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Com ‘O Agente Secreto’ no Oscar, ‘temos que aproveitar para fortalecer o cinema nacional e suas políticas públicas’, defende crítica

Isabel Wittmann celebra indicações, fala em formar público e destaca estratégia das distribuidoras internacionais

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Wagner Moura em cena no filme O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho
Wagner Moura em cena no filme O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho | Crédito: Vitrine Filmes / Divulgação

Pela primeira vez na história, o Brasil chega ao Oscar com cinco indicações: quatro para O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e uma para a fotografia de Sonhos de Trem, assinada por Adolfo Veloso. O feito acontece um ano após a vitória histórica de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e consolida um momento de projeção internacional do cinema brasileiro sem precedentes.

Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a crítica de cinema e votante do Globo de Ouro, Isabel Wittmann, analisa o significado desse momento, as estratégias de distribuição que viabilizaram a campanha, as chances reais de vitória e as disputas acirradas em categorias como filme internacional, melhor ator e melhor direção.

Wittmann começa destacando a importância simbólica do feito. “O cinema brasileiro sempre teve uma produção lindíssima, com muita visibilidade em festivais como Cannes e Berlim. Mas o Oscar é uma premiação mais hermética, voltada para o mercado estadunidense. Essa projeção internacional dá uma visibilidade muito grande para nossa produção e a gente tem que aproveitar para fortalecer o cinema internamente, tanto em termos de público quanto de políticas públicas de longo prazo.”

Um dos fatores decisivos para a chegada do Brasil ao Oscar é o investimento em distribuição internacional. Wittmann explica que O Agente Secreto foi adquirido pela distribuidora Neon ainda no Festival de Cannes, a mesma que comprou Valor Sentimental (concorrente direto na categoria de filme internacional) e Pecadores. “Isso exige um investimento financeiro e de marketing muito grande. Os filmes precisam de campanha, de presença em talk shows, de entrevistas. Wagner Moura está em todos os lugares, Kleber Mendonça também.”

Ela lembra que, antes, os filmes brasileiros não tinham essa capacidade. “Não é que não tivessem qualidade, mas as escolhas eram feitas em cima da hora e sem recursos para campanha. Hoje há uma visão estratégica, com maior antecedência e recursos alocados.”

Na categoria de melhor filme internacional, a briga está polarizada entre O Agente Secreto e Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier. “Os dois dividiram as premiações ao longo da temporada. Estão sob a mesma distribuidora, o que equilibra o investimento. Vai ser uma das grandes surpresas da noite”, afirma Wittmann.

Wittmann analisa a disputa acirrada na categoria de melhor ator. “Wagner Moura tem um personagem muito mais denso, com complexidade real. Mas a academia tem preconceito com atuações em outro idioma. É uma dificuldade histórica.”

Ela comenta a virada de Michael B. Jordan nos últimos dias, que ultrapassou Timothée Chalamet no favoritismo. “Chalamet vinha como favorito, mas suas declarações arrogantes ao longo da campanha, quase como se tivesse direito adquirido ao prêmio, geraram antipatia. Além disso, Pecadores é um filme de vampiros, e a academia tem preconceito com gêneros como horror.”

Apesar disso, Wittmann considera a atuação de Jordan como os gêmeos mais interessante que a de Chalamet. “Mas se não for para o Wagner, prefiro o Jordan. Ele tem uma carreira sólida e está ótimo no filme.”

Se muitas categorias estão indefinidas, a de melhor atriz tem uma favorita absoluta. “Jessie Buckley, por Hamnet, é praticamente invencível. Ela venceu todos os prêmios da temporada. Sua atuação é inegável, ela segura o filme inteiro. Merecidíssimo.”

Wittmann discorda do favoritismo de Paul Thomas Anderson por Uma Batalha Atrás da Outra. “Ele é um grande autor, mas esse não é o melhor filme da carreira dele. Premiá-lo agora seria remediar ausências passadas, como por Sangue Negro.”

Ela defende que a noite poderia ser de Chloe Zhao, por Hamnet, ou de Ryan Coogler, por Pecadores. “São filmes mais interessantes, mais bem construídos, com questões artísticas mais elaboradas. Penso também em Kleber Mendonça, que ficou de fora, ou em Jafar Panahi, que poderia ter sido lembrado. Paul Thomas Anderson não seria a melhor premiação da noite para direção.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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