Milhares de mulheres ocuparam as ruas de diversas cidades do país neste domingo (8), Dia Internacional de Luta das Mulheres, em protestos marcados pela indignação diante de uma escalada de feminicídios. Em São Paulo (SP), a manifestação em defesa de direitos levou uma multidão do vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, até a Praça Roosevelt, na Consolação, enfrentando forte chuva durante todo o trajeto.
Em cima de um trio elétrico, lideranças de movimentos populares, partidos e coletivos feministas conduziram o grupo com palavras de ordem e exigiram mudanças estruturais nas condições de vida e trabalho das mulheres. O fim da escala 6×1 foi uma das exigências centrais do protesto, que aponta a dupla e exaustiva jornada à qual a maioria das mulheres brasileiras está submetida. A descriminalização do aborto no país também foi destaque na pauta.
“Ocupar as ruas neste momento é dizer que basta de violência. É afirmar que nós, mulheres, queremos estar vivas e viver com qualidade. Por isso também lutamos pelo fim da escala 6×1, para termos tempo de estar com nossas famílias, estudar e descansar”, disse a vereadora Luna Zarattini (PT) ao Brasil de Fato. “Seguiremos marchando. Este 8 de Março é um marco na luta contra a extrema direita e contra todos os retrocessos que tentam nos impor”, completou.
As falas também foram atravessadas por homenagens às vítimas de feminicídio. Apenas em 2025, 1.518 mulheres foram assassinadas por razões de gênero no Brasil, o maior número já registrado desde o início da série histórica no país e equivalente a cerca de quatro mulheres mortas por dia. Durante o ato, nomes de vítimas foram lembrados, além de uma intervenção com pares de calçados que simbolizava cada uma das vítimas assassinadas no estado.

Vítimas da violência de gênero
Com um estandarte que destacava que sete em cada dez vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras, familiares da médica veterinária Beatriz Milano, assassinada em 2018 no estado de Mato Grosso, participaram da manifestação em São Paulo. O grupo reforçou o protesto “por todas as Bias”, que pede justiça e a preservação da vida das mulheres.
“Estamos aqui mais uma vez, como estivemos em outros anos e em outras cidades, em memória da Bia e lutando para que o que aconteceu com ela não volte a acontecer com ninguém”, afirmou Ana Lúcia Soares, tia de Beatriz.
Nas placas e cartazes, um recorte recorrente foi a cobrança por medidas contra a disseminação de discursos misóginos e de ódio nas redes sociais. Manifestantes pediam a responsabilização das plataformas digitais e a criação de mecanismos de regulação capazes de enfrentar a violência de gênero também no ambiente online.

No início do protesto, um tumulto foi registrado após um homem que carregava imagens de Donald Trump provocar mulheres que participavam do ato. A confusão durou poucos minutos, mas agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) utilizaram spray de pimenta durante a intervenção.
São Paulo concentra maior número de casos
O estado de São Paulo aparece no topo das estatísticas nacionais em números absolutos de feminicídio. Em 2025, foram registrados 270 casos no estado, o maior patamar desde o início da série histórica recente, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública.
A capital paulista também atingiu um recorde: 60 mulheres foram vítimas de feminicídio ao longo do ano, aumento em relação aos 51 casos registrados em 2024.
Os números foram lembrados durante o ato, que exigiu ações do governador Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes e, em diferentes momentos, os responsabilizou pela tragédia. De acordo com dados de empenho orçamentário disponíveis no Portal da Transparência, a gestão Tarcísio deixou de investir 70% do orçamento de 2025 destinado ao enfrentamento à violência contra a mulher no estado.

Já no âmbito municipal, o prefeito Ricardo Nunes vetou recentemente um repasse de R$ 100 mil destinado à capacitação de equipes para o atendimento de mulheres vítimas de violência em dois hospitais da zona leste da cidade. A gestão também tem recorrido de decisões judiciais que buscam garantir a realização do aborto legal no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital — unidade que concentra um dos poucos serviços desse tipo disponíveis no estado.
O Brasil de Fato solicitou posicionamento ao governo de São Paulo, que afirmou, por meio de nota, que “o enfrentamento à violência contra a mulher é prioridade do Governo de São Paulo, que, ainda em 2023, criou de forma pioneira a Secretaria de Políticas para a Mulher, pasta transversal responsável pela estruturação de uma política integrada e permanente para prevenção, proteção e resposta rápida às vítimas”. A nota diz, ainda que investe em “operações policiais para prender agressores” e cita as demais ações de proteção à mulher no estado. Não há menção, porém, aos cortes no orçamento.
A prefeitura de São Paulo afirma que “oferece uma rede ampla de apoio e assistência às mulheres vítimas de violência” e “mantém como prioridade o enfrentamento à violência contra a mulher com estratégias como os Núcleos de Prevenção à Violência (NPVs), instalados em todos os equipamentos de saúde da capital, e as 19 Equipes Especializadas de Violência (EEVs), que fazem atendimento psicossocial e psicoterapêutico de mulheres, crianças e adolescentes em maior vulnerabilidade”. A diz ainda que “há hospitais de referência no atendimento [à mulher], resultado de um planejamento estruturado, previamente definido”.
Sobre o Hospital Cachoeirinha, a Procuradoria Geral do Município informa que “o caso está em segredo de justiça e irá avaliar o recurso cabível”.
