoso.

Mas toda festa pública deixa rastros. E é no dia seguinte que se revela o modelo de cidade que está sendo construído.

Há uma disputa silenciosa sobre o significado da festa

O debate não é sobre ser a favor ou contra o Carnaval. Trata-se de compreender se o poder público enxerga a cultura como política de desenvolvimento permanente ou apenas como evento sazonal. A cidade que pulsa durante quatro dias não pode voltar à inércia estrutural na quarta-feira de cinzas.

Belo Horizonte demonstrou potência cultural, organização popular e capacidade de mobilização. O que permanece é a pergunta sobre planejamento urbano, investimento contínuo e política cultural estruturada. O impacto econômico do Carnaval é real, mas ele não pode ser isolado de um projeto de cidade que garanta mobilidade, infraestrutura, ordenamento e acesso democrático ao espaço público.


Há uma disputa silenciosa sobre o significado da festa. Ela pode ser tratada como vitrine momentânea ou como parte de um processo mais amplo de fortalecimento da economia criativa, da ocupação cultural dos territórios e da democratização da cidade.


O que fica depois da festa? Fica a necessidade de política pública permanente. Fica a responsabilidade de integrar cultura, planejamento e desenvolvimento urbano. Fica o desafio de não transformar potência popular em espetáculo episódico.


A cidade que queremos não se constrói apenas nos dias de festa. Constrói-se na continuidade, na política pública consistente e na capacidade de transformar a mobilização cultural em projeto coletivo de futuro.

Edgar dos Anjos é professor de Filosofia e atua há mais de duas décadas na formulação e articulação de políticas públicas nos âmbitos municipal, estadual e federal. Escreve sobre política, território e formação cidadã.

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.nal.

Editado por: Elis Almeida

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