SÓ PODIA SER MULHER

Em nova mixtape, Bione traz urgência e tempero pernambucano para ‘avalanche feminina’ no rap nacional

“Só Podia Ser Mulher” foi lançada no dia 8 de Março, com a rapper pernambucana expandindo seu espaço na cena

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Mixtape está disponívels nas prinicpais plataformas de streaming
Mixtape está disponívels nas prinicpais plataformas de streaming | Crédito: Eduarda Pavoa/Divulgação

Aos 23 anos, é comum que um artista esteja tateando uma fase de descoberta de seus caminhos, num processo de amadurecimento para estabelecer uma assinatura estética e colocar seu nome à prova na cena. Mas este não é o caso de Bione, que com esta idade já não precisa se provar, figurando como um dos nomes mais impactantes da cena contemporânea da música e da poesia em Pernambuco. A jovem rapper da zona oeste do Recife busca expandir o espaço que tem conquistado desde 2019, ano em que lançou o EP Sai da Frente, seu primeiro trabalho, ainda com 15 anos.

E Bione tem urgência na missão. É o sentimento que ela transmite na sua mais recente mixtape Só Podia Ser Mulher, lançada no último dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), colocando para fora uma série de incômodos com as barreiras estéticas e mercadológicas impostas às mulheres e a quem vem de onde ela vem. Mas Bione também celebra o que conquistou através do seu enfrentamento poético, sempre temperado com swing e ternura. O projeto é o seu terceiro trabalho lançado pelo selo pernambucano Aqualtune, composto por mulheres negras.  

“Meu trabalho com o rap surge antes dos beats. Ele vem com a escrita, com a poesia no slam. Amadureci até chegar neste lançamento, que creio ser um dos mais importantes da minha carreira”, diz Bione, em entrevista ao Brasil de Fato. A mixtape vem para demarcar o espaço da artista no cenário musical brasileiro, onde o rap vem sendo linha de frente. “É um trabalho que vem da minha maturidade e da compreensão de que o mercado e o mainstream precisam de mim”, pontua. 

Com um flow seguro e embalada por beats clássicos, bebendo nas águas do boom-bap tradicional do rap, Bione canta sobre suas andanças, se deparando com estruturas onde ter talento não é sinônimo de reconhecimento. Em Rap de Mina, a artista provoca o público e os organizadores de eventos cujos line-ups são quase totalmente masculinos – “nada contra os caras/até porque eles só são os caras que recebem dos caras reais/ que montam a estrutura para você gastar sua grana” -, reivindicando que as artistas mulheres tenham um retorno financeiro proporcional à relevância do que criam, pontuando ainda que as barreiras do mainstream são ainda maiores para as que produzem sua arte na região Nordeste. 

Bione segue as mudanças no cenário do rap nacional com o que chama de “uma avalanche de mulheres dominando a cena”. Nomes como Duquesa, Ajuliacosta, Nanda Tsunami e Slipmami conquistando espaços e ouvidos. “Eu sinto que acompanho essa revolução que acontece de forma grandiosa, com artistas no Rio e em São Paulo levando a bandeira da feminilidade e da mulheridade nas artes. E tem uma fazendo isso aqui muito bem em Pernambuco”, afirma Bione. 

Ao tratar de referências, Bione cita Karol Conká e a pernambucana Jessica Caitano como artistas a quem admira e se inspira, mas também reconhece os caminhos que seu trabalho tem aberto em Pernambuco. “Me sinto um ponto de inspiração para outras minas. Não foi fácil, por exemplo, lançar o primeiro álbum visual de rap feito por uma mulher em Pernambuco (Ego, de 2022). Isso significa que outras minas vão ter para onde olhar e acreditar no trabalho delas a partir do território onde estão”, diz a rapper. 

A capa de Só Podia Ser Mulher traz Bione na cozinha, com uma mão mexendo uma panela e outra empunhando um microfone. Seu objetivo é tensionar e subverter o lugar para onde mulheres são empurradas, colocando-a em posição de combate a partir da música para quebrar essa configuração. A mixtape é um prenúncio do seu segundo disco, batizado de Pirraia Loka, que Bione trabalha com mais calma seus conceitos. Mas a urgência de tudo aquilo que ela aponta em suas letras fez necessário nascer o projeto lançado neste mês. 

“É um projeto de urgência total. De ‘pretizar’ e acompanhar essa avalanche de mulheres no rap. Quero ser uma delas e vinda de Pernambuco que, como digo no álbum, é um beco no Brasil. Quem vive nesses becos entende bem o recado”, conclui. Só Podia Ser Mulher está disponível nas principais plataformas de streaming. 

Capa da mixtape "Só Podia Ser Mulher", de Bione
Capa da mixtape “Só Podia Ser Mulher”, de Bione | Crédito: Amokachi/Eduarda Pavoa/Divulgação
Editado por: Vinicius Sobreira

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