GEOPOLÍTICA REGIONAL

Lula destaca integração regional e amplia diálogo com governos da América Latina em encontro com presidente da Bolívia

Rodrigo Paz visita o Brasil após participar de cúpula promovida por Donald Trump com governos latinos alinhados aos EUA

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, foi recebido em Brasília com honras de Estado.
O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, foi recebido em Brasília com honras de Estado. | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu nesta segunda-feira (16) o homólogo boliviano, Rodrigo Paz, no Palácio do Planalto, em Brasília. O encontro marca a primeira visita de Estado do mandatário da Bolívia ao Brasil desde sua eleição no fim de 2025. A agenda prioritária envolve temas de infraestrutura, energia e integração de comunidades na fronteira.

Após a recepção com honras de Estado, os dois presidentes tiveram uma reunião fechada, com a participação de ministros e de empresários bolivianos que compõem a comitiva de Rodrigo Paz. Entre sorrisos e cochichos, os presidentes ofereceram declarações à imprensa. Lula mencionou a visita ao Brasil do pai do presidente boliviano, o ex-presidente Jaime Paz Zamora, em 1990, que assim como o filho, escolheu o Brasil como o destino de sua primeira visita de Estado como chefe do Executivo bolivano, e ressaltou a importância da boa relação entre os dois países. 

“Bolívia e Brasil são o ponto de encontro entre a Amazônia, o Pantanal, os Andes e o Cone Sul. Compartilhamos a oitava maior fronteira terrestre do mundo. São mais de 3.400 quilômetros que conectam os estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul aos departamentos de Pando, Beni e Santa Cruz. Essa não é apenas uma linha no mapa. É uma fronteira viva, que conecta povos, culturas e economias. É uma fronteira que se expande, com o comércio, com investimentos em infraestrutura física e energética e com a mobilidade de bolivianos e brasileiros”, afirmou Lula.

“O Brasil é hoje o segundo parceiro comercial da Bolívia”, seguiu o presidente, ressaltando, porém, a necessidade de ampliar as relações comerciais que já foram mais intensas em outro momento. “O comércio bilateral ainda está muito aquém de seu potencial. Em 2013, tínhamos um intercâmbio de 5 bilhões e meio de dólares. Ano passado, esse valor foi de apenas 2,6 bilhões. Estamos atuando para reverter esse quadro”, disse.

No discurso improvisado, Paz sugeriu que, durante o encontro que teve com o presidente brasileiro no Panamá, o presidente Lula teria feito críticas à postura dos governos anteriores na Bolívia, “como anedota”. 

“No Panamá, com o senhor presidente, eu lembro que mencionou com afeto o relacionamento bilateral com a Bolívia e, como anedota, que o senhor teria gostado de ter feito muito mais no passado, mas que as autoridades anteriores diziam, sobre alguns investimentos ou visões de desenvolvimento entre a Bolívia e o Brasil, que a Pachamama, nossa deusa da terra, não estava de acordo com esses investimentos”, contou o presidente boliviano, que seguiu: 

“Eu lembro que respondi que hoje a Pachamama na Bolívia mudou de opinião, está pensando de forma diferente e quer criar uma nova etapa de crescimento”, completou. 

Paz afirmou que 2026 é o “ano de organizar a casa na Bolívia”, e indicou que o novo governo pretende rever legislações em matéria de hidrocarbonetos, mineração e no manejo das terras raras. “A capacidade de desenvolvimento da Bolívia é extraordinária e disso depende também a boa fé e as relações geradas com nações irmãs, como é o Brasil. Esse é o início de uma nova era”, afirmou o presidente boliviano. As propostas e mudanças em curso de Paz para os hidrocarbonetos enfrentam resistência dentro do seu país.

Antes de retornar à Bolívia, nesta terça-feira (17), Rodrigo Paz vai participar de um fórum empresarial em São Paulo, com o objetivo de explorar oportunidades de comércio e investimentos.

Acordos assinados

Os presidentes oficializaram a assinatura de acordos de cooperação nas áreas de infraestrutura, interconexão elétrica, segurança e turismo.

“O acordo que assinamos hoje abre caminho para a construção de linha de transmissão entre a província de Germán Busch, no departamento de Santa Cruz, e o município de Corumbá. Vamos otimizar o uso dos recursos existentes nos dois países e levar eletricidade a regiões ainda dependentes de diesel”, destacou o presidente Lula. 

“O Brasil está disposto a cooperar com a Bolívia também com apoio à produção de biocombustíveis e outros recursos renováveis. Isso significa mais segurança energética e diversificação de fontes de fornecimento, além de possibilitar a descarbonização de nossas economias”, completou o presidente, destacando ainda o papel do Brasil na construção de um acordo tripartite com Bolívia e Paraguai para garantir o acesso fluvial dos bolivianos ao rio Paraguai, permitindo o acesso fluvial do país ao oceano Atlântico.

No setor de segurança, foi estabelecido um plano para fortalecer o combate ao crime organizado transnacional. As ações coordenadas focarão na repressão ao tráfico de pessoas, narcotráfico, lavagem de dinheiro e crimes ambientais, sobretudo na Amazônia compartilhada.

“Bolívia e Brasil são guardiões de uma das maiores riquezas ambientais do planeta, a Amazônia. A proteção da floresta, da biodiversidade e dos povos que nela vivem é nossa responsabilidade compartilhada”, ressaltou o presidente brasileiro. “Bolívia e Brasil estão unidos na preocupação com a segurança pública. O acordo que assinamos hoje renova nosso compromisso com o combate ao crime organizado nos dois lados da fronteira. Ele prevê maior coordenação para prevenir e punir o tráfico de drogas e de pessoas, contrabandos, roubos de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais”, disse Lula. 

Rodrigo Paz e Lula fazem reunião fechada com a presença de ministros de ambos governos.
Rodrigo Paz e Lula fazem reunião fechada com a presença de ministros de ambos governos. | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Também foi firmado memorando de entendimento na área do turismo, buscando promover o intercâmbio de informações e a qualificação profissional no setor para ambos os países. “Queremos que mais turistas bolivianos conheçam a nossa Copacabana carioca; e que mais brasileiros visitem a Copacabana andina, histórica cidade às margens do Lago Titicaca”, brincou o presidente.

Estratégia regional

Rodrigo Paz, que é integrante do Partido Democrata Cristão, representa uma ala da direita regional que retomou o poder no país vizinho nas últimas eleições, interrompendo um ciclo de 19 anos de governos de esquerda do Movimento ao Socialismo (MAS), que comandou o país entre 2006 e 2025.

A recepção em Brasília faz parte de uma estratégia brasileira para manter o protagonismo na região e isolar líderes mais hostis, como o argentino Javier Milei. Lula tem buscado diálogo pragmático com outros nomes da direita, como Daniel Noboa, do Equador, que esteve no Brasil em 2025, e José Raúl Mulino, do Panamá, que recebeu o presidente Lula em janeiro deste ano, em retribuição a uma visita oficial do mandatário panamenho ao Brasil no ano passado. 

O governo brasileiro também fez acenos ao chileno José Antonio Kast, com quem Lula teve um encontro amistoso durante a mesma viagem ao Panamá. Embora Lula tenha desistido de comparecer à posse de Kast, na semana passada, o governo brasileiro enviou com o chanceler Mauro Vieira um carta convidando o presidente chileno para visitar o Brasil. Segundo o Planalto, a desistência da viagem se deveu exclusivamente ao anúncio do governo de medidas para conter a alta do diesel no país, em razão da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Na declaração desta segunda, o presidente brasileiro defendeu mais de uma vez que a relação entre os dois países deve ser construída “sem amarras ideológicas. “O presidente Paz e eu concordamos que a integração regional não é um projeto ideológico. É uma necessidade histórica”, disse Lula. “O futuro da nossa região depende da nossa capacidade de cooperar. Sem amarras ideológicas, sem ódio e sem violência, construiremos uma América Latina pacífica, integrada e próspera”, completou.

Por outro lado, Lula mencionou em seu discurso o golpe contra o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, em 2019, e a tentativa de golpe contra o ex-presidente Luis Arce, em 2024, relacionando com os atos antidemocráticos de 8 de janeiro no Brasil. “Em seu discurso de posse, você defendeu uma ‘América Latina livre, democrática e em paz’. Como no Brasil em 8 de janeiro de 2023, a democracia também enfrentou desafios na Bolívia, em 2019 e 2024. Em ambos os casos, saímos fortalecidos. Nossos países provaram que instituições democráticas e a vontade popular são capazes de superar tentativas de ruptura.

Lula ainda destacou a adesão da Bolívia ao Mercosul, organismo que deve ser, segundo o presidente, um instrumento de integração do continente. 

“A adesão da Bolívia ao Mercosul representa um passo histórico. O Mercosul se fortalece e nos dá mais autonomia estratégica diante das instabilidades do mercado global. Com a Bolívia, o Mercosul deixa de ser um projeto restrito ao Cone Sul e passa a se consolidar como um verdadeiro eixo de integração continental”, afirmou. “Em um mundo cada vez mais competitivo, nenhum país da nossa região terá condições de prosperar isoladamente. Somente uma América do Sul integrada poderá ocupar o lugar que merece na economia e na política global”, pontuou o presidente Lula. 

Na mesma linha, Paz afirmou que “ideologia não alimenta” e defendeu a integração sul-americana para além de ideologias, condições políticas ou circunstâncias geopolíticas globais.

“Nós na Bolívia entendemos que, por meio da democracia, a ideologia não alimenta. O que alimenta é produzir e crescer. E nós vamos produzir e crescer com o Brasil e com todas as nações que querem entender que a Bolívia está em um novo paradigma do seu desenvolvimento e decidiu, por meio do voto e não da violência, mudar o rumo do seu destino”, disse o presidente da Bolívia.

“Fazemos parte de um dos continentes mais bonitos do mundo, de uma das regiões mais extraordinárias, a América do Sul, para além das diversidades linguísticas e também por representarmos uma região extraordinária que é indivisível, nem pelas ideologias, nem pelas condições políticas e nem por circunstâncias dos cenários políticos globais”, finalizou.

Escudo das Américas 

O encontro desta segunda em Brasília se insere em um contexto mais amplo de disputa de influência na América Latina. No último dia 7 de fevereiro, Donald Trump reuniu governos alinhados aos Estados Unidos na chamada Escudo das Américas, coalizão voltada para segurança regional e combate ao crime organizado.

Rodrigo Paz esteve no encontro, que ocorreu em Miami, no estado da Flórida. Brasil, Colômbia e México, os três países mais importantes da região, não participaram da reunião, o que pode indicar limites à influência direta do governo de Donald Trump no continente.

O Escudo das Américas consolida a visão estadunidense sobre a América Latina como uma “zona de influência” e foca no combate ao narcotráfico, gangues transnacionais e migração irregular, incentivando o uso de força militar contra cartéis. A iniciativa visa garantir o controle sobre recursos naturais e posições estratégicas em infraestrutura e energia no continente. Especialistas apontam que a coalizão funciona como uma ofensiva dos Estados Unidos para conter a influência da China na região. 

Editado por: Luís Indriunas

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