Enquanto as investigações sobre o escândalo do Banco Master avançam, a possível delação premiada de Daniel Vorcaro se tornou o centro das atenções no mundo político e jurídico. Com 13 atendimentos de advogados em uma única semana — um privilégio que contraria as regras dos presídios federais —, o ex-banqueiro negocia os termos de uma colaboração que pode expor dezenas de parlamentares e autoridades.
O cientista político Paulo Roberto de Souza destaca no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, as condições especiais de Vorcaro na prisão. “Ele está recebendo 13 advogados em uma semana, o que significa que não são apenas advogados da própria defesa, mas emissários de lideranças políticas. Isso já deveria ser alvo de averiguação, mas ninguém questiona a conduta do ministro André Mendonça, que centralizou as investigações e tirou parte da autonomia da Polícia Federal.”
O analista lembra que Mendonça tem relações diretas com Vorcaro. “Ele é ligado à Igreja Batista Lagoinha, da qual o cunhado de Vorcaro [Fabiano Campos Zettel] é pastor. Há uma parceria histórica, uma cumplicidade para lá de complicada. Assim como Toffoli, Mendonça deveria ser considerado suspeito.”
Em fevereiro, Mendonça autorizou Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, a não comparecer em depoimento à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.
Sobre a proposta da defesa de Vorcaro de fazer uma delação conjunta envolvendo Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República, Souza vê um movimento de controle. “Eles querem promover algo que não seja passível de questionamentos no futuro. É uma forma de garantir que as perguntas certas não venham à tona. Uma delação higienizada, com alvos cuidadosamente escolhidos.”
Ele aponta que os alvos potenciais são muitos. “Vorcaro tem relações próximas com figuras da extrema direita e do centrão, desde o governo Bolsonaro. O Zettel pagou valores significativos para campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. A chantagem, o pagamento de propina a pessoas ligadas ao Banco Central — tudo leva a uma aproximação com esses grupos.”
Souza critica a cobertura da mídia tradicional. “Há um esforço para tratar o caso como um escândalo pluripartidário, que afeta a todos indistintamente. Isso joga tudo no indefinido e sugere que o governo também está envolvido. Mas precisa ser feita uma qualificação: o envolvimento do governo não parece ser significativo até agora.”
Ele compara com escândalos anteriores. “Nos governos petistas, a mídia sempre tratou o PT como grande responsável, o conspirador que corrompe os pobres deputados. Tirava a responsabilização do centrão, que se fortalecia ainda mais. Agora, o mesmo pode acontecer. O centrão, que já chantageia o governo e controla fatias significativas do orçamento com as emendas Pix, pode sair ileso mais uma vez.”
Em ano eleitoral, o analista vê potencial para grandes repercussões. “Uma delação pode expor aqueles mais envolvidos, mas passa por um filtro: como a mídia vai abordar o escândalo? Quem vai polarizar? Quem vai relativizar? Isso vai definir o impacto real nas eleições.”
Ele alerta para o risco de uma narrativa que misture todos os envolvidos. “Tratar como pluripartidário sugere que o governo também tem envolvimento significativo, o que não parece ser o caso. Pelo contrário: foi a autonomia da Polícia Federal neste governo que permitiu desmontar o esquema megalomaníaco de Vorcaro.”
Souza resume seu sentimento em uma palavra: desconfiança. “Toda essa articulação me preocupa. Os benefícios para Vorcaro estão muito acima do aceitável desde o início. E a forma como Mendonça conduz o processo, aliada à tentativa de uma delação controlada, sugere que uma blindagem está sendo construída. Resta saber quem será protegido e quem pagará a conta.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
