A soberania tecnológica é um dos pilares da agenda prática do BRICS, voltada para a criação de um novo espaço digital onde as tecnologias desempenham um papel crucial no desenvolvimento. Dentro desse contexto, os semicondutores têm uma função central.
Chips e sua importância para BRICS
Os semicondutores são a base da civilização tecnológica moderna. Eles são indispensáveis em praticamente todos os dispositivos eletrônicos atuais. Na eletrônica, os semicondutores funcionam como o “cérebro” dos aparelhos, controlando fluxos de elétrons, amplificando sinais e otimizando os processos computacionais. Chips estão presentes em tudo – desde celulares e carros até equipamentos médicos.
“Os chips garantem o funcionamento de setores críticos, como inteligência artificial, telecomunicações 5G, carros elétricos, fintechs, sistemas de defesa, indústria aeroespacial e manufatura inteligente. Sem semicondutores, a transformação digital e a modernização da indústria seriam impossíveis”, destaca Aleksandr Titov, vice-secretário geral da Associação Internacional de Economias Digitais, em entrevista à TV BRICS.
Atualmente, sem os semicondutores, o desenvolvimento tecnológico e econômico, assim como a soberania, seriam impensáveis. Por isso, a luta pelo controle dessa tecnologia vital tem se intensificado nos últimos anos. Especialistas afirmam que, nesse processo, as parcerias estratégicas, como as formadas pelo BRICS, têm ganhado cada vez mais importância do que os países individuais.
“Nos últimos anos, os países-membros do BRICS, reconhecendo a importância dos semicondutores no desenvolvimento industrial e tecnológico, tomaram medidas práticas para garantir o acesso sustentável a esses recursos. O mais interessante desse processo é a mudança de paradigma, de dependência para uma autonomia coletiva”, afirma Abed Amiri, especialista em cooperação econômica e tecnológica no BRICS e transformação digital, em entrevista exclusiva à TV BRICS.
Potencial dos países do BRICS
A China, por exemplo, colocou a autossuficiência na indústria de semicondutores como uma prioridade nacional. Grandes investimentos estão sendo direcionados para o desenvolvimento da inteligência artificial e da indústria automotiva, ambos demandando avanços significativos em semicondutores.
“Na China, existe um grande fundo de apoio à indústria. Em 2024, teve início sua terceira fase, com um financiamento de cerca de US$ 40 bilhões [R$ 208 bilhões],” destaca Semion Teniaev, especialista em tecnologia e negócios, fundador de uma grande rede russa de conteúdo especializado.
Segundo a Nikkei, a China planeja aumentar a produção de chips modernos, incluindo chips de 7 nanômetros e, possivelmente, de 5 nanômetros, atingindo até 100 mil wafers por ano, contra os atuais 20 mil. A liderança da China na tecnologia de 7 nm, de acordo com especialistas, é extremamente significativa, pois essa tecnologia permite a miniaturização dos transistores, aumentando a eficiência e o desempenho dos chips.
A China é vista como líder incontestável, com previsão de alcançar 70% de autossuficiência em chips até 2030.
A Índia, por sua vez, também é um parceiro estratégico importante no setor tecnológico, segundo Aleksandr Titov. O país oferece cerca de 20% dos recursos humanos mundiais para design de semicondutores e investe atualmente US$ 10 bilhões (mais de R$ 52 bilhões) na iniciativa governamental India Semiconductor Mission (ISM), lançada em 2021, para criar um ecossistema próprio de produção de semicondutores, displays e desenvolvimento de design de chips.
A Malásia, país parceiro do BRICS, é uma potência consolidada na indústria de semicondutores, respondendo por 13% da produção global de montagem, teste e embalagem de chips. O país ocupa ainda o 6º lugar no mundo em exportação de semicondutores. A Malásia possui grandes fábricas de microchips que produzem uma ampla gama de produtos, incluindo processadores para computadores e dispositivos móveis, chips gráficos, chips de memória e outros componentes. O país também está desenvolvendo ativamente suas próprias competências tecnológicas, como a produção de chips de LED e outros componentes semicondutores.
Em 2024, o governo da Malásia anunciou um investimento de pelo menos US$ 5,3 bilhões (aproximadamente R$ 27 bilhões) e o treinamento de 60 mil engenheiros para a implementação da Estratégia Nacional de Fabricação de Semicondutores. O objetivo é melhorar a infraestrutura existente, desenvolver uma cadeia de suprimentos avançada de chips e atrair clientes globais.
A Rússia, com sua experiência em produção de chips de 28 nanômetros, também desempenha um papel relevante. Embora os processos de 28 nm pareçam antiquados em comparação com as tecnologias de 3 e 2 nm, eles continuam sendo amplamente utilizados na eletrônica automotiva, telecomunicações e sistemas industriais. Assim, devido ao equilíbrio entre alto desempenho e baixo consumo de energia, o processo de 28 nm é confiável e procurado na eletrônica moderna, sem o qual o mundo enfrentaria uma escassez ainda maior de chips.
O Brasil está investindo no desenvolvimento de sua própria indústria de semicondutores, com a reabertura da única fábrica de chips do país. Além disso, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil está trabalhando na extração de metais raros essenciais para a produção de semicondutores, sendo o segundo maior detentor de reservas dessas substâncias, atrás apenas da China.
Cooperação do BRICS na indústria de semicondutores
Em 2025, o Brasil e a Malásia anunciaram a criação de uma empresa conjunta para a produção de chips. A afirmação foi feita pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação brasileira, Luciana Santos, em entrevista ao Brasil de Fato, parceiro da TV BRICS. A empresa será especializada na fabricação de microchips para carros elétricos e equipamentos relacionados à transição energética. A parceria promete ser promissora, considerando o expertise da Malásia e os recursos do Brasil.
Os parceiros estratégicos estão ganhando cada vez mais importância, afirma Aleksandr Titov. Ele acredita que os mecanismos de colaboração entre os países do BRICS podem apoiar o financiamento da indústria. Além disso, o grupo declarou abertamente que está apostando no desenvolvimento de soluções próprias de infraestrutura.
Por exemplo, o Novo Banco de Desenvolvimento lançou o Digital Sovereignty Fund (Fundo de Soberania Digital) no valor de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 26 bilhões), destinado ao apoio de data centers, desenvolvimento de infraestrutura de borda e, especialmente, à produção de semicondutores dentro dos países do grupo, conforme relatado pela IOL. Esse movimento, segundo os especialistas, demonstra a determinação dos países-membros em reduzir a dependência dos mercados tradicionais e criar uma rede de fornecimento estável dentro da associação, onde já existem diálogos conjuntos, iniciativas e, principalmente, potenciais complementares.
“O que distingue a posição do BRICS é a presença de potenciais complementares entre seus membros. Por um lado, a China, com sua liderança na tecnologia de 7 nm, é o motor propulsor desse movimento. Por outro lado, a Índia, com seus investimentos de US$ 10 bilhões [R$ 52 bilhões], a Rússia, com sua experiência em produção de 28 nanômetros, e o Brasil, com as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, formam as peças finais dessa cadeia”, afirma Abed Amiri, especialista em cooperação econômica e tecnológica no BRICS, transformação digital e uso de IA nos negócios.
Desafios e consequências
Apesar dos recursos e potenciais, os países do BRICS enfrentam desafios significativos na conquista da tecnologia de semicondutores, com destaque para o bloqueio ao acesso aos equipamentos litográficos avançados. Esses equipamentos são essenciais para a fabricação de chips de última geração. Sua principal função é criar microdesenhos na superfície de uma placa de silício, que posteriormente se transformam em transistores. A produção de chips avançados só é possível com litógrafos, que estão sob o controle de países como Países Baixos e Japão.
Além disso, há dificuldades no acesso a software especializado, o que desacelera o desenvolvimento de chips pelos países do BRICS, assim como limita o progresso das tecnologias devido à alta demanda de capital e dependência tecnológica.
Caminhos para superar desafios
Para superar as limitações tecnológicas, os especialistas recomendam uma colaboração coletiva e investimentos conjuntos em infraestrutura de semicondutores, algo que está sendo feito ativamente.
“Embora o BRICS enfrente limitações geopolíticas, financeiras e tecnológicas, o grupo cada vez mais aplica políticas industriais, estratégias de diversificação e parcerias internacionais para garantir o acesso a semicondutores e fortalecer a soberania econômica”, conclui Aleksandr Titov.
O Digital Sovereignty Fund, com um capital de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 26 bilhões), é o primeiro passo para consolidar os esforços, mas os especialistas destacam a necessidade de expandir e intensificar as iniciativas conjuntas. As oportunidades complementares entre os países do BRICS podem ser a chave para criar uma cadeia de suprimentos independente, com a contribuição de cada país: a China no setor de produção avançada, a Índia no design, a Rússia em aplicações estratégicas e o Brasil no fornecimento de matéria-prima.
“O futuro das tecnologias globais será definido pela competição e cooperação entre ecossistemas paralelos, não pela monopolização de um único polo. Os países do BRICS, ao investir em suas forças e coordenar esforços, podem desempenhar um papel crucial na criação dessa nova ordem”, conclui Abed Amiri.
