CONFLITO

A guerra, entre o normal e o patológico

A inadaptabilidade à norma constitui fator de grande disposição para a vida – jamais para a guerra

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Pessoas inspecionam os escombros de um prédio que desabou perto da Praça Ferdowsi, em Teerã, em 3 de março de 2026.
Pessoas inspecionam os escombros de um prédio que desabou perto da Praça Ferdowsi, em Teerã, em 3 de março de 2026. | Crédito: Atta Kenare / AFP

Reagir em face à maldição da guerra e da evidente covardia de quem a promove e se beneficia dos seus efeitos primitivos e bárbaros é sintoma do quê mesmo?

Saúde mental ou patologia explícita? 

Vamos a Georges Canguilhem.

Georges Canguilhem (1904-1995) foi especialista em História da Ciência. Procurou estudar o que significa saúde e o que significa doença.

Normalmente, acreditamos que um organismo doente é mal adaptado, incapaz de se relacionar com o seu meio. Assim, a saúde resulta em um modo de adaptação às determinações normalizadas do ambiente e da vida social.

Errado.

O filósofo nos traz uma ideia nova. Para ele, um organismo doente é aquele completamente adaptado a seu meio.

Por isso, torna-se insuportável qualquer modificação. A alegação do senso comum é a seguinte: “A guerra sempre existiu, é um dado histórico inevitável.”

A mudança vira uma catástrofe existencial. A fixidez é a norma, o indivíduo paralisado se insurge contra o movimento, contra a dinâmica da vida biológica e social.

Já o organismo saudável necessita da mudança.

A inadaptabilidade à norma constitui fator de grande disposição para a vida – jamais para a guerra.

Os caminhos inesperados emprestam motivações de viver, novos valores e flexibilidade para o desenvolvimento intelectual e físico.

Se o organismo estivesse perfeitamente adaptado ao seu meio, ele estaria em equilíbrio total e estático. Mas a vida não é estática, e o meio também não é. É justamente esse descompasso, essa falta de ajuste perfeito, que obriga o ser vivo a se superar, a inovar, a buscar novos caminhos.

A vida é, para Canguilhem, uma atividade normativa, quer dizer, que seja uma atividade que cria suas próprias regras no próprio ato de viver. Essa criação só é possível porque há um descompasso, uma tensão entre o ser vivo e o seu meio.

É nessa margem de insegurança que surgem a aventura, a luta, o aprendizado, a descoberta.

Um organismo perfeitamente adaptado não precisaria da inteligência, da invenção ou da cultura. A nossa própria humanidade, com sua imensa capacidade de criar novos valores, novas técnicas e novos mundos, é fruto dessa “precariedade” fundamental, dessa não-adaptação completa que nos obriga a transformar o mundo para nele viver.

Para Elisabeth Roudinesco (psicanalista e biógrafa de Lacan), Canguilhem foi um filósofo da rebelião conceitual: “tinha horror a qualquer abordagem do homem que visasse reduzir o espírito a uma coisa, a psique a um determinismo fisiológico, o pensamento a um reflexo, em suma, o homem a um inseto”.

Reduzir o homem a um inseto (um ser puramente instintivo, previsível, reativo) é a grande violência que Canguilhem combate.

Ao afirmar que a saúde é a capacidade de criar novas normas e de enfrentar a mudança, ele está dizendo que o homem é, por definição, um ser aberto ao possível, um ser de História e de criação, e não uma engrenagem fixa na máquina da Natureza ou da sociedade.

Vale muito a pena ler (ou reler) Canguilhem em O normal e o patológico.

A presente conjuntura de guerras, choro e ranger de dentes nos aconselha a isso.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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