A 14ª edição do Fórum Internacional do Meio Ambiente 2026 (Fima) reafirma o lugar do evento como um dos principais espaços de reflexão sobre os desafios ambientais no Sul do Brasil. Promovido pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI), o encontro ocorre nesta sexta-feira (20) e sábado (21), no Auditório Ana Terra da Câmara Municipal de Porto Alegre, reunindo especialistas, gestores públicos, ativistas e comunicadores em torno do tema central “Saneamento e Resíduos: Saúde e Meio Ambiente”.
A programação mantém a tradição do Fima de promover diálogos qualificados sobre temas estruturais, conectando ciência, ativismo, gestão pública e comunicação. A proposta é clara: enfrentar problemas complexos, como o saneamento básico e a destinação de resíduos, exige integração de saberes e compromisso coletivo.
As vagas para participar do Fórum são limitadas à capacidade do auditório (80 lugares). Interessados podem preencher o formulário disponível no site oficial. A inscrição antecipada é obrigatória para a emissão do certificado de participação.
Programação
Entre os destaques deste ano está a participação da jornalista Sonia Araripe, fundadora e editora da Revista Plurale, referência nacional na cobertura de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental. Ela integra o painel sobre cobertura jornalística do saneamento, ao lado de Bruna Fernanda Suptitz, Tiago Medina e Lara Correa Ely. O debate propõe discutir como traduzir temas técnicos, como metas do Marco Legal do Saneamento, redes subterrâneas e privatização dos serviços de água, em narrativas acessíveis e mobilizadoras para a sociedade.

O presidente da ARI, José Nunes, destaca que o evento consolida uma trajetória iniciada ainda em 2004, quando a entidade lançou o Fórum Internacional das Águas. À época, segundo ele, questionava-se o papel da imprensa no debate ambiental, cenário que mudou significativamente. Hoje, a relevância do tema é amplamente reconhecida, e o Fima reforça essa centralidade.
Litoral Norte em foco: saneamento como desafio urgente
A edição de 2026 amplia o debate ao abordar o desafio do saneamento no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, além de discutir experiências internacionais. Participam da atividade, o professor Antonio Libório Philomena, representando a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), e o professor Wesley Diogo de Assis, representando o Movimento em Defesa do Litoral Norte do RS (MOVLN). Não haverá contraponto neste painel específico do Fima já que, convidados, representantes de possíveis entidades que poderiam manifestar outras visões, não confirmaram presença.

Para o diretor de meio ambiente da ARI, jornalista João Batista Santafé Aguiar, a entidade se caracteriza por ser um espaço de promoção do diálogo entre diferentes visões na área ambiental, refletindo militância de antigos direções que atuaram sempre em causas de interesse público.
Ele avalia que o evento é “a oportunidade para trazer a Porto Alegre o debate sobre jogar ou não esgotos tratados no rio Tramandaí ao invés de ser utilizada alguma outra solução”. A questão tem a ver com o tipo de desenvolvimento que se quer para o Litoral Norte, lembra.
No mesmo painel o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), Seção RS, Paulo Robinson da Silva Samuel, vai tratar da universalização do saneamento e de das políticas de atendimento à população.

Também nesse contexto, a cientista uruguaia Carla Kruk Gencarelli participa do encontro trazendo uma perspectiva comparada sobre a gestão de resíduos e saneamento em países de menor extensão territorial, como o Uruguai. Bioquímica, mestre em Biologia e doutora em Ciências da Vida pela Universidade de Wageningen, na Holanda, Gencarelli atua na Universidade da República (Udelar), onde coordena a Rede Temática Ambiental (Retema) e integra o conselho da Comunidade Uruguaia de Ecologia (Code-UY).

Resíduos, renda e economia circular: caminhos possíveis
A gestão de resíduos sólidos e a economia circular também ocupam espaço central na programação. Instituída pela Lei nº 12.305/2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos estabeleceu diretrizes como a logística reversa, que prevê a responsabilidade das empresas pelo destino final de embalagens e produtos. No entanto, especialistas apontam que ainda há um longo caminho para a efetiva implementação dessas práticas no país.
Experiências concretas serão apresentadas ao longo do evento, evidenciando o potencial da reciclagem para geração de trabalho e renda. Um dos exemplos vem do Centro de Triagem da Vila Pinto, em Porto Alegre, representado pela coordenadora operacional Sirlei Batista de Souza. Ela abordará o funcionamento da cooperativa, que atualmente reúne 35 catadoras e catadores.

A jornalista Lilian Dreyer, autora da biografia Sinfonia Inacabada, e o economista e articulista Renato Zimmermann, abordam a importância do ambientalista José Lutzenberger nos dias atuais. Falecido em 2002, Lutzenberger trouxe a crítica ao modelo de desenvolvimento predatório que permanecem atuais e necessárias, inspirando novas gerações a buscar uma convivência mais harmoniosa com a biosfera. A vice-diretora de Meio Ambiente da ARI, Daniela Sallet, apresentará vídeo com depoimentos inéditos sobre Lutzenberger, de ex-companheiros de lutas ambientais na Agapan, como Augusto Carneiro.

Outro destaque é a atuação do Ministério Público do Rio Grande do Sul, por meio da procuradora Ana Maria Moreira Marchesan, que apresentará o projeto “MP Sustentare”. A iniciativa promove a logística reversa de resíduos eletroeletrônicos e busca fortalecer a responsabilidade compartilhada entre poder público, empresas e sociedade.

Os impactos sociais da reciclagem serão apresentados pelo empresário Joelson Orrigo Gonsalves, fundador da JG Recicla, empresa referência em economia circular que processa cerca de 1,2 mil toneladas de materiais por mês. Com trajetória iniciada como catador de sucatas, Joelson hoje gera empregos diretos e também oportunidades para apenados do sistema prisional gaúcho, inseridos no projeto.

No campo da inovação tecnológica, a engenheira química Aline Barreto Graebin apresentará pesquisas sobre o uso de nanofiltração no tratamento de efluentes. A técnica permite remover da água contaminantes como resíduos de fármacos e pesticidas, ampliando as possibilidades de reúso da água e reduzindo custos operacionais nos sistemas de saneamento.

Legado vivo: centenário de Lutzenberger marca o Fima
A programação inclui ainda uma homenagem ao centenário do ambientalista José Lutzenberger, figura central do ambientalismo brasileiro. O painel “Os Cem Anos de José Lutzenberger: contribuições para o Mundo de Hoje” contará com mediação do jornalista Walmaro Paz e participação da jornalista Lilian Dreyer e da bióloga Lara Lutzenberger, presidente da Fundação Gaia.

Lutzenberger teve atuação marcante desde a fundação da Agapan, em 1971, liderando campanhas de repercussão nacional e internacional. Também ocupou a Secretaria Nacional do Meio Ambiente no início da década de 1990, contribuindo para a preparação da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, além de atuar na defesa de territórios indígenas e no enfrentamento ao uso indiscriminado de agrotóxicos.

Ao propor uma reflexão sobre um problema que é simultaneamente local, nacional e global, o Fima 2026 busca responder a uma questão central: como garantir saneamento e gestão adequada de resíduos em contextos marcados por desigualdades? A resposta, apontam os organizadores, passa por políticas públicas consistentes, inovação tecnológica e engajamento social.
O evento conta com patrocínio da Corsan Aegea e da Companhia Rio Grandense de Valorização de Resíduos.
*Com informações da Associação Riograndense de Imprensa (ARI)
