SOLIDARIEDADE

Movimentos seguem mobilizados em solidariedade aos atingidos pela chuva na Zona da Mata (MG)

MST já doou mais de 30 toneladas de alimentos; frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo organizam campanhas de doação

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“É uma forma de acolhimento e presença solidária que faz muita diferença nesses momentos”, diz militante do MST | Crédito: Reprodução MST/MG

Passado quase um mês do início das chuvas que resultaram em calamidade pública na Zona da Mata mineira, embora a atenção do país já tenha se voltado a outros assuntos, os estragos seguem presentes e urgentes para as milhares de famílias atingidas. Em Juiz de fora, a tragédia destruiu mais de mil residências, deixou 65 mortos e 8,5 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Ubá teve sete mortos e cerca de 800 desabrigados. 

Frente à calamidade, desde o primeiro momento, a solidariedade foi marcante no acolhimento às famílias. Semanas após os primeiros deslizamentos e alagamentos, entidades da sociedade civil e movimentos populares seguem atuando em campanhas na região. 

“A cidade respondeu de forma muito rápida, com a mobilização de organizações sociais, igrejas, movimentos comunitários, empresas, cidadãs e cidadãos, que procuraram a prefeitura para oferecer ajuda. As doações continuam chegando diariamente”, destacou a prefeitura.

Exemplo disso, uma ação conjunta no bairro Vale Verde, em Juiz de Fora, reconstruiu, no último final de semana, uma horta comunitária. Participaram do mutirão o Movimento Brasil Popular (MPB), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Levante Popular da Juventude. Todos seguem com campanhas de solidariedade ativas, mobilizando e organizando doações e voluntariado nas cidades atingidas. 

“Mais do que reconstruir a horta, foi um momento de fortalecer a solidariedade de classe e reafirmar que a solidariedade que defendemos não é caridade, mas uma prática de organização popular e reconstrução coletiva da vida”, apontam os movimentos em publicação conjunta nas redes sociais.

Situação ainda é difícil 

Além de Juiz de Fora e Ubá, Matias Barbosa enfrentou sérios riscos de desabamento e tem diversos desalojados. A maior das cidades atingidas e a que acumulou maiores danos, Juiz de Fora trabalha agora com a perspectiva de retomada, com a reabertura de vias, limpeza de áreas afetadas e preparação das obras de grande porte que precisam ser feitas, especialmente de contenções. 

“Por outro lado, o município segue mobilizado em em função de duas prioridades: o atendimento humanitário às famílias atingidas e as ações estruturais de mitigação de riscos, com monitoramento permanente das áreas afetadas e vistorias técnicas, a fim de que outros desastres não ocorram”, explicou a prefeitura. 

Segundo as entidades populares, apesar da atuação célere da prefeitura, que iniciou os esforços de mitigação e resposta logo na madrugada em que aconteceram as primeiras chuvas, a situação das famílias ainda é de extrema vulnerabilidade. Para elas, as cidades atingidas ainda estão em um grande caos e as marcas dessa situação vão permanecer durante muito tempo na história da região.

“Enxergamos que vai ser um processo difícil, até porque segue voltando a chover. Por mais que algumas coisas tenham voltado ao normal, ainda está confuso como vai se dar todo esse processo de reconstrução”, explica Lídia Reis, integrante da direção estadual do MBP e do MAM, e assessora política do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Juiz de Fora (STIM/JF). 

Apesar disso, ela reafirma que a presença de muitas campanhas de solidariedade, seja do povo da região ou de fora, “mostra como nosso povo é muito solidário ao ver que o outro está passando por alguma tragédia”. 

Negligência do governo Zema

Por outro lado, para os movimentos, a atuação do governo do estado, de Romeu Zema (Novo), deixou muito a desejar nesses primeiros dias. Reis destaca que, embora alguns órgãos do estado tenham se deslocado para a região, a contribuição mais decisiva foi da prefeitura e do governo federal, sob comando de Lula (PT).

“Zema passou aqui na região, mas deu muito pouca assistência para nós, enquanto cidade. Em contrapartida, o governo federal tem dado todo o apoio e suporte, além de órgãos públicos de outros estados. Veio gente da Defesa Civil de Petrópolis, por exemplo, que já passou por esse processo e profissionais de outros estados estão dando uma mão”, explica a integrante da direção estadual do MBP e do MAM.

Na mesma linha, o MST pontuou que o governo de Minas é “irresponsável” e “violenta” o direito dos trabalhadores, ao, por exemplo, cortar recursos destinados a cuidar das infraestruturas necessárias para enfrentar situações de calamidade pública. 

Capitalismo e mudança climática

Elis Carvalho, dirigente regional do MST na Zona da Mata, afirma que o cenário exigirá muito trabalho coletivo e a construção de uma estratégia de enfrentamento às mudanças climáticas. Ela relaciona a calamidade diretamente à organização capitalista.

“A ação dos movimentos e a organização coletiva são determinantes para a construção de um outro projeto de sociedade, um projeto popular para o Brasil, um projeto de reforma agrária popular, que vai contra tudo o que vem sendo as causas das mudanças climáticas e da ampliação das desigualdades”, afirma.

O MBP e o MAM também destacam que este é o momento para fortalecer o processo de conscientização, de forma a construir o entendimento de que processos como o atual estão totalmente ligados à forma como nos organizamos socialmente. 

“Juiz de Fora é o nono lugar com mais pessoas morando em área de risco no país. Não é porque as pessoas querem morar em área de risco, é porque  não há condição de morar em outros lugares. É preciso debater a urbanização, as áreas de risco, as crises climáticas, quais são os impactos da especulação imobiliária e de que forma isso vai afetar as pessoas, principalmente em áreas periféricas “, destaca Reis. 

Mesmo com danos bastante generalizados, a  parcela mais afetada vai da classe média às pessoas de baixa renda. Isso porque, como destacam os movimentos, por mais que tenham sido afetadas pessoas com poder aquisitivo, quem terá maior dificuldade para  reconstruir a vida será o povo mais pobre.

 Fortalecer a organização coletiva

É com esse entendimento que Lulane Santos de Bortoli, militante do MST e atuante no projeto Mãos Solidárias MG, aponta que a solidariedade dos movimentos sociais vem não de uma forma assistencialista.

“Construir uma responsabilidade coletiva é, diante da percepção de todas essas desigualdades, fortalecer uma cooperação, que demonstre a capacidade de construir resposta coletiva e fortalecer os laços comunitários. É reafirmar que essa defesa da vida e da dignidade humana tem que ser o pilar das nossas ações”, destaca.

O MST tem contribuído na região mobilizando militantes e parceiros para receber, organizar e distribuir as doações que chegam. Já foram mais de 30 toneladas de alimentos vindos dos assentamentos da reforma agrária, além de doações voluntárias da Ceasa e da Conab. Também há doações de roupas e ítens de higiene.

Rede solidária

Em uma parceria entre MST, MBP,  Levante, MAM e demais organizações do campo popular, tem se construído uma cozinha solidária. Ao mesmo tempo, os militantes estão atuando em uma brigada de reconstrução e limpeza dos territórios atingidos.  

Para Bortoli, essa mobilização é significativa, porque contribui para garantir as condições mínimas de alimentação, cuidado e dignidade das famílias, principalmente nas primeiras semanas após a tragédia. “É uma forma de acolhimento e presença solidária que faz muita diferença nesses momentos”. 

Os movimentos têm divulgado nas redes sociais uma arrecadação financeira via Pix, para quem está distante e quer contribuir.  Como destaca a dirigente regional do MST na Zona da Mata, a ação tem sempre que se voltar à organização da população para demandar do Estado uma solução e discutir os rumos da cidade.

“A política da solidariedade demonstra que, por meio da organização coletiva, é viável a luta por direitos e a construção de valores distintos daqueles promovidos pela sociedade individualista e capitalista. A solidariedade ativa representa um passo fundamental para a organização, mobilização e fortalecimento de valores que se contrapõem aos valores do capital”, aponta Elis.

 Como é possível ajudar? 

Diante dessa situação, Bortoli destaca que é possível contribuir com a atuação dos movimentos de diversas formas. A principal é nas campanhas de arrecadação, doando roupas, água, produtos de higiene, de limpeza e, se possível, até móveis. 

“Outra forma, mais rápida, é a contribuição financeira, que é destinada para a compra de insumos. A divulgação dessas campanhas é uma forma de ajudar também”, finaliza. 

Para doar, por meio da iniciativa das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, construídas pelos movimentos, é possível encaminhar um pix para o CNPJ: 12.004.146/0001-94 (Banco do Brasil, Ag.: 0643-2,  C/C: 78276-9).

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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