OUTRA GUERRA

Afeganistão acusa Paquistão de matar 400 em bombardeio de hospital em Cabul

Hostilidades entre vizinhos asiáticos foram retomadas no mês passado

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Afegãos aguardam do lado de fora em busca de notícias de seus parentes no local após ataques aéreos paquistaneses atingirem o Hospital de Tratamento de Dependência Química Omid, em Cabul, em 17 de março de 2026
Afegãos aguardam do lado de fora em busca de notícias de seus parentes no local após ataques aéreos paquistaneses atingirem o Hospital de Tratamento de Dependência Química Omid, em Cabul, em 17 de março de 2026 | Crédito: Wakil KOHSAR / AFP

Mais de 400 pessoas morreram em um ataque paquistanês contra uma clínica de reabilitação para dependentes químicos na capital do Afeganistão, Cabul, afirmou nesta terça-feira (17) o governo afegão, acusação desmentida pelo Paquistão. O Exército paquistanês bombardeou a capital afegã durante a noite de segunda-feira (16). Os dois países estão em conflito há meses.

O Paquistão afirma que o país vizinho abriga combatentes do movimento dos talibãs paquistaneses (TTP) – que seriam financiados pela Índia, país rival paquistanês -, que reivindicaram atentados mortais em seu território. As autoridades afegãs e indianas negam a acusação.

O ministro paquistanês da Informação, Attaullah Tarar, afirmou que as acusações afegãs são “completamente infundadas”. Ele disse que o Exército efetuou seis ataques “precisos, deliberados e profissionais”.

Na manhã desta terça, mais de 100 pessoas tentavam desesperadamente obter notícias de seus parentes no hospital que, segundo fontes médicas, abrigava entre 2 mil e 3 mil dependentes químicos. Os bombardeios paquistaneses aconteceram durante a noite de segunda-feira (horário local), o que provocou pânico entre os moradores da cidade.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados exigiu uma investigação “rápida e independente” sobre o ataque, o mais letal no conflito dos últimos meses entre os dois países.

Conflito

Após um agravamento da crise em outubro que provocou dezenas de mortos, os confrontos entre os dois países diminuíram, mas foram retomados com intensidade em 26 de fevereiro, após uma onda de ataques paquistaneses. O Paquistão anunciou uma “guerra aberta” em 27 de fevereiro e, no mesmo dia, atacou Cabul.

Segundo a Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (UNAMA), 75 civis afegãos morreram entre 26 de fevereiro e 13 de março e mais de 115.000 famílias foram deslocadas nas províncias do leste e do sul. O Paquistão também relatou mortes entre a população civil.

“Os esforços diplomáticos dos últimos meses fracassaram e os países do Golfo estão ocupados atualmente com a sua própria guerra”, disse Michael Kugelman, especialista do centro de estudos Atlantic Council International Affairs, que não vislumbra um fim do conflito a curto prazo.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU advertiu esta semana que uma “instabilidade persistente (empurraria) milhões de pessoas a sofrer ainda mais com a fome” no Afeganistão.

Ex-aliados próximos

O Paquistão foi um dos únicos países, ao lado de Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos a reconhecer o Talibã como governo legítimo do Afeganistão quando este assumiu o poder em 1996. À época, o grupo chocou a comuidade internacional ao impor uma versão radical do islamismo, proibindo mulheres de circularem sem burkas completas e de trabalhar, por exemplo.

Por se recusar a entregar Osama Bin Laden, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, Washington declarou guerra ao grupo, invadindo o país ainda naquele ano. Combates entre o Talibã e forças estadunidenses se estenderam pelas duas décadas seguintes, até a saída dos EUA em 2021 e a retomada do poder pelo grupo.

Inicialmente, quando o Talibã retornou ao poder em 2021, analistas políticos esperavam que o Paquistão liderasse o processo de reconhecimento do governo talibã como o governo oficial do Afeganistão, melhorando as relações bilaterais que haviam se deteriorado sob os governos pró-Ocidente destes 20 anos.

Mas as relações se tornaram hostis, com o Paquistão acusando repetidamente o Talibã de permitir que grupos armados anti-Paquistão, como o Talibã paquistanês (TTP), operassem em território afegão, acusações que o Talibã nega. Além disso, a deportação de dezenas de milhares de refugiados afegãos pelo Paquistão nos últimos anos tensionou ainda mais os laços entre os dois países vizinhos.

O fator Índia

Pouco antes de declarar “guerra aberta”, o ministro da Defesa do Paquistão acusou o Talibã de tornar o Afeganistão uma “colônia da Índia”, outra potência nuclear, rival paquistanesa. Em outubro passado, ele havia dito que “a Índia quer se envolver em uma guerra de baixa intensidade com o Paquistão. Para conseguir isso, eles estão usando Cabul.”

Naquele mês, combates provocaram mais de 70 mortes dos dois lados. A Índia criticou os ataques paquistaneses, reforçando suspeitas de aliança entre Nova Déli e Cabul.

Paradoxalmente, entre 1996 e 2021, a Índia era abertamente hostil ao Talibã, a quem acusava de ser um fantoche do Paquistão. Mas com a deterioração das relações entre o Paquistão e o Talibã devido aos grupos armados que o Paquistão acusa o Afeganistão de abrigar, a Índia começou a dialogar com o Talibã.

Em 2022, a Índia enviou uma equipe de “especialistas técnicos” para administrar sua missão em Cabul e reabriu oficialmente sua embaixada na capital afegã em outubro do mesmo ano. Nova Déli também permitiu que o Talibã operasse consulados afegãos nas cidades indianas de Mumbai e Hyderabad.

Nos últimos dois anos, autoridades de Nova Déli e do Afeganistão também realizaram reuniões no exterior, em Cabul e em Nova Déli. Praveen Donthi, analista sênior do International Crisis Group, disse à Al Jazeera que “com as relações cada vez mais tensas entre o Paquistão e o Afeganistão, a lógica de ‘inimigo do meu inimigo’ está servindo como um elo entre Cabul e Nova Déli”, disse.

Ele acrescentou que, apesar de o governo indiano se opor a organizações islamitas, “a necessidade estratégica de conter o Paquistão o levou a se engajar proativamente com o Talibã”.

Índia e Paquistão são rivais com armas nucleares que se envolveram em um conflito de quatro dias em maio de 2025, após rebeldes armados matarem turistas indianos em Pahalgam, um popular ponto turístico na Caxemira administrada pela Índia, em abril do ano anterior. Nova Déli acusou o Paquistão de apoiar combatentes rebeldes, acusação que o país negou veementemente.

Editado por: Nathallia Fonseca

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