Mulheres em luta

Ocupação de mulheres do MST em SP denuncia ‘lei da grilagem’ do governo Tarcísio e reivindica destinação de terras para a reforma agrária

Legislação aprovada em 2022 e prorrogada em 2024 é questionada no STF; julgamento não tem data marcada

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Ocupação de mulheres do MST no Pontal do Paranapanema (SP) denuncia lei que facilita regularização de terras griladas por latifundiários
Ocupação de mulheres do MST no Pontal do Paranapanema (SP) denuncia lei que facilita regularização de terras griladas por latifundiários | Crédito: Divulgação / MST

Cerca de 400 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam, na madrugada desta segunda-feira (9), a fazenda Santo Antônio, localizada no município de Presidente Epitácio, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo.

A ação denuncia a Lei Estadual nº 17.557/2022, conhecida como “lei da grilagem”, sancionada em 2022 na gestão de Rodrigo Garcia (PSDB) e prorrogada pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A medida favorece a regularização de terras públicas griladas por grandes latifundiários.

Logo após a ocupação da propriedade, o MST informou que a Polícia Militar bloqueou o acesso ao local, impedindo entradas e saídas, “numa tentativa de intimidar a luta das mulheres sem terra, deixando mulheres e crianças sem comida e água no acampamento”. Em nota, o governo informou que a Polícia Militar do Estado de São Paulo foi acionada e que, após diálogo, as manifestantes deixaram o local “de forma pacífica”.

A ocupação faz parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, realizada entre os dias 8 e 12 de março, com mobilizações em diversas regiões do país. Neste ano, as ações têm como foco denunciar a paralisação da reforma agrária e o avanço de políticas que, segundo o movimento, favorecem a concentração de terras.

Segundo o MST, a mobilização também busca pressionar o governo paulista a destinar terras públicas para assentamentos da reforma agrária. O movimento afirma que milhares de famílias permanecem há décadas acampadas no estado, aguardando a criação de novos assentamentos.

Mulheres do MST ocupam fazenda em Presidente Epitácio (SP), no Pontal do Paranapanema
Mulheres do MST ocupam fazenda em Presidente Epitácio (SP), no Pontal do Paranapanema | Crédito: Divulgação / MST

A legislação que facilita a regularização de terras devolutas por latifundiários ganhou novo escopo com a promulgação da Lei 70.207, em 15 de dezembro de 2025. O texto altera a 17.557/2022, além de outras duas.

Entre outros pontos, a medida retira a obrigatoriedade da execução de serviços de medição e demarcação pela Fundação Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo) durante a regularização de terras devolutas. Tais estudos serão dispensados caso a Fundação Itesp confira a documentação apresentada.

A área ocupada em Presidente Epitácio possui cerca de 1.675 hectares e é considerada terra devoluta, ou seja, terra pública pertencente ao Estado. Apesar disso, segundo o movimento, a fazenda continua sob exploração privada voltada à pecuária extensiva.

A propriedade está sob posse de duas fazendeiras, que, de acordo com o MST, fazem parte de um grupo entre os maiores interessados em processos de regularização fundiária no estado, somando cerca de 6.610 hectares de terras. Segundo o governo estadual, o processo administrativo de regularização fundiária do imóvel está em fase de instrução e segue a legislação vigente.

Para o movimento, a ocupação busca chamar atenção para a situação das famílias sem terra e, em especial, das mulheres que vivem em acampamentos. Muitas delas enfrentam precarização do trabalho, falta de políticas públicas e situações de violência doméstica, além de dificuldades de acesso à renda e moradia digna.

Na avaliação do MST, a reforma agrária popular representa uma possibilidade de melhoria das condições de vida dessas mulheres e de fortalecimento da produção de alimentos para o mercado interno.

Questionamento da ‘lei da grilagem’ no STF

Sancionada em 2022 pelo governador Tarcísio de Freitas, a ‘lei da grilagem’ permite a negociação das terras com descontos que podem chegar a até 90% do valor de mercado. De acordo com estimativas de parlamentares da oposição, se o preço real fosse cobrado, o valor arrecadado poderia chegar a cerca de R$ 9 bilhões. O governo de São Paulo informou que cerca de 200 mil hectares de terras foram regularizados desde 2023 com base na legislação.

A constitucionalidade da lei é questionada no Supremo Tribunal Federal (STF). A ação foi apresentada pelo Partido dos Trabalhadores e está sob relatoria da ministra Cármen Lúcia, mas ainda não há previsão para julgamento.

Segundo o MST, a área ocupada em Presidente Epitácio já foi reconhecida judicialmente como terra devoluta e, portanto, deveria ser destinada à reforma agrária. O movimento reivindica que o STF declare a inconstitucionalidade da lei paulista que viabiliza a venda da área.

Movimentos de luta pela terra estimam que, se essas terras fossem destinadas à reforma agrária, seria possível assentar mais de 33 mil famílias de trabalhadores rurais sem terra. Atualmente, o estado possui pouco mais de 20 mil famílias assentadas.

*Texto atualizado às 13h33 para inclusão de posicionamento do governo de São Paulo.

Editado por: Geisa Marques

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