Falta novos nomes

‘Há dificuldade em mostrar que o PT é mais que Lula’, analista avalia cenário eleitoral e futuro da esquerda

Paulo Niccoli Ramirez analisa ascensão de João Campos como nome para 2030 e crise de renovação na esquerda

No audio source provided.
Lula
Raquel Lyra (PSD), Lula (PT), Janja da Silva, João Campos (PSB) e Tábata Amaral (PSB-SP) da esquerda para direita

Enquanto as eleições de 2026 se aproximam, o tabuleiro político brasileiro começa a ganhar contornos mais definidos. Em Pernambuco, a disputa entre o prefeito de Recife, João Campos (PSB), e a governadora Raquel Lyra (PSDB) expõe não apenas a fragilidade das alianças locais, mas também o dilema nacional do PT: como equilibrar o apoio a candidaturas estratégicas sem desgastar a imagem do presidente Lula em ano eleitoral.

O cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Paulo Niccoli Ramirez, situa a importância do caso pernambucano. “Não se trata apenas de pensar no apoio a João Campos neste ano, mas também em 2030. Existe uma desertificação de lideranças políticas, tanto na direita quanto na esquerda. João Campos talvez seja o nome que venha a substituir Lula em 2030 — é a figura mais popular, a que melhor fala a linguagem das redes sociais entre todas as figuras de esquerda com relevância nacional.”

No Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele pondera, no entanto, que Campos não é exatamente um nome de esquerda nos moldes do PT. “Seu pai flertou com visões neoliberais, e o PSB rompeu com Dilma em 2014. Mas, para 2030, ele deve ser a alternativa.”

Sobre o dilema imediato do PT, o analista aponta a “saia justa”. “Se o partido declarar apoio a um candidato, pode prejudicar a imagem de Lula. O melhor é não declarar apoio a nenhum dos dois, para não promover rivalidade em torno da figura do presidente. Mas isso também significa pensar em 2030.”

A eleição de 2030 pode ser a primeira sem qualquer ex-presidenciável na disputa, Ramirez vê um problema estrutural no PT: Lula tem um nome maior do que o partido. “É necessário que, se Lula for eleito em 2026, ele consiga transferir sua popularidade para o partido. Mas no Brasil, as pessoas votam mais em candidatos do que em partidos. À direita é fragmentada ideologicamente; à esquerda tem pautas claras, mas dificuldade de mostrar que o PT é mais que Lula.”

Ramirez também compara os dois possíveis nomes para 2030. “João Campos tem carisma, algo que vem decidindo eleições desde Dilma. Haddad tem competência econômica, mas falta o que sobra em Campos. Lula terá que transferir seu carisma para um sucessor, como fez com Dilma, e contar com o apoio de outras forças de esquerda.”

Sobre o cenário mais amplo, o analista alerta. “A extrema direita vai ameaçar a democracia brasileira pelas próximas eleições. É fundamental que as esquerdas pensem de forma estratégica, independentemente de suas bandeiras. É uma questão de sobrevivência da democracia e dos próprios partidos.”

Sobre a estratégia do PT para enfrentar Flávio Bolsonaro, Ramirez explica o timing. “Lula não pode ser presidente e candidato ao mesmo tempo. Antes de abril, ele não pode antecipar críticas sem cometer crime eleitoral. Mas os estrategistas já estão preparando a artilharia.”

Ramirez aposta que o cenário na direita é incerto. “Se Flávio não se sustentar, candidatos de segundo escalão podem subir. Mas a fragmentação da direita não é positiva para eles — quanto mais gente concorrendo, mais tiro amigo.” O analista encerra com uma ressalva sobre as pesquisas. “Elas são muito precoces. O eleitor ainda não deu o match com os candidatos, salvo Lula, que já é conhecido de todos.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter