Aliados dos Estados Unidos na Otan rejeitaram, nesta segunda-feira (16), apelo feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que a aliança militar do Ocidente ajude a reabrir o Estreito de Ormuz, bloqueado pela guerra no Oriente Médio. O porta-voz do governo alemão, Stefan Kornelius, disse que a guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã “não tem nada a ver com a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]”.
“A Otan é uma aliança para a defesa do território de seus membros e, na situação atual, não existe mandato para mobilizar a Otan“, declarou o porta-voz.
Os ministros das Relações Exteriores dos 27 países da União Europeia (UE) se reuniram nesta segunda-feira em Bruxelas para tratar de uma possível modificação da missão naval do bloco no Mar Vermelho a fim de contribuir para a reabertura de Ormuz. Mas, ao fim do encontro, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, reconheceu que “por enquanto não há disposição para mudar o mandato” da missão.
De Londres, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que trabalha com seus aliados em “um plano coletivo viável” para reabrir o estreito e aliviar o impacto econômico, embora tenha ressaltado que esse plano “não será nem jamais foi pensado como uma missão da Otan”.
Polônia, Espanha, Grécia e Suécia também se distanciaram da proposta e se mostraram reticentes em se envolver militarmente em Ormuz.
Por que não?
A analista do jornal britânico The Guardian Hannah Ellis-Petersen explicou que “para esses países enviar navios para a linha de fogo é extremamente arriscado. São países que não estão diretamente no conflito, mas se um de seus navios for atingido pelo Irã, seria considerado um ato de guerra.”
“Eles seriam então atraídos para um conflito em que não desejam entrar”, completa ela.
Trump disse ao Financial Times que a Aliança Atlântica enfrenta um futuro “muito ruim” se não ajudar a abrir o Estreito de Ormuz. Ellis-Peterson afirma que “Trump ameaça repetidamente sair da Otan, mas não se sabe o quanto isso é sério”.
“Ele costuma fazer esse tipo de ameaça para conseguir o que deseja. Nessa situação é imprevisível o que pode ser o suficiente para ele”, afirma ela.
Ao Brasil de Fato, o analista geopolítico do Observatório de Política Externa da Universidade Federal do ABC, Giorgio Romano Schuttte, pondera que “se os europeus conseguirem se manter unidos, pode ser positivo inclusive para a questão da Groenlândia, Trump perceberia que não adianta forçar a barra”.
“A Otan não deseja se envolver diretamente. Quando a Turquia foi atacada por um míssil iraniano, o artigo 5 da da aliança [pilar de defesa coletiva da Otan, estabelecendo que um ataque armado contra um membro é considerado ataque contra todos] poderia ter sido ativado, mas não o fizeram.”
O analista da UFABC considera que a situação vem beneficiando a Rússia. “Moscou sorri porque o preço do petróleo sobe, não precisam mais vender com descontos, sanções foram aliviadas. E se começa a discutir a ideia de transportar petróleo para a Europa, passando pela Ucrânia.”
“Outra consequência desse problema no Golfo é que a atenção para o que acontece na guerra com a Ucrânia atrai menos atenção”, diz Schutte.
“Além do mais, não existir indicação que o governo no Irã vai cair é muito bom para a Rússia. Moscou não pode permitir um Irã pró-Ocidente, menos até do que a Ucrânia pró-ocidental.”
Faltou entusiasmo
O trânsito de navios por Estreito de Ormuz, crucial para o comércio mundial de petróleo e gás, está paralisado pelo Irã, o que disparou os preços do petróleo bruto. O conflito começou em 28 de fevereiro com o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que, em represália, também está bombardeando instalações em países do Golfo.
No sábado, Trump lançou a ideia de uma coalizão de países para garantir a segurança nesse estreito, citando a China, entre outros. Austrália e Japão, por sua vez, já descartaram participar de uma missão naval. Os EUA dizem que podem começar a escoltar os petroleiros por volta do final de março.
O republicano criticou, nesta segunda, alguns países por sua resposta morna diante de seu apelo para colaborar na proteção do tráfego de navios petroleiros pelo estreito.
“Faz 40 anos que os protegemos e eles não querem se envolver”, declarou. “Incentivamos enfaticamente as demais nações a se juntarem a nós, e que o façam rapidamente e com grande entusiasmo”, acrescentou.
