No último dia 11, Jose Antonio Kast, político da extrema direita e pinochetista assumiu a presidência do Chile sucedendo Gabriel Boric (2022-2026). Conhecido como “Bolsonaro chileno”, Kast venceu a candidata da esquerda, Jeannette Jara, trazendo o extremismo de volta ao governo do país após 35 anos. Para Daniel Jadue, membro do Partido Comunista do Chile e ex-prefeito da Comuna de Recoleta — o equivalente a um município da Grande Santiago —, a população “se cansou da esquerda morna, dos movimentos de esquerda colonizados pelo neoliberalismo” e busca alternativas para resolver seu sofrimento.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Jadue reforçou o fracasso do governo Boric e o retorno da extrema direita ao poder no Chile, analisando a crise das esquerdas latino-americanas, “colonizadas pelo neoliberalismo”, e alguns de seus desafios no próximo período. Ele também comentou seu processo jurídico e suas perspectivas de retorno à militância política.
“A política não se faz apenas dentro das instituições. A política mais relevante acontece fora delas e, portanto, estou de volta à política. Não faço parte do establishment político, mas estou ativo todos os dias, debatendo todos os dias”, comentou.
Jadue é uma das principais lideranças da esquerda chilena há cerca de uma década. Seu sucesso como prefeito de Recoleta por três mandatos, entre 2021 e 2024, o gabaritou para disputar a presidência do país em 2021, para a qual era favorito nas pesquisas. No entanto, perdeu a disputa das primárias para o agora ex-presidente Boric graças a uma estranha regra eleitoral chilena: quando um partido — ou uma coalizão — convoca eleições primárias, ela é aberta a todos os eleitores do país. Dessa forma, por temer a candidatura de Jadue, a direita chilena se mobilizou para votar em Boric, escolhendo assim um candidato contra o qual ela calculava ter mais chances de vencer a eleição e que, eventualmente, ameaçasse menos o establishment chileno — o que, infelizmente, se confirmou.
Justamente por seu sucesso político, Jadue se tornou mais um alvo da longa lista de políticos da esquerda, ou centro-esquerda, latinoamericana perseguidos pelo lawfare (o uso do judiciário como ferramenta de perseguição política). Ele não terminou seu terceiro mandato em Recoleta e passou três meses preso em regime de reclusão, e 18 meses em prisão domiciliar, que foi suspensa em 27 de fevereiro, quando ele voltou às ruas. Contra ele, pesam acusações sobre um suposto gasto estatal indevido do programa municipal “Farmácia Popular” durante a pandemia de Covid-19. Como afirmou ao Brasil de Fato, “os advogados que iniciaram o processo estão presos por corrupção judicial. Todo o Chile sabe hoje que aqueles que armaram contra mim subornaram promotores, juízes, sentenças, pagaram testemunhas. E são os mesmos”.
Antes de se tornar membro do Partido Comunista, Jadue — cujos avós imigraram da Palestina ao Chile na primeira metade do século passado — foi militante da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) por cerca de 15 anos, desde os 11 anos de idade. Iniciou na União Geral de Estudantes Palestinos (1978), que liderou entre 1987 e 1991, foi coordenador da Organização da Juventude Palestina na América Latina e Caribe e, finalmente, vice-presidente da Federação Palestina do Chile. Deixou a organização logo após a assinatura dos Acordos de Oslo em 1993 e se juntou ao PC.
O Brasil de Fato fez uma longa conversa com Jadue que será publicada em dois textos. Você confere o primeiro abaixo e, na segunda parte, tratamos da guerra dos EUA e Israel contra o Irã, de como os palestinos estão vendo mais esse conflito em sua região, e que consequências ele pode trazer para o Brics.
Brasil de Fato: Comecemos pelo Chile. Na semana passada (11), Jose Antonio Kast, político da extrema direita e pinochetista — cujo pai foi membro do Partido Nazista alemão e o irmão, Miguel Kast, foi uma das figuras centrais do governo Pinochet —, assumiu a presidência. Isso acontece em um momento em que parece haver uma nova onda de eleições de políticos de direita naAmérica Latina. Como você avalia esse momento?
Daniel Jadue: Olha, antes da extrema direita chegar ao poder no Chile, quando um governo terminava e não conseguia passar a faixa presidencial para alguém do mesmo setor, isso era considerado um fracasso. Portanto, é preciso ter muita consciência de que a extrema direita chegou ao poder no Chile devido ao fracasso daquele que deveria ser o governo mais à esquerda desde Allende. E, consequentemente, não é que o continente ou seu povo estejam se movendo para a direita. O povo do continente se cansou da esquerda morna, cansou-se dos movimentos de esquerda colonizados pelo neoliberalismo. O que eles querem são soluções para seus problemas e seu sofrimento. E precisamos reconhecer que, nos últimos 40 anos, a esquerda moderada governou grande parte do continente e não resolveu nada. Então, alguém poderia perguntar: por que eles deveriam continuar conosco? Essa é a pergunta que precisamos nos fazer. Venho de uma experiência diferente, micro, absolutamente insignificante: Recoleta. Depois de 12 anos no governo, continuaram votando em nós, e até conseguimos 65% dos votos para o Partido Comunista na segunda reeleição. E por que não se cansaram de nós? Porque não nos ajoelhamos, não nos resignamos, não apenas suportamos a dor, mas nos dedicamos a derrubar o muro e transformar as instituições.
Então, essa história toda de que “o continente está se movendo para a direita” é a desculpa que a esquerda usa quando não faz seu trabalho. É a desculpa que a esquerda usa quando desaparece dos territórios. É a desculpa que a esquerda usa quando vai ocupar ministérios, congressos, palácios governamentais e começa a viver da maneira que costumava criticar. Não é que as pessoas estão se voltando para a direita; as pessoas estão rejeitando aqueles que as traem. E, portanto, como não há para onde ir, elas não têm escolha a não ser se voltar para aqueles que não estão no poder. E é por isso que isso se torna a política do pêndulo, certo?
Eu, por exemplo, poderia dizer — ninguém poderia duvidar disso dentro dos limites da democracia liberal burguesa — que Lula fez um excelente trabalho como presidente. Então eu não entendo, deveríamos perguntar, por que eles têm tanto medo de que Bolsonaro possa ganhar? Vamos ver, o que nos falta então? A luta por significado na base, ir às ruas para convencer, trabalhar de forma organizada com o povo, como quando desenvolvemos o orçamento participativo com o PT e éramos uma força a ser reconhecida nos governos locais. Mas parece que, depois que chegamos ao poder no governo federal, nos esquecemos das organizações sociais e dos governos locais e começamos a fazer alianças para sobreviver às quotas de poder que a democracia nos obriga a ter. Porque não se entende, né? Não tenho dúvida nenhuma de que lado estou, né? Quero dizer, nenhuma mesmo no Brasil. Mas o que não consigo entender é por que, com tudo o que foi feito, ainda existe sequer um resquício de dúvida de que deveríamos vencer com folga no primeiro turno.
Então, a pergunta que precisamos nos fazer é: por que, nessas circunstâncias, com o menor índice de desemprego da história, o menor índice de fome da história, o maior investimento da história e com tudo o que foi conquistado, temos essa incerteza? Precisamos nos fazer essa pergunta. E só existe uma resposta para isso. A distância entre nós e as pessoas é brutal. Sem dúvida. Como perdemos a batalha contra a igreja evangélica? É brutal. Por que eles estão fazendo hoje o trabalho que fazíamos há 50 anos e paramos de fazer? Eles lutam contra o vício, e hoje nós o promovemos. Hoje eles visitam prisioneiros, e nós queremos prender todo mundo. Hoje eles acolhem imigrantes, e nós queremos expulsá-los da nossa fronteira, porque somos incapazes de incutir consciência de classe na classe trabalhadora e permitimos que o ódio seja direcionado lateralmente em vez de para cima. Até quando isso vai continuar? Não se pode reclamar que a direita não esteja fazendo seu trabalho. Porque eles fazem o que precisam para se manter no poder e controlar a opinião pública, como fazem hoje em dia por meio da tecnologia. Fomos nós que fomos embora. A cidade está no mesmo lugar, vivendo a mesma merda e sofrendo as mesmas coisas. O problema é que já não estamos lá.
O que explica o retumbante fracasso do governo de Boric, que se esperava ser o mais radical desde Allende?
O abandono do programa. Nada mais. Renúncia. Mas veja bem, para dar alguns exemplos concretos, o ex-presidente Boric e a ex-ministra secretária-geral do governo, nossa colega Camila Vallejo, foram os líderes da luta contra o TPP-11, a Parceria Transpacífica. E nenhum governo, nem mesmo a direita, ousou aprová-lo. Eles mesmos o aprovaram. Nossos dois camaradas foram os líderes da luta contra a militarização da Araucanía [território do povo Mapuche]. E passamos quatro anos com Araucanía, com Wallmapu, militarizada. Eles se opuseram fortemente à criminalização dos protestos. E durante o seu governo, foram aprovadas as leis mais repressivas da nossa história desde a ditadura. E eu poderia continuar. Prometeram abolir o sistema de pensões da AFP [Administradora de Fundos de Pensão, o INSS chileno], mas acabaram por devolver todo o dinheiro que tínhamos levantado durante a pandemia e a reforçar o mercado de capitais, que era precisamente o que precisávamos transformar. Então, quando você olha, por exemplo, para o caso do presidente [Boric], todos se lembram de quando ele disse a Piñera [Sebastián, ex-presidente do Chile], apontando o dedo para ele: “Vamos julgá-lo”. E hoje eles estão soltando e deixando todos os violadores de direitos humanos impunes. Mas o pior é que acabam entregando o governo à extrema direita da era Pinochet. Se eu aplicasse os mesmos critérios que usavam antes, ao analisar governos que acabaram entregando o poder à oposição, eles teriam que reconhecer o fracasso. E ficariam tentando consertar as coisas por muito tempo, tentando disfarçar esse fracasso como um sucesso. Mas hoje (13) foi divulgado um relatório do governo sobre a desigualdade no Chile. Veja bem, a situação é muito pior do que aquilo que nos contaram durante tanto tempo. Os números são estarrecedores. 50% dos chilenos não têm nada; devem mais do que possuem. E 1% detém mais de 80% da riqueza, 19% da renda e 50% dos ativos. E, obviamente, o povo não vai votar na esquerda. E parece que, quando a esquerda faz o bem — e isso vem acontecendo há talvez mais de uma década em nosso continente, em nossa região —, a direita também encontra maneiras de penalizar, punir e perseguir a esquerda bem-sucedida.
Estamos em um momento no qual o império, com todas as suas debilidades, opta por uma estratégia superagressiva de invasões, sequestro presidencial, assassinato de chefe de estado etc. No caso do Brasil, por exemplo, Washington sinaliza para declarar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, abrindo assim a porta para uma possível agressão contra o Brasil. O Senado do Paraguai acaba de aprovar a instalação de bases estadunidenses em seu território, e o Equador pode em breve fazer o mesmo. Portanto, é um cenário preocupante de avanço imperialista na região. Você acha que a experiência no Irã tem algo a ensinar aos países do Sul Global sobre como confrontar o imperialismo daqui pra frente?
Não vou falar sobre os países da região, vou falar sobre a esquerda na região. Porque os países são um conjunto de diferentes posições, e acredito que a esquerda não precisa olhar para o Irã para aprender. É preciso recorrer a textos clássicos e ler “A Acumulação de Capital”, de Rosa Luxemburgo, onde ela explica que o capital é compelido a devorar qualquer espaço que não esteja sujeito às suas regras e lógica. Tanto que hoje, para manter sua taxa de lucro, o capital precisa devorar Gaza, precisa devorar Cuba, que não possui recursos e não representa ameaça para ninguém. Ao longo da história da revolução, Cuba só ofereceu solidariedade, amor e fraternidade, mas até isso incomoda o capital, porque solidariedade e fraternidade são contrárias à lógica do capital. Portanto, não precisamos recorrer à guerra no Irã para aprender que, de agora em diante, nenhum povo poderá se salvar sozinho e que o problema não está no império, mas sim no capital transnacional. Não são os Estados Unidos, e não é Trump. Trump é uma ferramenta, um pavio para a BlackRock e todas essas corporações que estão acima dos Estados-nação e acima das leis de todos os países. Portanto, a solução para todos esses conflitos envolve necessariamente a superação do capitalismo e a recuperação, pela esquerda, do horizonte da transformação social e da construção do socialismo. O problema é que a esquerda acabou falando a língua do império e, hoje, governa falando de diálogo social, governança, defesa do Estado de direito e defesa da Constituição. A esquerda tornou-se a vanguarda da defesa das instituições burguesas, enquanto a direita e a burguesia desmantelaram o Estado de direito. Portanto, devemos resgatar nossa própria linguagem, nossa própria estratégia e retornar às bases, trabalhando com o povo, pois essa é a única unidade que nos permitirá resolver essa questão.
Agora, uma vez resolvida essa questão fundamental, sim, o Irã poderá nos ensinar algo. O Irã nos ensina o quê? Que precisamos aprender a lutar batalhas assimétricas. Veja bem, é a mesma coisa que o Vietnã nos ensinou, a mesma coisa que a Coreia nos ensinou e a mesma coisa que os palestinos nos ensinaram na Batalha de Karam em 1968. São guerras de guerrilha, são batalhas de desgaste, serão batalhas travadas com os pés no chão e com nossos militantes enraizados no povo, porque o último espaço que o capital se apropria é a subjetividade, que hoje ele transforma em dados. Hoje, por meio de algoritmos e celulares, somos monitorados o dia todo. Além disso, somos controlados e submetidos a uma atrofiação sináptica, o que reduz nossa capacidade de pensamento. Acabei de escrever um livro muito interessante sobre isso, “Amar o Grande Irmão: Orwell e a Mutação do Controle”, que é fascinante por causa da atrofiação sináptica que estão realizando nas novas gerações. Quando apagam palavras como revolução, luta de classes e exploração da linguagem, quando faltam palavras para nomear a dor e a saída para ela, paramos de imaginar o que é possível. Em outras palavras, quando a palavra “revolução” desaparece da linguagem, a possibilidade de rebelião deixa de ser imaginável. Portanto, a esquerda precisa aprender que tem uma tarefa fundamental: resgatar o projeto histórico de construção do socialismo se quisermos enfrentar a situação atual. Por exemplo, a defesa de Cuba é extremamente importante hoje para toda a esquerda mundial. A defesa da Venezuela, a defesa de projetos alternativos no Sahel — ou seja, hoje temos que começar a olhar além dessas fronteiras regionais. Hoje, claro, falamos de integração regional, mas mesmo ela é insuficiente para os tempos que virão, porque teremos que enfrentar a maior concentração de poder e recursos da história da humanidade.
Você esteve preso por quase dois anos – entre a cadeia e a sua casa – em mais um típico caso de lawfare latino-americano, que atingiu tantos líderes da região nos últimos anos, inclusive o presidente Lula. Qual foi a acusação contra você e qual é a situação atual do processo? Quais são as perspectivas para a próxima etapa do caso?
Bem, o caso ainda está em andamento. Hoje, as medidas cautelares abusivas que me foram impostas para me excluírem da disputa foram atenuadas. Mesmo hoje, a Associação Americana de Juristas denunciou essa manobra jurídica como uma violação dos direitos políticos e democráticos nas Nações Unidas, porque fui excluído da disputa e da política por meio de um processo administrativo no qual o Ministério Público se colocou acima de qualquer outra instituição. E, claro, as medidas cautelares foram afrouxadas agora porque não haverá eleições pelos próximos dois anos, mas o processo continua. E o processo, claro, está mais frágil hoje em dia. Os advogados que iniciaram o processo estão presos por corrupção judicial. Todo o Chile sabe hoje que aqueles que armaram contra mim subornaram promotores, subornaram juízes, subornaram sentenças, pagaram testemunhas. E são os mesmos. É legítimo questionar por que alguém pensaria que eles fizeram isso em todos os outros casos, exceto no meu, certo? Além disso, o sionismo, que governa o Chile hoje, está por trás disso. E a direita está envolvida, e faz parte do governo anterior, é claro. Portanto, há um processo em andamento que continuará. Estou muito tranquilo porque não tenho nada a esconder.
Na verdade, ninguém sequer ousou me acusar de reter um único peso ou de desviar um único peso para campanhas políticas. Sou acusado de tomar decisões durante a pandemia que podem ter causado prejuízos ao Estado. Houve outros juízes, outros julgamentos semelhantes durante esse período, e todos os réus foram absolvidos porque, durante a pandemia, todos nós tomamos decisões precipitadas, quando não havia como proteger as pessoas, quando pessoas estavam morrendo em nossos bairros. E não foi só o governo, mas muitas empresas faliram e perderam dinheiro tentando garantir um direito legal que é muito mais importante do que a eficiência dos gastos públicos, que é o direito à vida, que, repito, não estava disponível de forma alguma — não havia remédios, vacinas, nada. A única maneira de proteger as pessoas era lavando as mãos, comprando máscaras e praticando o distanciamento social. Então, quando você é julgado por comprar máscaras, ou por comprar glicosímetros que estão facilmente disponíveis ao público, ou por comprar aparelhos auditivos que também estão facilmente disponíveis ao público? E porque levaram à falência uma associação de municípios, alegando que não estavam interessados no dinheiro, que queriam prejudicar o candidato presidencial Daniel Jadue. Está escrito em um e-mail, mas a promotoria descartou todas as provas e fabricou algo que levou o próprio promotor que iniciou este caso a ser investigado por má conduta, por pressionar testemunhas a mentir e me incriminar. Testemunhas que admitiram ter feito isso em entrevistas a grandes veículos de comunicação. Então, acho que temos que esperar. Espero que isso termine o mais rápido possível. Eles já nos impediram de coletar provas durante a investigação, então também estamos enfrentando um desequilíbrio de recursos para tentar reunir as provas de que precisamos, mas eles não têm provas contra mim. O problema é que, nesta fase do processo, ninguém precisa de provas para desqualificá-lo de uma carreira política.
E o seu futuro — quando você voltará à política?
Olha, eu sempre digo, isso é algo que o povo decide. Do que tenho certeza é que a política não se faz apenas dentro das instituições. A política mais relevante acontece fora delas e, portanto, estou de volta à política. Não faço parte do establishment político, mas estou ativo todos os dias, debatendo todos os dias. Tenho um programa semanal transmitido online que todos os jornalistas assistem. E sempre que falo, eles reprisam o que eu digo e isso é discutido. Então, de uma forma ou de outra, as pessoas também esperam isso. Mas hoje já estou percorrendo a região metropolitana e me reconectando com as pessoas que me ajudaram a me tornar um pré-candidato à presidência em 2021. E o compromisso, o carinho e o desejo de mudança permanecem intactos. E quando você olha para a história recente do Chile e para o levante popular de 18 de outubro de 2019, percebe que todas as reivindicações que surgiram durante esse levante continuam inalteradas. Nenhuma questão foi resolvida. E depois dos 80% que decidiram mudar a Constituição de Pinochet, o fato de ainda estarmos usando-a é uma vergonha. Portanto, devemos insistir mais uma vez na mudança constitucional. Devemos insistir, mais uma vez, no aprofundamento e fortalecimento da democracia com instituições sempre permeadas pelos cidadãos e pelo povo do Chile. E essas são tarefas pendentes que eu jamais poderia abandonar. Até a vitória.
Como você está? Como é ser livre novamente, como um passarinho?
Bem, agora há um pouco mais de liberdade, mas a perseguição ainda é muito forte. Mas poder voltar às ruas é muito gratificante, principalmente por causa do grande carinho que as pessoas demonstram. Isso me surpreendeu bastante. Dois anos fora das ruas e, ao retornar, encontrei o mesmo carinho de sempre, e as pessoas estão muito conscientes dessa perseguição tão incômoda e muito tranquilas em relação ao que está por vir. Quer dizer, ninguém tem muita confiança no sistema judiciário do Chile. Não há motivos para ter confiança nele. Mas o caso está desmoronando, especialmente com a prisão dos homens que iniciaram a armação, porque eles fazem parte do maior escândalo de corrupção judicial da história do Chile.
