Na telenovela Dona Beja, disponível na HBO Max, a atriz Catharina Caiado dá vida a Carminha, uma jovem de origem nobre que vive uma profunda insegurança por sentir que não se encaixa nos padrões de beleza impostos pela sociedade. A pressão estética vem de dentro de casa: sua mãe, Augusta (interpretada por Kelzy Ecard), vive em constante cobrança sobre o corpo da filha, reforçando a sensação de que Carminha talvez nunca seja amada.
Em entrevista Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Catharina Caiado fala sobre a construção da personagem, os desafios de interpretar uma jovem que carrega dúvidas e fragilidades em relação ao próprio corpo, e a importância da dramaturgia para trazer à tona debates sobre opressão feminina, gordofobia e liberdade.
Caiado explica que, desde o início, sabia que Carminha habitava um núcleo onde a comédia e o drama coexistiam. “O Otávio Kelze e o Gabriel Godói são dois palhaços por natureza. Então, a gente tinha um desejo de que houvesse muita verdade nas cenas mais leves, que marcam o início da narrativa da família. Tudo isso trouxe muita alegria na construção.”
Ela destaca a honra de abordar um tema tão atual. “A gente está revisitando uma trama antiga, de outra época do Brasil, mas os espelhos seguem aí para as mulheres: serem muito insatisfeitas e estarem sempre em busca de ser algo que não são. Para mim, foi um estudo profundo, porque eu não sofri a opressão familiar. Minha trajetória com curvas veio muito pós-maternidade, quando encontrei a Carminha no teste.”
A relação de Carminha com a mãe, Augusta, é um dos pontos mais sensíveis da trama. Catharina revela que houve um trabalho cuidadoso com a atriz que interpreta a mãe. “A gente concluiu que a Augusta sofre muito. A violência é fruto de uma falta de capacidade de separar o que é dela e o que é da Carminha. Ela quer proteger a filha, mas projeta nela o que talvez ache que é um bom caminho: que case com um homem mais viril, que seja mais feminina, mais delicada, mais inserida nos padrões.”
Para a atriz, muitos desses discursos são, na verdade, para a própria Augusta. “Ela gostaria de ter feito tudo isso, trilhado outras formas de existir e se relacionar, mas não consegue. Carminha tem uma vocação para a alegria. Nem todas as meninas têm essa capacidade de encontrar o amor e construir diante de tanto sofrimento, mas ela é capaz de romper com esses ciclos porque sabe que a mãe só quer o bem dela. Só que o melhor que a mãe pode dar é muito violento, muito cruel. E ela perdoa a mãe porque vê além.”
Caiado fez questão de construir uma personagem amorosa e carismática, sem cair na armadilha da vitimização. “Eu queria muito que ela fosse amorosa, para que as meninas se identificassem e entrassem na história. Mas também não queria vitimizá-la, porque quando a gente está no papel de vítima, não consegue fazer a revolução.”
Ela acredita que a identificação do público com Carminha vem justamente daí. “Ela se permitiu sentir, se permitiu viver esse amor. Em algum nível, ela já não se identificava com essa família, especialmente com a mãe. Há um desejo dela de se liberar dessas amarras, dessas opressões.”
A atriz destaca a construção das personagens femininas na novela como um dos pontos altos. “Elas todas vão gerando uma revolução no entorno, especialmente a Beja, vivida de forma maravilhosa pela Graça Massafera. É uma entrega profunda, impossível não se identificar. Todo lugar que a Beja toca, ela vai gerando faíscas de liberdade.”
Caiado vê na relação entre Beja e Carminha um exemplo dessa transformação. “Ela vai dizendo para a Carminha: ‘Não tem nada de errado em desejar’. Acho que a admiração por essa mulher trouxe para Carminha uma permissão que talvez, sem esse aval feminino que ela não teve no olhar da mãe, não teria sido tão visceral desde o início.”
Para a atriz, a importância de levar esses debates à tela é fundamental. “A gente precisa cada vez mais falar das opressões que os personagens femininos sofrem na vida e nas novelas”, conclui.
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