PARTEIRAS INDÍGENAS

Exposição e livro “Rebento” registram saberes de parteiras e benzedeiras Potiguara

Projeto será apresentado ao público no próximo sábado (21), na Aldeia Forte, em Baía da Traição (PB)

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Projeto destaca protagonismo de mulheres indígenas
Projeto destaca protagonismo de mulheres indígenas | Crédito: Marina Oliveira

Um parto das mulheres na fotografia, na cultura e na arte, “Rebento: memórias, tradições e saberes das Parteiras e Benzedeiras tradicionais Potiguara da Paraíba” será apresentado ao público no próximo sábado, 21 de março, na Aldeia Forte, em Baía da Traição (PB). O projeto reúne livro e exposição fotográfica e constrói um acervo permanente sobre práticas tradicionais de cuidado mantidas por mulheres indígenas do povo Potiguara.

Idealizado por Cida Potiguara, enfermeira, parteira e coordenadora da Associação das Parteiras Indígenas Potiguara da Paraíba, o trabalho foi realizado em parceria com a fotógrafa Marina Oliveira e a produtora cultural Carol Marini, com participação de Kauanny da Silva Oliveira e Emilia Emily Silva de Oliveira no registro e na construção do acervo.

Kauanny – Foto: Acerto Projeto Rebento

A iniciativa reúne livro de memórias e exposição com cerca de 20 obras, documentando o trabalho de 16 parteiras e aprendizes. O material registra práticas cotidianas, rituais e trajetórias dessas mulheres, historicamente responsáveis pelo cuidado em contextos de acesso limitado aos serviços formais de saúde.

Foto: Acerto Projeto Rebento

Preservação de saberes e enfrentamento ao apagamento

De acordo com Cida Potiguara, a proposta do projeto surge diante da necessidade de registrar conhecimentos tradicionalmente transmitidos de forma oral. Ela afirma que a iniciativa busca fortalecer a cultura, a saúde e a memória das mulheres indígenas, garantindo que suas práticas e saberes não se percam.

Cida Potiguara – Foto: Acerto Projeto Rebento

“A importância desse projeto é que ele traz o objetivo de gravar a oralidade das mulheres que traz essa força ancestral, as nossas avós, as nossas tias. Toda essa prática, que é uma prática cultural do povo Potiguara, vem sendo fortalecida pelo projeto, que reforça tanto a cultura quanto a saúde da mulher, especialmente no cuidado, na interação com as plantas medicinais e na espiritualidade da mulher indígena”.

A coordenadora ressalta ainda que o registro da oralidade representa uma forma de visibilizar a força feminina: “É fazer o registro da oralidade, das forças, da expressão do nosso povo e da força que a mulher tem. Para nós, mulheres indígenas, as anciãs que têm sua oralidade escrita neste livro é de grande importância. A lei Aldir Blanc aqui no estado da Paraíba vem contemplar e nos fortalecer, fazendo esse reparo e tirando da invisibilidade a força das parteiras indígenas.”

Visitação ao espaço

O lançamento marca o início da circulação pública do projeto e da visitação ao espaço onde o acervo ficará disponível na Aldeia do Forte. Ela explica que a exposição permanecerá na sede da Associação, e o livro estará disponível para consulta e distribuição nas escolas locais.

O ofício de parteira é dos mais antigos da humanidade

“A partir da publicação do livro,  a exposição (fotográfica) ficará na sede, assim como o livro. Quem quiser visitar a Casa da Parteira pode entrar em contato conosco pelo telefone ou pelo Instagram para agendar a visita. Geralmente o atendimento é durante o dia, pela manhã, e também aos sábados. O material não estará disponível para venda, será apenas a exposição e a distribuição nas escolas”, detalha.

Protagonismo feminino e dimensão coletiva

Para a fotógrafa Marina Oliveira, o trabalho também destaca a dimensão coletiva da atuação das parteiras e benzedeiras. Ela afirma que a experiência evidenciou a relação entre memória e resistência cultural, mostrando como os saberes dessas mulheres atravessam gerações. 

Marina Oliveira – Foto: Acerto Projeto Rebento

“O aprendizado mais significativo pra mim foi poder perceber a linha que costura o tempo e a memória: a resistência. É nela que mora o mais profundo desejo de perdurar uma cultura, seus saberes e memórias, estar ali com elas foi presenciar a ancestralidade viva em tudo e em todas”, afirma Oliveira.

Foto: Acerto Projeto Rebento

A produtora cultural Carol Marini também aponta que o projeto evidencia formas de organização baseadas na coletividade:

“Em uma sociedade que exalta conquistas individuais, foi um privilégio aprender com elas que não existe potência maior do que a que nasce do encontro entre mulheres que caminham juntas. O que se constrói ali não é só cuidado, é resistência, memória e continuidade de um modo de existir.”

Já a parteira tradicional Inonata, uma das participantes, define o processo como uma experiência significativa para o grupo:

“Enquanto o projeto, pra mim foi uma experiência incrível, para nós como parteiras isso foi um momento único.”

Parteiras no Brasil, semeadoras de futuro

Estudos na área de saúde pública e antropologia indicam que parteiras tradicionais desempenham papel fundamental em diversas regiões do Brasil, especialmente em territórios indígenas e comunidades rurais. Reportagem realizada pela redação do Brasil de Fato Paraíba as práticas do povo Potiguara estão associadas a conhecimentos transmitidos oralmente entre gerações, envolvendo cuidados com o corpo, o parto e dimensões espirituais.

Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz e do Ministério da Saúde indicam que essas mulheres historicamente atuam em contextos de ausência do Estado, sendo responsáveis por práticas de cuidado no pré-natal, parto e pós-parto, além de contribuírem para a saúde comunitária.

Foto: Acerto Projeto Rebento

Uma reportagem do Instituto Humanitas Unisinos contextualiza o ofício das parteiras tradicionais no Brasil, apontando que “o ofício de parteira é dos mais antigos da humanidade” e que essas mulheres desempenham papel essencial nas comunidades ao longo do tempo.
Mais informações sobre o projeto podem ser acessadas no perfil oficial: https://www.instagram.com/rebentoprojeto

Editado por: Cida Alves

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