“Sem semente não tem nada. A gente passa fome sem semente. O ser humano não vive sem ela, e os animais também.” A frase do jovem agricultor Alessandro Matheus Steiman, de 24 anos, resume o sentimento de muitos camponeses e camponesas reunidos na 9ª Festa da Semente Crioula e 4ª Feira da Economia Solidária, realizada em Seberi, no norte do Rio Grande do Sul, neste sábado (14).
Filho de agricultores, Steiman cresceu vendo o pai cultivar variedades antigas de sementes e hoje ajuda a manter essa tradição na propriedade da família. “Meu pai sempre plantava sementes antigas. Com o tempo nós perdemos algumas, mas quando encontrávamos de novo, recuperávamos e continuávamos plantando”, conta. Na lavoura, a família cultiva milho, feijão, arroz, cana e outras variedades tradicionais.
O depoimento foi compartilhado durante a celebração que reuniu agricultores e agricultoras que preservam variedades tradicionais de sementes e defendem a agroecologia como forma de produção de alimentos. Promovida pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e pela cooperativa Cooperbio, a festa reuniu cerca de 2 mil pessoas.
Participaram camponesas e camponeses, trabalhadores e trabalhadoras urbanos de diversos territórios do Rio Grande do Sul, além de delegações de outros oito estados e quatro países, movimentos da Via Campesina Brasil e organizações internacionais, representantes de universidades, apoiadores institucionais, parlamentares e integrantes do poder público.
De geração para geração
As sementes crioulas são variedades preservadas e multiplicadas por gerações de famílias agricultoras. Diferentemente das sementes comerciais, elas são adaptadas às condições locais, contribuem para a preservação da biodiversidade e podem ser guardadas e replantadas a cada safra, sendo consideradas patrimônio dos povos e da agricultura camponesa.
Coordenadora do Grupo Florescer Agroecológico, na região central do estado, a agricultora Rosiele Ludtke explica que o cuidado com essas sementes está diretamente ligado à produção de alimentos saudáveis e à autonomia das famílias do campo. “Sou guardiã de sementes, assim como todos os integrantes do nosso grupo. Também sou militante do MPA, que há muito tempo faz o trabalho de resgate e multiplicação das sementes crioulas.”
Segundo ela, para quem produz alimentos no campo, as sementes tradicionais são fundamentais para manter um modelo de produção baseado na agroecologia. “Para nós, que somos produtores de alimento de verdade, ter as sementes crioulas é fundamental para escolher qual modelo de produção queremos utilizar. Fazer agroecologia na prática depende dessas sementes.”
Além do valor produtivo, Ludtke destaca o aspecto cultural e afetivo presente nesses alimentos. “Elas trazem sensações, lembranças e memórias. Quando a gente come um milho crioulo cozido, não tem comparação com o milho transgênico. É um alimento mais nutritivo e com outro sabor.”
O grupo mantém uma casa de sementes crioulas com mais de 300 variedades catalogadas e organiza um sistema de troca entre agricultores. “Todos os anos os agricultores procuram nosso banco de sementes para realizar o troca-troca. Existe uma perda grande de sementes ao longo do tempo, mas também há muito cuidado por parte dos camponeses e camponesas que mantêm essas variedades.”
Guardião há mais de quatro décadas
Entre os participantes da festa estava também o agricultor Edson Lindemeyer, de 73 anos, morador da comunidade de Erval Seco, região que atualmente integra o município de Palmeira das Missões.
Ele conta que sempre cultivou alimentos sem o uso de agrotóxicos e acompanha a luta pela preservação das sementes crioulas há décadas. “Eu sempre fui disso aí. Nunca trabalhei com veneno. Quando começou a plantação de soja, ainda plantei quando era tudo manual. Depois que apareceu a ferrugem, eu desisti e resolvi seguir produzindo do jeito que sempre fiz. ”
Hoje ele produz principalmente alimentos para consumo da família, mas continua participando dos encontros e apoiando a preservação das sementes tradicionais. “Eu sempre apoiei desde o início. Sempre vinha e sempre estive junto dessa luta, já faz mais de quarenta anos.”
Além das histórias de agricultores e agricultoras que mantêm vivas as sementes crioulas, a festa também foi espaço para apresentar iniciativas voltadas ao fortalecimento da agroecologia e da produção camponesa no estado.

Redes de agroecologia e novos projetos
“A agroecologia avança quando se organiza em rede.” A afirmação é do integrante da coordenação nacional do MPA, Marcelo Leal, ao comentar os projetos assinados durante a celebração. As iniciativas estão vinculadas ao Programa Ecoforte, voltado ao fortalecimento de redes territoriais de agroecologia, extrativismo e produção orgânica. O programa conta com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Fundação Banco do Brasil.
Um dos convênios foi firmado com a cooperativa camponesa Cooperbio, presidida por Luiza Pigozzi, e prevê investimento de R$ 1,8 milhão no projeto Ecoforte Redes: Estruturação e Fortalecimento da Rede Alimergia. A iniciativa busca ampliar práticas de manejo sustentável da sociobiodiversidade e fortalecer sistemas produtivos orgânicos e agroecológicos na região.
Outro acordo foi firmado com o Instituto Cultural Padre Josimo, coordenado pelo frade capuchinho Wilson Zanatta. O projeto Ecoforte Redes – Estruturação e Fortalecimento da Rede Camponesa de Agroecologia (RS) receberá investimento de R$ 2,35 milhões e envolve famílias agricultoras, assentamentos da reforma agrária e comunidades quilombolas. As ações incluem produção sustentável, formação técnica e fortalecimento das redes de comercialização solidária.
Segundo Zanatta, a iniciativa deve ampliar o apoio a comunidades que enfrentam diferentes situações de vulnerabilidade. “Esse projeto é muito importante para nós. O Instituto Cultural Padre Josimo funciona como um guarda-chuva para que possamos desenvolver diferentes iniciativas. Muitas vezes encontramos comunidades indígenas em condições muito precárias, à beira de estrada, sem estrutura nenhuma, e procuramos ajudar como podemos. Projetos como esse vêm para fortalecer esse trabalho e permitir que a gente avance junto com os movimentos.”
Plataforma de bioinsumos
No encontro também foi apresentada a Plataforma de Bioinsumos da Cooperbio, iniciativa voltada ao fortalecimento da produção agroecológica e à ampliação da autonomia dos agricultores.
De acordo com Marcelo Leal, a proposta é reunir diferentes tecnologias de produção de insumos biológicos em uma mesma estrutura. “É como um celular. Talvez ele não tenha o melhor aplicativo ou a melhor câmera, mas reúne várias ferramentas no mesmo lugar”, explicou.
A plataforma deve incluir fertilizantes orgânicos, pó de rocha, inoculantes para fixação biológica de nitrogênio, capazes de substituir adubos químicos nitrogenados, e bioinsumos para o controle de pragas e doenças.
A estrutura também deverá funcionar como espaço de formação e intercâmbio entre agricultores e organizações sociais. “Queremos ocupar esse espaço com salas de formação, biblioteca e alojamento para formar muita gente do MPA e das organizações ligadas à Missão Josué de Castro.”
Segundo Leal, a iniciativa é resultado de uma trajetória construída ao longo de anos de experimentação e formação com agricultores. Antes da estrutura atual, experiências de produção de bioinsumos já eram realizadas de forma artesanal, com fermentação de microrganismos e produção de fertilizantes naturais para distribuição entre as famílias. “Quando viemos para o Sul, trouxemos essa bagagem e começamos a capacitar famílias agricultoras. Foram mais de mil famílias e cerca de três mil pessoas formadas nesse processo”, relatou.
A partir dessas experiências, foram estruturadas iniciativas locais de produção de insumos naturais, como unidades de produção de pó de rocha e pequenas biofábricas para fermentação de micro-organismos utilizados como biofertilizantes.
“Depois que conquistamos esse espaço da Cooperbio, construímos uma unidade de produção de pó de rocha, um insumo aceito na agricultura orgânica. Também adaptamos reatores para fermentar comunidades de micro-organismos e distribuir biofertilizantes para os agricultores”, explicou.
Segundo ele, o novo ciclo de investimentos busca ampliar essa experiência. “Agora, com a retomada das políticas públicas, queremos responder em escala à produção de bioinsumos.”
A proposta, reforça Leal, prevê a produção de fertilizantes e de insumos biológicos, mas também inclui ações de formação, intercâmbio tecnológico e assessoria para que outras cooperativas e associações possam elaborar suas próprias estruturas produtivas. A iniciativa também prevê publicações, imersões tecnológicas e a articulação dos bioinsumos com linhas de crédito sustentável.
“Assim, a plataforma reúne duas biofábricas e uma estrutura de educação e formação, gerando conhecimento na área de bioinsumos para o MPA e outras organizações. O objetivo é dar escala e acelerar a transição agroecológica”, afirma.

Nova fábrica de bioinsumos fortalece a agroecologia
A inauguração da fábrica de bioinsumos Geasol, junto à cooperativa camponesa Cooperbio, está prevista para o final de maio. Com cerca de 500 metros quadrados, a unidade deve operar com até 18 trabalhadores, incluindo cinco profissionais de alta qualificação técnica, e contará com especialistas vindos de grandes indústrias do setor.
Leal destaca que a iniciativa responde a um desafio estratégico: a soberania nacional. “Nós, no nitrogênio, somos dependentes em 90%; no fósforo, em 85%; no potássio chega a 92%”, aponta. De acordo com ele, a produção de bioinsumos pode reduzir em cerca de 30% os custos no campo, diante do aumento dos fertilizantes químicos e agrotóxicos. O coordenador reforça que os biofertilizantes promovem a regeneração do solo e reduzem a dependência externa ao longo do tempo.
Para o presidente da Fundação Banco do Brasil, André Castelo Branco Machado, o desafio é ampliar o acesso às tecnologias sem desconsiderar os saberes populares. “A gente quer que a tecnologia social não seja vista como algo rudimentar, mas como uma resposta qualificada, juntando o saber popular com o técnico”, afirma.
