Guerra contra Irã

Europeus foram constrangidos por Trump a abrir Estreito de Ormuz, observa professor

Gilberto Maringoni analisa mudança de posição europeia, impacto da guerra nos preços do petróleo e fragilidade de Trump

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Guarda Revolucionária Islâmica realiza ataque retaliatório contra instalações petrolíferas ligadas aos EUA na região
Guarda Revolucionária Islâmica realiza ataque retaliatório contra instalações petrolíferas ligadas aos EUA na região | Crédito: Amin Ahouei / Tasnim News Agency

Enquanto os países europeus ensaiam uma mudança de posição em relação à guerra no Oriente Médio, o Irã demonstra uma inteligência militar que tem surpreendido analistas e colocado em xeque a estratégia de Washington e Tel Aviv. Após semanas de recusa em participar do conflito, França, Alemanha, Reino Unido e outros aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) agora cogitam enviar navios para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz — uma decisão motivada pelo impacto da guerra nos preços do petróleo, que já bateram nos US$ 120 o barril.

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, qualifica a mudança de posição europeia. “Isso significa um grande revés para os Estados Unidos e para a Aliança Atlântica. Os EUA entraram na guerra com Israel com objetivos diferentes. Tel Aviv quer acabar com o regime iraniano e Washington queria um ataque rápido, nos moldes da Venezuela, eliminando lideranças e provocando uma comoção interna que derrubaria o regime. Isso não aconteceu”, diz no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Ele lembra que o assassinato do aiatolá Khamenei teve efeito contrário. “Coesionou o regime e a população em torno do governo. E o Irã adotou uma tática defensiva brilhante: em vez de apenas aguentar os ataques, passou a atacar as bases americanas na região — os EUA têm 11 bases próprias e seis compartilhadas com europeus. Com isso, criou uma guerra regional.”

Maringoni destaca a assimetria de armamentos e a inteligência iraniana no uso de drones. “O Irã tem uma desproporção de armamento em relação a Israel e EUA, mas passou a utilizar de maneira muito inteligente um armamento barato. Drones de 100 a 200 mil dólares criam confusão nos céus, enquanto mísseis de alta potência são usados seletivamente.”

A resposta iraniana ao bombardeio de sua principal refinaria de gás foi um ataque pesadíssimo às instalações na Arábia Saudita e no Catar. “Isso provocou uma interrupção na produção mundial de gás e petróleo. O preço do barril, que estava em US$ 72 no início do mês, bateu US$ 120. É uma alta de quase 70% em um mês — um abalo sério para a economia global.”

Sobre a hesitação europeia, Maringoni explica que os líderes do continente temem as consequências internas. “A Alemanha tenta sair de uma recessão, a Europa já teve um surto inflacionário de 10% por causa da guerra na Ucrânia, que fez governos perderem eleições. Agora, estão sob nova ameaça inflacionária. Além disso, há o medo de que a guerra regional se espalhe para a Europa com atentados.”

Ele revela a pressão violenta de Trump sobre os aliados. “Entre a segunda e a quinta-feira, Trump soltou um post violentíssimo, dizendo que os países da Otan não atenderam ao apelo norte-americano, mas que tudo bem: ‘vamos agir sozinhos, depois não venham pedir socorro’. O constrangimento sobre os europeus é enorme.”

O professor aponta uma contradição crescente entre os aliados Donald Trump e Benjamin Netanyahu. “O primeiro-ministro israelense quer uma invasão por terra, com soldados no Irã. Mas você não invade um país de 94 milhões de habitantes com 10 ou 20 mil soldados. Seriam necessários 200 ou 300 mil, num combate de duração imprevisível. Trump quer sair da guerra, mas não consegue porque enfiou o pé na jaca.”

Ele lembra que o porta-aviões estadunidense Gerald Ford teve problemas e está fora de operação. “Não se sabe se foi atingido ou se é problema interno. O fato é que estão sem sua mais poderosa arma de guerra na região.”

Sobre a possibilidade de drones sobrevoarem bases dos EUA, Maringoni é cauteloso. “Os Estados Unidos se colocaram em uma posição vulnerável. O Irã conseguiu dispersar a guerra, abrir várias frentes de combate, forçando o inimigo a defender bases em vários países. Se algum navio europeu for atingido, estaremos diante de uma guerra muito maior.”

Ele conclui com uma visão preocupante. “Trump e Netanyahu conseguiram criar uma confusão mundial do nada, para expandir seu poder no Oriente Médio. Agora, não sabem como sair. O Brasil já está sendo atingido pela alta dos combustíveis, e a China, um dos principais fornecedores de fertilizantes do país, suspendeu exportações para garantir seu mercado interno. É uma crise global em curso.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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